CMN editou 274 normas para renegociar dívida rural desde 2000; atraso em MT, MS e GO sobe 70% em um ano
Saldo vencido há mais de 90 dias nos três estados cresce R$ 8,84 bilhões, e 16,6% da carteira rural de MS já é ativo problemático. Flávio promete ferramentas de securitização; o governo aposta na MP 1.376, que caduca em 11 de novembro.

O Conselho Monetário Nacional (CMN) publicou 274 resoluções com regras para renegociar dívidas rurais entre 2000 e outubro de 2026, mais de dez por ano, segundo levantamento do Banco Central feito a pedido do jornal Valor Econômico e divulgado na quinta-feira (22) pela Globo Rural. Desde a Lei de Securitização Agrícola (9.138), de 1995, foram aprovadas ao menos 24 leis sobre o tema e feitas 31 renegociações, quase uma por ano. O presidente que sair das urnas no domingo (25) vai herdar a pressão por uma nova rodada.
Os produtores cobram uma saída diferente das anteriores. Na carta enviada aos dois candidatos neste mês, a Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) pede uma “solução estrutural para o estoque de dívidas rurais, inclusive com mecanismos de securitização”, segundo a Globo Rural. “O cenário de endividamento rural é preocupante em todo o país e tem comprometido a sustentabilidade financeira dos produtores, especialmente diante do elevado custo do crédito e da redução das margens de rentabilidade”, disse o presidente da entidade, Maurício Buffon, ao portal Movimento Econômico.
A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas, que mede o saldo com parcela atrasada há mais de 90 dias, chegou a 9,69% em agosto, o maior nível da série do Banco Central, iniciada em 2011. Somadas as operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas, a carteira problemática era de R$ 205 bilhões, 23,8% do crédito rural, segundo dados do BC compilados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
Atraso cresce 70% em MT, MS e GO
Pelas contas do Campo em Pauta com o Sistema de Informações de Créditos (SCR), do Banco Central, o saldo de crédito rural e agroindustrial com parcela vencida há mais de 90 dias em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás cresceu 69,9% entre agosto de 2025 e agosto de 2026, mês mais recente disponível. São R$ 8,84 bilhões a mais em um ano, enquanto a carteira total dos três estados aumentou 2,1%. Goiás teve a maior alta, de 81,3%, seguido por Mato Grosso do Sul (73,2%) e Mato Grosso (54%). No país, o aumento foi de 84,7%.
O SCR mede também o ativo problemático, que soma as operações atrasadas há mais de 90 dias e as reestruturadas em que o banco reconhece piora significativa do tomador. Nos três estados, ele chegou a R$ 27,64 bilhões em agosto, 14,5% da carteira, ante 11,5% um ano antes. Mato Grosso do Sul tem a maior fatia, 16,6%, seguido por Goiás (16,4%) e Mato Grosso (11,7%); a média nacional é de 10,6%. Os três estados têm 24,6% do crédito rural e agroindustrial do país e 33,8% do ativo problemático.
O que cada candidato propõe
O plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL) registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) promete “ampliar o Seguro Rural e trazer ferramentas de securitização e reorganização das dívidas do setor, dando ao produtor o horizonte de mais de um ano que ele precisa para planejar”. Depois do 1º turno, ao declarar apoio ao senador, integrantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reforçaram a necessidade de uma solução, segundo a Globo Rural. A aposta da bancada do agro é o projeto de lei 5.122/2023, que autoriza o uso do Fundo Social do Pré-Sal e de outros fundos para refinanciar dívidas de produtores com perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com limite de R$ 10 milhões, 13 anos de prazo e juros de 3,5% a 7,5% ao ano. O Senado aprovou o texto com mudanças em 10 de junho, e ele voltou à Câmara, onde aguarda votação.
“A solução já foi dada. Está no projeto 5.122. Ela tem recurso financeiro suficiente para não contar com o orçamento e fazer o refinanciamento”, disse à Globo Rural o coordenador institucional da FPA, deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Segundo a Globo Rural, uma fonte que ajudou na campanha diz que a proposta seria desenhada na transição. Há resistência: o consultor jurídico do agronegócio José Carlos Vaz considera “impossível” uma nova securitização diante das contas públicas.
O programa do presidente Lula (PT) não cita renegociação de dívidas rurais. No capítulo agrícola, promete seguir “fortalecendo o crédito rural, ampliando os recursos do Plano Safra e assegurando juros compatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária”. A resposta do governo é a Medida Provisória 1.376, de julho, regulamentada pelo CMN nas resoluções 5.330, 5.334 e 5.340, que autorizam os bancos a abrir as linhas “por sua conveniência e decisão”. A MP perde a validade em 11 de novembro se não for votada, e as contratações vão até o dia 12. As campanhas do PT e do PL não responderam à Globo Rural.
O cenário eleitoral tem provocado novos atrasos nos pagamentos, segundo a Globo Rural. “Há uma expectativa equivocada de que vai vir uma anistia. Isso é praticamente impossível pelos volumes que estamos falando em termos de crédito rural”, disse ao jornal o vice-presidente de Agronegócios do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt.
A conta das renegociações
O governo federal não tem o detalhamento do gasto com as renegociações, mas o Painel do Orçamento Federal registra ao menos R$ 15 bilhões em equalização e subvenção entre 2000 e 2026, ligados a apenas quatro das 24 leis, segundo o levantamento. Só a MP 1.376 tem impacto previsto de R$ 3,2 bilhões por ano em equalização, ao longo de dez anos.
Pesquisadores do Cepea defendem que a próxima resposta separe prorrogação de renegociação, tenha coordenação mais efetiva e exija contrapartidas, como um plano de fluxo de caixa com assistência técnica. “A adesão facultativa [dos bancos] à MP [1.376] é a explicação mais simples para o seu baixo alcance”, diz o estudo. O economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, quer medidas de alongamento automáticas, “na prateleira” para o produtor, um Plano Safra plurianual e seguro rural mais forte.
Até a MP caducar, a FPA vai tentar aprovar um texto alternativo que amplie a renegociação, segundo a Globo Rural. Para a Aprosoja Brasil, renegociações que “apenas alteram a data de vencimento de parcelas” não bastam, porque as prestações continuariam incompatíveis com o caixa do produtor, apertado pelos juros altos e pelas margens menores.
Com informações de Globo Rural (274 normas de renegociação), Globo Rural (dívidas e o presidente eleito), Globo Rural (emaranhado de leis), Banco Central (SCR.data, agosto de 2026), Banco Central (SCR.data, agosto de 2025), Banco Central (SCR.data, metodologia), Banco Central (SGS, série 21148), Banco Central (Resolução CMN 5.330), Banco Central (Resolução CMN 5.340), Cepea/Esalq-USP (Endividamento rural no Brasil 2013-2026), TSE (propostas de governo, 2026), Câmara dos Deputados (PL 5.122/2023), Rádio Senado, Senado Federal (tramitação da MPV 1.376/2026) e Movimento Econômico (Aprosoja Brasil).



