Teste do E35 fica para janeiro e resultado, para julho; diesel S10 sobe 9,5% em MT desde o início de setembro
Plano decenal do governo prevê R$ 142 bilhões em biocombustíveis até 2036, R$ 25,3 bilhões deles em etanol de milho, mas faz as contas com mistura de 30%. No custo da soja em Mato Grosso, as operações com máquinas sobem 16,1% em um mês, segundo o Imea.

O Ministério de Minas e Energia (MME) prevê começar só em janeiro de 2027 os testes para elevar de 32% para 35% a mistura de etanol anidro na gasolina, o E35, e consolidar os resultados até julho. A portaria com o plano de testes deve sair no início de novembro, disse o diretor de programas do ministério, Marlon Arraes, à CNN Brasil na quinta-feira (29). A decisão final cabe ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que vai receber os relatórios técnicos.
O calendário aperta. A gasolina E32 está em vigor desde 1º de agosto, por decisão do CNPE de julho, com validade até 27 de janeiro de 2027 e possibilidade de uma prorrogação por mais 180 dias. Com os resultados do E35 previstos para julho, o fim da prorrogação e a conclusão dos testes caem no mesmo mês. Em relatório de 29 de setembro, a StoneX registrava que o MME havia formalizado o plano de testes com expectativa de início ainda em setembro.
Os ensaios mecânicos serão feitos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, com 16 veículos de gerações diferentes, de modelos dos anos 1990 aos mais recentes, além de motocicletas e testes de componentes. Renato Romil, gerente da Divisão de Motores e Veículos do instituto, disse que a atenção maior vai para os carros movidos só a gasolina, projetados para teores menores de etanol, e que um veículo pode parecer funcionar bem e ainda assim desgastar peças.
Para o etanol, a diferença é grande. A StoneX calcula que, se o E35 entrar em vigor em agosto de 2027, o consumo de anidro cresce 1,2 bilhão de litros no ano, ou 8,3%, para 15,8 bilhões de litros, e a importação de gasolina A cai 1,1 bilhão de litros, 20,4% a menos que em 2026. Num cenário de volta ao E30 em agosto, o consumo de anidro sobe só 1,3%. A consultoria aponta o etanol de milho, que produz o ano inteiro e tem proporção maior de anidro que o de cana, como reforço da oferta.
Plano decenal conta com E30 e B15
Também na quinta-feira, o MME e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) publicaram o caderno de biocombustíveis do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2036. O documento estima R$ 142 bilhões em investimentos de 2027 a 2036: R$ 39 bilhões em combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel verde, R$ 31,1 bilhões em biometano, R$ 25,3 bilhões em etanol de milho e outros cereais e R$ 24,1 bilhões em formação de canaviais. A oferta de etanol deve passar de 41,6 bilhões para 53,1 bilhões de litros, alta de 2,5% ao ano, e o milho deve responder por 40% do volume no fim do período.
No etanol de milho, o plano prevê 21 novas usinas só de cereal, ampliação de três já existentes e novas unidades flex, com 9,6 bilhões de litros de capacidade a mais, segundo a Globo Rural. No biodiesel, são R$ 9,9 bilhões para nove usinas novas e três ampliações, além de dez novas esmagadoras de soja, com capacidade de 14,6 milhões de toneladas por ano.
As projeções de demanda, porém, seguem a régua antiga. Segundo o MME, a demanda de etanol de 50,7 bilhões de litros em 2036 considera mistura obrigatória de 30% de anidro, abaixo dos 32% em vigor hoje e dos 35% em teste. No biodiesel, a demanda obrigatória de 12,7 bilhões de litros em 2036 parte de um teor de 15% no diesel; com o uso voluntário, chega a 14,7 bilhões. O caderno traz análise de sensibilidade para misturas de 13% a 25%, os limites da Lei do Combustível do Futuro. A consulta pública do PDE 2036 fica aberta até sexta-feira, 6 de novembro.
Diesel pesa no custo por hectare
Enquanto isso, o diesel segue caro. Levantamento da ValeCard com transações de 1º a 26 de outubro em mais de 25 mil postos mostra o S10 a R$ 7,520 por litro na média nacional, 2,55% acima de setembro e cerca de 5% mais caro em dois meses, com alta em 23 das 27 unidades da federação. A gasolina caiu 0,29%, para R$ 6,748, e o etanol subiu 0,52%, para R$ 4,361. A empresa atribui o quadro às desonerações e subvenções federais, entre elas a renovação por 30 dias do subsídio de R$ 2,12 por litro ao diesel rodoviário.
Nos dados semanais da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o S10 em Mato Grosso passou de R$ 6,94 na semana de 30 de agosto a 5 de setembro para R$ 7,60 na de 18 a 24 de outubro, alta de 9,5%. Em Goiás, foi de R$ 6,65 para R$ 7,30 (9,8%), e em Mato Grosso do Sul, de R$ 6,82 para R$ 7,34 (7,6%), ante 6,4% na média do país. Ao longo de outubro, o preço semanal da ANP ficou praticamente parado: em Mato Grosso, caiu de R$ 7,70 para R$ 7,60. A alta medida pela ValeCard compara a média de outubro com a de setembro, que ainda incluía as semanas mais baratas do início do mês.
A conta chega à lavoura. No custo da soja 2026/27 calculado pelo Imea, as operações mecanizadas, que incluem óleo diesel e lubrificantes, passaram de R$ 209,90 por hectare em agosto para R$ 243,73 em setembro, alta de 16,1%, ou R$ 33,83 a mais por hectare. No milho de alta tecnologia, o item subiu 16,4%, para R$ 209,56 por hectare.
Nos postos do Centro-Oeste, o etanol hidratado ganhou vantagem. Na semana de 18 a 24 de outubro, o litro valia R$ 4,08 em Mato Grosso, 60,4% do preço da gasolina, segundo a ANP; em Goiás, a relação era de 61,4%, e em Mato Grosso do Sul, de 62,5%, abaixo dos 70% usados como referência de vantagem. Arraes, do MME, disse à CNN que levar o etanol a novos usos, como a navegação e máquinas que hoje rodam a diesel, depende de condições que tornem os projetos competitivos e deem previsibilidade ao investimento.
Com informações de CNN Brasil (testes do E35), CNN Brasil (E32 em vigor), NovaCana (relatório StoneX), Ministério de Minas e Energia (PDE 2036), Globo Rural, Canal Rural (PDE 2036), Canal Rural (ValeCard), ANP (levantamento de preços, semana de 18 a 24/10), ANP (levantamento de preços, semana de 27/9 a 3/10), ANP (levantamento de preços, semana de 30/8 a 5/9) e Imea (custo de produção soja e milho 2026/27).





