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MT, MS e GO renegociam só R$ 223 milhões pela MP das dívidas, 4% do país; Rio Grande do Sul leva 82,6%

Os três estados fecharam 131 contratos até setembro, com juro médio de 11% ao ano e prazo mais curto que o dos gaúchos. Vice-presidente do BB diz que o agro “não está em crise”; a MP caduca em 16 dias, sem votação no Congresso.

Por Redação Campo em Pauta ·

Colheitadeira vermelha avança sobre lavoura de soja madura ao entardecer, com a sombra do fotógrafo projetada na palhada em primeiro plano
Colheita de soja em Goiatuba (GO), em 2013. Foto: Tiago Firmino Boaventura de Oliveira (CC BY 3.0)

Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás contrataram R$ 222,9 milhões nas linhas de renegociação de dívidas da Medida Provisória 1.376 até 30 de setembro, 4% dos R$ 5,54 bilhões contratados no país, segundo levantamento do Campo em Pauta nos microdados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central. O Rio Grande do Sul ficou com R$ 4,57 bilhões, 82,6% do total. A MP perde a validade em 11 de novembro, daqui a 16 dias, e o relatório do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), entregue à comissão mista em 28 de setembro, ainda não foi votado, segundo o sistema do Congresso.

A lentidão é alvo das entidades do setor desde o início de setembro. “O produtor rural precisa de uma solução que funcione na prática, e não apenas de uma possibilidade prevista na legislação”, diz a carta enviada ao Congresso em 3 de setembro por entidades como Abiove, Abrapa, a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) e a goiana Adial. O texto pede que o Congresso simplifique a comprovação das perdas e reduza a exigência de entrada para quem não tem como desembolsar.

No recorte por estado, Goiás fechou 42 operações, com R$ 86,7 milhões; Mato Grosso, 49, com R$ 81,2 milhões; e Mato Grosso do Sul, 40, com R$ 55,1 milhões. São 131 das 16.682 operações registradas no país, menos de 1%. Por valor, Goiás aparece em 5º lugar, Mato Grosso em 6º e Mato Grosso do Sul em 9º; no Rio Grande do Sul foram 15.016 contratos. O painel lançado pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) com a mesma base aponta R$ 5,56 bilhões no país e 83% no estado.

Em Mato Grosso, o valor renegociado equivale a 0,4% dos R$ 21,8 bilhões que o estado tinha em carteira de crédito rural problemática em abril, segundo dados do Banco Central compilados pela Farsul. Os dados vão até 30 de setembro e não captam outubro, quando o BB diz ter acelerado as contratações.

Juro maior e prazo menor

O contrato médio nos três estados foi de R$ 1,7 milhão, 5,6 vezes o gaúcho, de R$ 304,6 mil, e 75 operações acima de R$ 1 milhão somam 89% do valor da região. O juro médio, ponderado pelo valor, ficou em 11% ao ano, ante 8,56% no Rio Grande do Sul. Pelas contas do Campo em Pauta, a diferença de 2,4 pontos representa cerca de R$ 41 mil a mais de juros por ano num contrato do tamanho médio da região.

A explicação está nas faixas da MP. No Rio Grande do Sul, 81,6% do valor saiu pelas linhas para quem comprovou perda de pelo menos 40% da renda em três safras por clima, com juros de 5% no Pronaf, 8% no Pronamp e 11% para os demais produtores, e até dez anos de prazo. No Centro-Oeste, essa fatia foi de 44,6%, e 82% do valor foi contratado a 11% ou 12%, as taxas dos demais produtores, que ficam acima dos limites do Pronaf e do Pronamp. O prazo médio foi de 7,3 anos em Goiás, 7,9 em Mato Grosso e 8,4 em Mato Grosso do Sul, ante 9,6 anos no Rio Grande do Sul. O Banco do Brasil respondeu por 56% do valor renegociado nos três estados, e 96% dele foi contratado em setembro.

BB diz que agro “não está em crise”

Na semana passada, em conversa com jornalistas, o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, disse não ver crise no setor. “O agro não está quebrado, não está em crise, está pujante”, afirmou, segundo a Globo Rural, que publicou a entrevista no domingo (25). Para ele, mais de 90% dos agricultores seguem com as contas em dia e, apesar de problemas de liquidez, o setor continua “estruturado e capitalizado”, com terras valorizadas.

O executivo pediu que inadimplentes e produtores com operações prorrogadas de prazo curto procurem a MP, porque pagariam “as primeiras parcelas de juros só daqui seis meses, em uma nova safra, com novos preços”. O banco, porém, vinha exigindo entrada ou garantia em alienação fiduciária para fechar a renegociação, com base na resolução 4.966, de 2021. No primeiro semestre, o BB tinha R$ 43,6 bilhões provisionados para riscos do crédito rural, o equivalente a 10,3% da carteira rural do banco. Segundo Bittencourt, a MP só deve aliviar essa conta no médio prazo.

Bittencourt falou ainda em “banalização” dos pedidos de recuperação judicial no campo. “É um instrumento legal que está colocado à disposição dos produtores, mas que, em alguns casos, virou um discurso fácil para não pagamento de dívidas”, disse. Segundo ele, há pedidos “se transformando em falência, com uma dívida muito maior que a original”. Desde o segundo trimestre de 2025, 875 processos de recuperação judicial de produtores clientes do BB somaram R$ 7,66 bilhões; só entre abril e junho deste ano foram 167, com R$ 1,45 bilhão. Em Mato Grosso, a 4ª Vara Cível de Sinop decretou na semana passada a falência do Grupo Pelissari, em recuperação judicial desde janeiro de 2024, com bloqueio de até R$ 45,4 milhões em ativos financeiros, segundo advogados de credores ouvidos pela Globo Rural.

Juro na carência aperta o caixa

A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) aponta desde julho que a exigência de pagar juros durante a carência “mantém pressão significativa sobre o fluxo de caixa justamente no período em que o produtor precisa recuperar sua capacidade financeira”. No Rio Grande do Sul, a Farsul calculou que só 11,7% do saldo devedor de uma amostra de contratos reais se enquadrava na MP. “Temos um universo de dívida que não para de crescer, dobrando a cada 12 meses, e uma solução que não chega nem perto do problema”, disse o economista-chefe da federação, Antônio da Luz, em julho.

Se não passar pela comissão mista e pelos plenários da Câmara e do Senado até 11 de novembro, a MP perde a validade; as contratações vão até o dia 12. Passado o 2º turno, a pauta volta ao Congresso com a renegociação concentrada no Sul. “Não existe agricultura forte sem produtores economicamente saudáveis”, afirmou o presidente da Aprosoja-MT, Lucas Costa Beber, em nota sobre o resultado da eleição de domingo (25), segundo a Globo Rural.

Com informações de Banco Central (Sicor, microdados de operações de renegociação), Banco Central (Sicor, lista de renegociações por base legal), Banco Central (Sicor, tabela de bases legais), Mais Soja, Globo Rural, Senado Federal (tramitação da MPV 1.376/2026), FPA (carta das entidades sobre a MP 1.376), Notícias Agrícolas (nota da Aprosoja-MT) e CNA (levantamento da Farsul).

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