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Demanda de adubo pode cair 14,5% em 2026, a 42 milhões de t; fosfato recua 18,5% em MT, MS e GO em julho

Nos três estados, as entregas de julho caíram 11,2%, metade do recuo nacional, e o produtor trocou formulados por matéria-prima. Uma tonelada de MAP vale 31,6 sacas de soja em Mato Grosso, e 37,3 para quem vende a safra nova. Yara e Multitécnica levam o gás da União a US$ 5,22 por milhão de BTU.

Por Redação Campo em Pauta ·

Complexo industrial à beira d'água com torre de concreto com o logotipo da Yara, chaminés soltando vapor e colunas azuis e amarelas, com fileira de árvores em primeiro plano
Fábrica de amônia da Yara em Herøya, Porsgrunn (Noruega), em 2015. Foto: Bitjungle (CC BY-SA 4.0)

O consumo de fertilizantes no Brasil deve ficar abaixo de 42 milhões de toneladas em 2026, segundo estimativas de consultorias, indústria e entidades reunidas pelo jornal Valor Econômico e publicadas nesta sexta-feira (23) pela Globo Rural. Pelas contas do Campo em Pauta, seria uma queda de ao menos 14,5% sobre o recorde de 49,1 milhões de toneladas de 2025, de volta ao patamar de 2022, quando a demanda ficou em 41 milhões. Em agosto, a consultoria Argus ainda projetava cerca de 45 milhões. “A ausência de demanda de última hora para o plantio da safra de soja 2026/27 e o ritmo das importações de fertilizantes nitrogenados levaram participantes a revisar as estimativas”, disse ao Valor Renata Cardarelli, responsável por precificação de agricultura e fertilizantes da Argus.

A Mosaic, que parou total ou parcialmente cinco fábricas no país por falta de enxofre, calcula recuo de 10% a 15% nas entregas, para 42 a 44 milhões de toneladas, e não descarta um número menor, segundo o vice-presidente comercial Felipe Pecci: “É uma situação preocupante e meio sem precedentes no nosso mercado”. O presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon, diz que muitos produtores estão usando a reserva de fósforo do solo: “Ou você faz isso, ou aumenta o endividamento”.

Centro-Oeste cai menos, mas corta o fósforo

O dado mais recente da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) é o de julho: 3,96 milhões de toneladas no mês, 22,3% menos que um ano antes, e 22,99 milhões de janeiro a julho, queda de 8,8%, como mostrou o Campo em Pauta. Pelas contas do Campo em Pauta sobre as planilhas estaduais da entidade, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás receberam 1,55 milhão de toneladas em julho, 11,2% menos que em julho de 2025, metade do recuo nacional, e 9,48 milhões no acumulado, 5,1% a menos. Os três estados ficaram com 39,2% das entregas de julho e 41,2% das do ano.

O corte se concentrou no fósforo, o nutriente mais atingido pelo enxofre caro. Em julho, o P2O5 contido nos adubos entregues nos três estados caiu 18,5%, enquanto o nitrogênio recuou 2% e o potássio, 2,4%; de janeiro a julho, o fósforo cedeu 10,4%. Mato Grosso do Sul teve a maior perda, com 45,9% menos fósforo em julho e 30,4% no acumulado; em Goiás, o P2O5 caiu 15,6% no ano, e em Mato Grosso, maior comprador do país, só 1,1%.

A outra mudança é na forma de comprar. As entregas de fertilizantes simples, como ureia, MAP e cloreto de potássio, subiram 1,4% em julho nos três estados, enquanto as de formulações e misturas granuladas caíram 33,1%. Os simples passaram de 63,4% para 72,4% do adubo entregue na região no mês; em Mato Grosso, chegaram a 78,4%. A Anda atribui a retração ao quadro geopolítico, às “relações de troca acima das médias históricas”, à falta de crédito e aos juros, e avisa que o freio “afetará as entregas para a safra 2026/2027”.

Quanto custa o adubo em sacas de soja

Nos portos, a referência do MAP importado está em US$ 840 por tonelada, com frete (CFR), segundo o Nobel Report Agro, da Nobel Trading, de terça-feira (20); a ureia granulada subiu de US$ 470 para US$ 473, e o cloreto de potássio granulado ficou em US$ 366. Para o analista Tomás Pernías, da StoneX, o nitrogênio deve seguir firme no quarto trimestre, o potássio tem a melhor relação entre risco e retorno para o comprador, e os fosfatados podem ceder depois do plantio da soja, mas menos do que de costume, porque a restrição é de oferta. “O mercado de nitrogênio continua muito sensível à evolução do conflito no Oriente Médio”, disse, segundo a Fertilizer Daily.

Pelas contas do Campo em Pauta, ao dólar Ptax de quinta-feira (22), de R$ 5,0383, a tonelada de MAP no porto sai a R$ 4.232,17, a de cloreto, a R$ 1.844,02, e a de ureia, a R$ 2.383,12, sem frete até a fazenda nem margem da revenda. Com a saca de soja disponível a R$ 133,98 em Mato Grosso na quinta, pela média do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), o produtor precisa de 31,6 sacas por tonelada de MAP, 13,8 por tonelada de cloreto e 17,8 por tonelada de ureia. Para quem vende a safra que está indo para a terra, pela paridade de exportação para março de 2027, de R$ 113,33 na quarta-feira (21), são 37,3 sacas por tonelada de MAP, 16,3 de cloreto e 21 de ureia.

Yara corta na Europa e leva gás da União

A queda da demanda chegou ao balanço da Yara, maior fornecedora de nitrogenados do mundo. O lucro líquido do terceiro trimestre foi de US$ 199 milhões, 37,8% abaixo dos US$ 320 milhões de um ano antes, segundo o relatório divulgado na quinta-feira (22). O gás custou em média US$ 16,60 por milhão de BTU na Europa, ante US$ 12,70 um ano antes, e a empresa cortou 150 mil toneladas de amônia e 115 mil de produtos acabados no trimestre, sobretudo em Ferrara, na Itália. No Brasil, as entregas somaram 1,84 milhão de toneladas, 3,6% menos, e 4,22 milhões de janeiro a setembro, queda de 1,3%, com “margens comerciais menores”. Para a companhia, as compras para a temporada 2027 estão atrasadas em todos os grandes mercados, e uma parcela grande ainda precisa ser feita “na primeira safra completa com oferta reduzida do Oriente Médio”.

Do lado da oferta nacional, a Pré-Sal Petróleo (PPSA) vendeu na quinta-feira (22), no primeiro leilão de gás natural da União, todos os 110 lotes ofertados, 1,1 milhão de metros cúbicos por dia, com faturamento de R$ 377 milhões, a um preço médio estimado de US$ 5,83 por milhão de BTU, abaixo dos 10% a 12% do Brent cobrados hoje no mercado, segundo a estatal. A etapa dos nitrogenados teve o menor prêmio, de US$ 1,82, e seus 13 lotes, 130 mil metros cúbicos por dia, ou 11,8% da oferta, ficaram com a Multitécnica e a Yara Brasil, segundo a CNN Brasil. O preço é 115% da média mensal do Henry Hub mais o prêmio: pelas contas do Campo em Pauta, com o Henry Hub de referência do leilão, de US$ 2,9535, a molécula sai a US$ 5,22 por milhão de BTU na saída da unidade de Itaboraí (RJ), sem transporte, distribuição e impostos, para entrega de março a dezembro de 2027. Nos Estados Unidos, o Departamento de Agricultura (USDA) anunciou no mesmo dia US$ 573 milhões para oito fábricas de fertilizantes, com 1,08 milhão de toneladas por ano de capacidade nova.

O enxofre recuou 23% em sete semanas e voltou a ficar abaixo de US$ 1.000 por tonelada nos portos, pela StoneX, mas ainda custa dez vezes o normal. “O patamar histórico é de US$ 100. O problema é muito maior do que [o estreito de] Ormuz”, disse ao Valor o diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva. A revisão da demanda sai quando a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta alta de apenas 1,4% na área de soja 2026/27, a menor em 20 anos.

Com informações de Globo Rural (Valor Econômico), Anda (comentários de julho), Anda (planilhas de 2026), Anda (planilhas de 2025), Yara (relatório do 3º trimestre), CNN Brasil (Yara), PPSA, CNN Brasil (leilão de gás), Canal Rural (leilão de gás), Portal do Agronegócio (Nobel Trading), Portal do Agronegócio (Itaú BBA), Fertilizer Daily (StoneX), CNA (Fertilizantes em Foco, agosto), Banco Central (Ptax), Campo em Pauta (Imea e Cepea, soja), CNN Brasil (USDA) e Farm Policy News (USDA).

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