Soja de MT, MS e GO rende US$ 3,13 bi na UE, 28% mais; a 57 dias da lei antidesmatamento, agro vai à Europa
Região responde por 47,8% do complexo soja que o Brasil vende ao bloco, e Goiás mais que quadruplica o embarque de grão. Na Noruega, onde o acordo com o Mercosul vale desde domingo, toda a soja em grão brasileira sai de Mato Grosso.

Dirigentes da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estão na Europa, com representantes do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), para tentar evitar que a lei antidesmatamento da União Europeia, conhecida pela sigla EUDR, vire barreira à soja brasileira. Segundo o Canal Rural, a comitiva apresentou em Paris, no fim de semana, a Plataforma Agro Brasil + Sustentável e segue para Alemanha, Holanda e Bélgica. As principais obrigações da lei começam a valer em 30 de dezembro para empresas de grande e médio porte, daqui a 57 dias.
O Centro-Oeste é quem mais tem a perder. Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comex Stat, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás exportaram US$ 3,13 bilhões em soja em grão, farelo e óleo aos 27 países da União Europeia de janeiro a setembro, 28,2% mais que no mesmo período de 2025. Foram 7,75 milhões de toneladas, e a região respondeu por 47,8% do valor que o Brasil vendeu ao bloco, de US$ 6,55 bilhões.
Mato Grosso sozinho embarcou US$ 2,24 bilhões, alta de 27,9%, com 3,66 milhões de toneladas de grão e 1,71 milhão de toneladas de farelo. Em Goiás, o farelo domina, com 1,44 milhão de toneladas, mas o grão foi o que mais cresceu: de 51 mil para 221,7 mil toneladas. Mato Grosso do Sul passou de 11,5 mil para 66,9 mil toneladas de grão e manteve 647 mil toneladas de farelo.
O acordo entre Mercosul e União Europeia completou seis meses de aplicação provisória no domingo (1º). Pelos dados do Agrostat divulgados pelo Mapa, as exportações do agro brasileiro ao bloco somaram US$ 12,21 bilhões de maio a setembro, 14,8% mais que um ano antes, e o complexo soja subiu 34,2%, de US$ 3,12 bilhões para US$ 4,19 bilhões. Nesse mesmo intervalo, MT, MS e GO venderam US$ 1,88 bilhão em soja ao bloco, 31,3% mais, ou 44,8% do total brasileiro.
O que a lei exige
A EUDR proíbe vender no mercado europeu soja, carne bovina, café, cacau, madeira, borracha, óleo de palma e alguns derivados ligados a desmatamento ocorrido depois de 31 de dezembro de 2020, mesmo quando a supressão da vegetação foi autorizada no país de origem. As empresas que colocam esses produtos no mercado europeu terão de comprovar a origem, com a localização das áreas de produção. Para micro e pequenas empresas, o prazo vai a 30 de junho de 2027, segundo a Comissão Europeia, e a multa máxima fixada pelos países do bloco deve ser de pelo menos 4% do faturamento anual da empresa na União Europeia. Como mostrou o Campo em Pauta, o Prodes não separa o desmate legal do ilegal, e a lei europeia também não.
“Não basta fazer o que o Brasil já faz a respeito de Código Florestal, de reserva legal, todas essas práticas para a sustentabilidade brasileira com agricultura, mas precisa ser mostrado”, disse ao Canal Rural o presidente da Aprosoja Brasil, Maurício Buffon. Para o presidente da Abiove, André Nassar, “não há motivos para a EUDR virar um problema para as exportações de soja e farelo do Brasil”, e cabe às autoridades europeias reconhecer as políticas e os sistemas de controle do país.
O diretor-executivo da Aprosoja Brasil, Fabrício Rosa, diz que ainda faltam definições sobre os critérios e os procedimentos que os europeus vão usar para verificar o cumprimento das regras, o que gera insegurança para exportadores e importadores diante das multas. Do lado do governo, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) aprovou em setembro a Resolução CEC nº 17, que cria o Relatório de Análise Socioambiental para Operações de Exportação (Rasoe), emitido pela plataforma e que reúne dados oficiais sobre a regularidade ambiental e social das propriedades, segundo o Mapa.
Na Argentina, desconto de 10%
Na Argentina, concorrente do Brasil na soja, a conta da lei já chegou ao campo. Os exportadores pedem “soja Visec”, certificada pelo sistema de rastreabilidade criado pela cadeia, e a bolsa A3 já tem um setor para negociar essa certificação, disse ao La Nación o presidente da Federação de Acopiadores, Fernando Rivara. Em reportagens publicadas na segunda-feira (2), o jornal e o Clarín informaram que, depois de reclamação, os acopiadores ligados ao Instituto de Capacitação Agropecuária (Incagro) poderão habilitar seus silos no sistema sem pagar a certificação externa inicial.
As Confederações Rurais Argentinas (CRA) reclamam que a exigência tem servido para baixar o preço pago ao produtor. “Premiar é pagar um preço adicional acima do preço de mercado, não fazer um desconto de 10%”, disse o secretário da entidade, Adrián Luna Vázquez, numa exposição rural no Chaco, segundo o La Nación.
Noruega compra só de MT
No domingo (1º), entrou em vigor entre Brasil e Noruega o acordo de livre comércio do Mercosul com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), que já valia com a Islândia desde 1º de outubro. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), 99,8% do valor exportado aos noruegueses terá acesso em livre comércio, e os óleos vegetais refinados, que pagavam de 12,7% a 14,4%, passam a ter tarifa zero. Suíça e Liechtenstein ainda dependem de trâmites internos.
Pelo Comex Stat, a Noruega comprou 162 mil toneladas de soja em grão do Brasil de janeiro a setembro, por US$ 73,2 milhões, alta de 53,1% em volume e de 64,2% em valor sobre 2025. Todo esse grão saiu de Mato Grosso. “A gente vem trazendo essas informações e buscando mostrar para garantir o mercado que a gente precisa de soja e farelo aqui na Europa também, que é muito importante para o produtor brasileiro”, disse Buffon.
Com informações de Canal Rural, Ministério da Agricultura e Pecuária, Globo Rural, MDIC, CNN Brasil, Comissão Europeia, La Nación, Clarín e Comex Stat (MDIC).





