Crédito do BB ao campo cai 44%, Goiás contrata 42% menos; cooperativas já têm um terço do crédito em MT e MS
Banco do Brasil liberou R$ 31,3 bilhões de julho a 20 de outubro, com corte de 55% para grandes produtores; em Goiás, 27,6% da carteira rural tem dificuldade de pagamento, diz a Faeg. Nos dados do Banco Central, bancos públicos cortaram pela metade o crédito de agosto em MT e GO, e as cooperativas seguraram o volume.

O crédito rural encolheu nas três pontas do sistema financeiro no início da safra 2026/27. O Banco do Brasil, maior financiador do campo, desembolsou R$ 31,3 bilhões entre 1º de julho e 20 de outubro, 44,1% menos que os R$ 56,5 bilhões do mesmo trecho do ciclo passado, segundo números do banco publicados pela Globo Rural nesta sexta-feira (23). Em Goiás, a contratação de julho a setembro caiu 42,18%, para R$ 5,049 bilhões, de acordo com o Relatório de Acompanhamento do Desembolso do Crédito Rural da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), divulgado na quinta-feira (22). E, pelas contas do Campo em Pauta com a Matriz de Dados do Crédito Rural do Banco Central, os bancos públicos cortaram pela metade o crédito contratado em agosto em Mato Grosso e em Goiás, enquanto as cooperativas de crédito mantiveram o volume e já respondem por um terço do crédito rural de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul.
A Faeg atribui a retração ao "aumento do saldo de operações com dificuldades de pagamento, o que eleva o risco para as instituições financeiras e torna mais rigorosos os critérios de concessão de novos financiamentos". Em agosto, a carteira ativa de crédito rural de Goiás somava R$ 78,841 bilhões, dos quais R$ 21,749 bilhões (27,6%) eram saldo problemático: R$ 10,833 bilhões em operações renegociadas, R$ 6,977 bilhões inadimplentes há mais de 90 dias, R$ 2,221 bilhões em atraso de 15 a 90 dias e R$ 1,718 bilhão prorrogados antes do vencimento. Em agosto de 2025, o saldo problemático era de R$ 11,62 bilhões: cresceu 87% em um ano, e a parcela renegociada mais que dobrou, de R$ 4,72 bilhões para R$ 10,83 bilhões. "Embora nem todo saldo problemático represente inadimplência, sua elevada participação pode contribuir para maiores exigências de garantias e restrições no acesso a novos recursos", diz o relatório, feito pela gerência técnica da federação com dados do Banco Central.
O corte em Goiás, que não inclui as Cédulas de Produto Rural (CPR), atingiu todos os perfis de produtor, mas foi mais fundo no topo. Os "demais produtores", da agricultura empresarial, contrataram R$ 3,517 bilhões, 45,15% menos que os R$ 6,412 bilhões de um ano antes, e o número de contratos caiu de 4.871 para 2.605 (-46,52%). O Pronamp, do médio produtor, recuou 37,3%, para R$ 1,196 bilhão, e o Pronaf, 18,72%, para R$ 336,3 milhões. Por finalidade, o custeio caiu 45,16%, de R$ 5,81 bilhões para R$ 3,186 bilhões, e o investimento, 37,48%, para R$ 908,7 milhões. Só a comercialização cresceu, 48,14%, para R$ 846,8 milhões. No total foram 9.845 contratos, 29,7% menos, e Goiás ficou com 6,19% do desembolso nacional, na 7ª posição entre os estados.
Bancos públicos cortam metade; cooperativas seguram
O Campo em Pauta cruzou a Matriz de Dados do Crédito Rural por tipo de instituição, comparando agosto de 2026 com agosto de 2025. Em Mato Grosso, os bancos públicos (Banco do Brasil, Caixa, BNDES, Banco da Amazônia, bancos estaduais e de desenvolvimento) emprestaram R$ 876 milhões, metade (-50%) do R$ 1,752 bilhão de um ano antes. Os bancos privados caíram 48,3%, de R$ 1,324 bilhão para R$ 684 milhões. As cooperativas de crédito e seus bancos, como Sicredi e Sicoob, emprestaram R$ 827 milhões, apenas 1,6% menos. Com isso, a fatia das cooperativas no crédito rural do estado passou de 21,5% para 34,6% em um ano, e a dos bancos públicos caiu de 44,7% para 36,7%. No total, Mato Grosso contratou R$ 2,387 bilhões no mês, 39% menos que os R$ 3,916 bilhões de agosto de 2025.
Em Mato Grosso do Sul, os bancos privados foram os que mais recuaram: 52,3%, de R$ 538 milhões para R$ 257 milhões. Os públicos caíram 25,4%, para R$ 527 milhões, e as cooperativas cresceram 17,8%, para R$ 412 milhões, o que elevou sua fatia de 21,9% para 34,5% do crédito do estado, que somou R$ 1,196 bilhão (-25%). Em Goiás, onde os bancos públicos tinham 64,4% do crédito rural de agosto de 2025, o corte foi de 53%, de R$ 2,132 bilhões para R$ 1,001 bilhão. Os privados ficaram quase estáveis (-2,3%, R$ 860 milhões), e as cooperativas cresceram 12,8%, para R$ 338 milhões. No Centro-Oeste inteiro, o crédito rural de agosto caiu 34,7%, de R$ 8,883 bilhões para R$ 5,797 bilhões: 47,8% a menos nos bancos públicos, 35% a menos nos privados e 6,2% a mais nas cooperativas. A participação dos públicos na região passou de 52% para 41,5%, e a das cooperativas, de 16,8% para 27,4%. No país, a queda do mês foi bem menor, de 19,3%, de R$ 42,99 bilhões para R$ 34,71 bilhões: os bancos públicos cortaram 33%, os privados, 19,8%, e as cooperativas emprestaram 1,7% a mais e chegaram a 39,4% do crédito rural nacional, ante 31,2% um ano antes.
No BB, grande produtor perde 55%
A retração do Banco do Brasil se concentra nas linhas para grandes produtores e nos títulos do agronegócio. A concessão para grandes propriedades caiu 55%, de R$ 33,6 bilhões para R$ 15,1 bilhões, nos 112 primeiros dias do Plano Safra, e o financiamento por CPR passou de R$ 6,7 bilhões para R$ 3,7 bilhões. "À medida que tem um aumento da inadimplência na agricultura empresarial, o produtor inadimplente não acessa crédito. E não acessa em nenhuma instituição", disse o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do banco, Gilson Bittencourt, a jornalistas nesta semana, segundo a Globo Rural. Ele reconheceu que o banco está "mais restritivo" também por causa da análise de risco do mercado, que, nas palavras dele, "está mais cuidadoso" com as grandes propriedades.
Para pequenos e médios, o quadro é outro. O Pronaf subiu 1,7% no BB, de R$ 8,3 bilhões para R$ 8,4 bilhões. No Pronamp, o desembolso caiu 44%, para R$ 4,4 bilhões, ante R$ 7,9 bilhões, mas o banco contratou R$ 3,9 bilhões de pré-custeio da safra 2026/27 entre março e junho, o que, segundo Bittencourt, repõe quase toda a diferença. Nos investimentos há "pé no freio" em todas as faixas, exceto no Pronaf. "É mais um ano de ajuste nos investimentos", afirmou. "Eu quero emprestar, mas eu quero emprestar especialmente para quem (...) tem a capacidade de geração de receita para pagar."
Bradesco cresce na pessoa jurídica, e inadimplência sobe
O aperto não é geral. O Bradesco informou na quinta-feira (22), no balanço do terceiro trimestre, que sua carteira de crédito rural para pessoa jurídica chegou a R$ 57,7 bilhões, 30,2% acima dos R$ 44,3 bilhões de um ano antes e 1,9% acima do segundo trimestre, segundo a CNN Brasil. A carteira de pessoa física somou R$ 41,5 bilhões, 6,3% a mais que em setembro de 2025, mas abaixo dos R$ 42,4 bilhões de junho. A carteira mede o saldo devedor acumulado, não o dinheiro novo liberado na safra, e a conta do risco aparece no mesmo balanço: a inadimplência acima de 90 dias do banco subiu para 4,6%, ante 4,3% no segundo trimestre e 4,1% um ano antes, com impacto, segundo o banco, da carteira rural de pessoas físicas. O custo do crédito chegou a 3,7% da carteira, com provisões maiores "por maior concentração de vencimentos do segmento rural"; a despesa com provisões somou R$ 10,6 bilhões no trimestre, 24,3% mais que um ano antes, segundo a InfoMoney.
Pela análise da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) sobre os dados do Banco Central, a safra 2026/27 tem o pior início de contratação em cinco temporadas. "Nós temos aí um problema dos juros que são altíssimos", disse a vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), ao apresentar o levantamento em 24 de setembro, quando classificou a situação do produtor como "tempestade perfeita". A bancada do agro liga a seca de crédito ao atraso na renegociação das dívidas. "A MP das dívidas rurais foi anunciada para resolver um problema urgente, mas os principais entraves continuam", afirmou o presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), em 30 de setembro, depois que o relator da Medida Provisória 1.376 rejeitou as emendas da bancada. "O endividamento já chegou ao patrimônio das famílias rurais." A MP caduca em 11 de novembro, com contratações até o dia 12, e o BB, que já renegociou R$ 3,3 bilhões, mira R$ 20 bilhões.
Para a Faeg, o desempenho de julho a setembro "reforça a necessidade de acompanhar as condições de acesso ao crédito e seus possíveis reflexos sobre o planejamento financeiro dos produtores ao longo da safra". A federação goiana chama a atenção para a queda mais intensa justamente no custeio e no investimento, "considerando a importância dessas modalidades para o financiamento da produção, a aquisição de tecnologias e a manutenção da capacidade produtiva das propriedades rurais".
Com informações de Globo Rural, Faeg (Relatório de Acompanhamento do Desembolso do Crédito Rural, ed. 1/2026), Faeg (PDF do relatório), Canal Rural, Banco Central (Sicor, Matriz de Dados do Crédito Rural, OData SegmentoIFRegiaoUF), CNN Brasil, InfoMoney, Agência FPA (Plano Safra 26/27 tem pior início) e Agência FPA (relatório da MP das dívidas rurais).



