Polos agrícolas do Centro-Oeste dão 70,9% a Flávio e são vencidos; dólar sobe 11% no 1º dia útil após reeleição
Região deu ao senador vantagem de 1,87 milhão de votos, sete vezes menor que a de Lula no Nordeste; Bolsa aciona circuit breaker pela primeira vez desde 2020, e juro de 2031 vai a 14,46%.

O Centro-Oeste e os municípios que lideram a produção agrícola da região votaram em peso em Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno de domingo (25) e foram vencidos. Nos 15 municípios com maior valor de produção agrícola de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, o senador teve 70,87% dos votos válidos, pelas contas do Campo em Pauta com os dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No país, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para o quarto mandato com 51,79%, ante 48,21% de Flávio, uma diferença de 4.430.191 votos.
A conta chegou na abertura dos mercados nesta segunda-feira (26). A primeira cotação Ptax do Banco Central, às 10h11, saiu a R$ 5,6052, 11,3% acima dos R$ 5,0377 do fechamento de sexta-feira (23). A B3 acionou o circuit breaker no mercado à vista logo depois da abertura e suspendeu os negócios por 30 minutos, o primeiro acionamento desde março de 2020, segundo o InfoMoney. O juro futuro de janeiro de 2031 subiu 1,82 ponto percentual, a 14,46%, segundo a CNN Brasil, e o Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e atrelados à inflação previstos para esta semana.
O dólar mais caro eleva o preço da soja e do milho em reais, mas encarece adubos e defensivos, cotados na moeda americana, e a alta dos juros longos pesa sobre o custo do dinheiro. O BTG Pactual projeta que o real pode perder de 10% a 15% de valor depois da reeleição, por causa das incertezas fiscais e do risco de juros longos mais altos por mais tempo.
A região que votou contra
Somados, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal deram 5.603.867 votos a Flávio (60,01% dos válidos) e 3.733.919 a Lula (39,99%). A vantagem de 1.869.948 votos do senador na região foi sete vezes menor que a de Lula no Nordeste, onde o presidente teve 69,37% e abriu 13.653.696 votos de frente. O Centro-Oeste respondeu por 7,5% dos votos válidos do país.
Flávio venceu em 14 das 27 unidades da Federação, incluindo todo o Sul e todo o Centro-Oeste. Lula ganhou nas outras 13, entre elas os nove estados do Nordeste e Minas Gerais, onde o senador tinha vencido no primeiro turno e que agora deu 109.313 votos de vantagem ao petista. No Norte, a diferença entre os dois foi de 1.079 votos a favor de Lula.
Mato Grosso deu a Flávio 66,06% dos votos válidos (1.351.099), a quinta maior votação proporcional do senador no país, atrás de Roraima, Rondônia, Santa Catarina e Acre. Em Goiás, foram 59,66%; em Mato Grosso do Sul, 59,60%; no Distrito Federal, 54,28%. Nos três estados, Flávio venceu em 405 dos 467 municípios: 131 dos 142 de Mato Grosso, 69 dos 79 de Mato Grosso do Sul e 205 dos 246 de Goiás.
Nos 15 maiores municípios agrícolas, o mesmo recorte usado pelo Campo em Pauta no primeiro turno, com base na Produção Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, Flávio venceu em todos, com entre 65,84% (Jataí, GO) e 76,97% (Primavera do Leste, MT). As 15 cidades, que produziram R$ 80,3 bilhões em lavouras em 2025, deram 366.276 votos ao senador e 150.570 a Lula. Nova Mutum (76,12%), Sorriso (75,68%), Lucas do Rio Verde (75,15%) e Querência (74,82%) completam as cinco maiores votações. Sapezal, o maior valor de produção da região, deu 71,66% a Flávio, e Maracaju, único município de Mato Grosso do Sul na lista, 72,20%. Lula não passou de 34,16%, marca que teve em Jataí.
O que mudou desde o primeiro turno
Em relação a 4 de outubro, Flávio ampliou a fatia nas quatro unidades da Federação da região, mas Lula cresceu mais. Em Goiás, onde parte do eleitorado tinha votado no ex-governador Ronaldo Caiado (PSD) no primeiro turno, o petista passou de 31,06% para 40,34% dos válidos, e Flávio, de 53,60% para 59,66%. Em Mato Grosso, Lula foi de 29,18% para 33,94%, e o senador, de 65,15% para 66,06%. A vantagem de Flávio no Centro-Oeste caiu de 2.170.393 para 1.869.948 votos.
Nos 15 municípios agrícolas, Flávio subiu de 69,47% para 70,87%, e Lula, de 23,62% para 29,13%: o presidente ganhou 32.650 votos nessas cidades, e o senador, 19.388. No país, Lula somou 10.376.694 votos aos do primeiro turno, e Flávio, 3.721.538. Foi a primeira vez desde a volta das eleições diretas para presidente, em 1989, que o segundo colocado do primeiro turno venceu a disputa. A abstenção caiu de 21,08% para 19,22%.
Flávio não reconheceu o resultado e anunciou que vai pedir a anulação da eleição, por causa da prorrogação da votação até as 19h decidida pelo ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ronaldo Caiado, que apoiou o senador no segundo turno, disse em Goiânia que respeita a decisão dos eleitores. No Distrito Federal, Celina Leão (PP) foi reeleita governadora com 57,18% dos votos válidos, contra 42,82% de Leandro Grass (PT); em Goiás, Daniel Vilela (MDB) já tinha sido eleito no primeiro turno.
Em discurso na noite de domingo, Lula disse que vai governar "para 215 milhões" de brasileiros e manter relação de respeito com o Congresso. "Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar", afirmou.
Juros, crédito e dívida na mesa
O quarto mandato começa com o produtor do Centro-Oeste mais endividado. Como mostrou o Campo em Pauta, o saldo de dívidas rurais vencidas há mais de 90 dias em MT, MS e GO subiu 70% em um ano, e o crédito do Banco do Brasil ao campo de julho a 20 de outubro ficou 44% abaixo do mesmo período do ciclo anterior. A MP 1.376, das dívidas rurais, caduca em 11 de novembro. Antes do resultado, o comentarista do Canal Rural João Henrique Hummel avaliou que o presidente eleito, qualquer que fosse, teria de enfrentar de imediato o endividamento e os pedidos de recuperação judicial dos produtores, além de armazenagem, logística, crédito e juros.
Na campanha, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), resumiu a queixa do setor ao responder a uma fala de Lula sobre o agro, em setembro. "O agro está de joelhos pelo que você causou para o país: a gastança desenfreada, os juros nas alturas, o seguro rural que não existe desde 2025, o crédito agrícola que não chega a quem deve chegar, a renegociação das dívidas que você não deixou tramitar", escreveu.
Com informações de TSE (resultado do 2º turno, Brasil e UFs), TSE (resultado do 1º turno), TSE (mapa de municípios), TSE (governador, 2º turno, DF), TSE (governador, 1º turno, GO), Banco Central (Ptax), InfoMoney, CNN Brasil, Money Times, Canal Rural, Jovem Pan, SpaceMoney, Gazeta do Povo, Campo em Pauta (matéria 59, lista da PAM), Campo em Pauta (matéria 200) e Campo em Pauta (matéria 222).



