Argentina vê chance de tomar espaço do Brasil nos EUA com Lula reeleito; MT, MS e GO já vendem US$ 1,09 bi em carne lá
Estudo da Bolsa de Cereales de Buenos Aires prevê mais atrito com Milei no Mercosul e disputa acirrada na Ásia, na África e no Oriente Médio. Venda de MS aos argentinos cai 29,4% até setembro, com a soja 63,8% menor em volume.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve acirrar a disputa entre Brasil e Argentina por mercados agrícolas e pode abrir espaço para os argentinos nos Estados Unidos, onde o Brasil enfrenta tarifas mais altas impostas por Donald Trump. A avaliação é de um estudo da Bolsa de Cereales de Buenos Aires e da Fundação INAI divulgado na quinta-feira (29), que também prevê mais tensão no Mercosul com o governo de Javier Milei, aliado de Flávio Bolsonaro (PL) na campanha.
A carne bovina está entre os produtos citados no estudo como candidatos a ganhar acesso melhor ao mercado americano, ao lado de açúcar, mel, sucos, tabaco e frutas frescas. Para o Centro-Oeste, é um mercado que cresceu rápido em 2026. Pelas contas do Campo em Pauta sobre os dados do Comexstat, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás exportaram US$ 1,09 bilhão em carne bovina aos americanos de janeiro a setembro, 91,8% mais que no mesmo período de 2025. Em volume, foram 182 mil toneladas, alta de 64%.
Goiás respondeu por US$ 458,4 milhões dessas vendas, Mato Grosso por US$ 319,5 milhões e Mato Grosso do Sul por US$ 309,3 milhões. Somadas todas as mercadorias, os três estados venderam US$ 1,65 bilhão aos Estados Unidos no período, 43,9% mais que um ano antes, enquanto as exportações do Brasil inteiro para o país caíram 6,5%.
Com os próprios argentinos, o comércio da região encolhe. As vendas de MT, MS e GO à Argentina somaram US$ 289,9 milhões até setembro, queda de 19,9%. Mato Grosso do Sul, que responde por dois terços desse total, vendeu 29,4% menos, US$ 195,5 milhões. A soja puxa a queda: os embarques do grão sul-mato-grossense para o país vizinho caíram de 384 mil para 138,9 mil toneladas, recuo de 63,8%. No país todo, a exportação brasileira para a Argentina cai 18,5% no mesmo período, para US$ 11,58 bilhões.
O que diz o estudo
Os técnicos argentinos não esperam que a briga política entre os dois presidentes derrube o comércio bilateral. “Por ora, não se identificam fatores que permitam antecipar que as diferenças entre os presidentes possam afetar significativamente os fluxos comerciais entre os dois países”, afirma o documento, segundo o La Nación. O Brasil é o terceiro destino da agroindústria argentina, com compras de cerca de US$ 3,5 bilhões por ano, 9% das vendas externas do setor, e pode importar mais de 9 milhões de toneladas de trigo na safra 2026/27, o maior volume em 30 anos.
O risco apontado está na economia brasileira. “A Argentina precisa de um Brasil pujante. Uma economia brasileira em retrocesso compra menos”, diz o texto, que cita a reação negativa dos mercados depois do 2º turno e aponta a credibilidade fiscal do governo como o teste decisivo do novo mandato.
O atrito maior deve ser no Mercosul. Milei negocia acordos por conta própria com os Estados Unidos e com os Emirados Árabes Unidos e pediu adesão ao Tratado Abrangente e Progressivo de Parceria Transpacífico (CPTPP), enquanto o Brasil defende que qualquer acordo externo tenha o consenso dos quatro sócios fundadores. “O Brasil continua se opondo a essas iniciativas bilaterais”, diz o estudo, que vê Lula disposto a evitar um confronto aberto para não abrir a discussão sobre uma reformulação do bloco.
Disputa por Ásia, África e Oriente Médio
Segundo o documento, as tensões entre Brasil e Trump, que levaram a tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, podem favorecer a Argentina nos Estados Unidos, que importam cerca de US$ 220 bilhões por ano em produtos agroindustriais. Hoje, os argentinos respondem por menos de 1% dessas compras. Para reduzir a dependência dos americanos, Lula deve intensificar a busca por compradores no Sudeste Asiático, no norte da África e no Oriente Médio, os mesmos destinos que a Argentina tenta conquistar.
A diferença de escala é grande. Em 2025, o Brasil exportou US$ 169,2 bilhões em produtos do agronegócio, contra US$ 51 bilhões da Argentina, e os dois disputam China, União Europeia, Vietnã e Índia com soja, milho, carnes, açúcar e algodão. A produção brasileira de grãos passou de 122 milhões para 362 milhões de toneladas entre as safras 2005/06 e 2025/26, alta de 195%. “É de se esperar que essa competição se intensifique nos próximos anos, mas fortemente condicionada pelo fator geopolítico”, conclui o texto.
O estudo vê ainda chance de avanço do acordo entre Mercosul e União Europeia, defendido por Lula e hoje aplicado de forma provisória; a entrada em vigor plena depende de parecer do Tribunal de Justiça da UE e da aprovação do Parlamento Europeu. Segundo a INAI, 70% das exportações agroindustriais argentinas ao bloco europeu já entram com tarifa zero.
Milei sem cumprimentos
A relação entre os dois governos segue fria. Na terça-feira (27), o porta-voz da Casa Rosada, Adrián Ravier, disse que o governo argentino não divulgaria comunicado sobre a vitória de Lula, nem pelo Ministério das Relações Exteriores, segundo o jornal Clarín, citado pelo Times Brasil. “Quando Javier Milei foi eleito, em 2023, não houve nenhum gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente ou algo do tipo”, declarou. Lula havia publicado no X, em 19 de novembro de 2023, uma mensagem desejando “boa sorte e sucesso ao novo governo” argentino.
Milei apoiou Flávio durante a campanha. O senador entrou na Argentina na noite de terça-feira (27) antes de seguir para Miami, e, na carta divulgada nos Estados Unidos na quarta-feira (28), agradeceu a Trump e ao presidente argentino.
Com informações de La Nación, Fundación INAI, Comexstat (MDIC) e Times Brasil.





