Campo em Pauta
Campo em Pauta

Notícias do agronegócio

Política

BB corta 91% do crédito a juro de mercado em MT, MS e GO, e linhas livres encolhem 66% no início da safra

Pelos microdados do Banco Central, o dinheiro sem subsídio caiu de R$ 12,3 bilhões para R$ 4,1 bilhões de julho a setembro e responde por 88% da queda do crédito na região. Quem conseguiu LCA a taxa fixa pagou em média 15,9% ao ano.

Por Redação Campo em Pauta ·

Lavoura de sorgo recém-nascida em primeiro plano; ao fundo, uma colheitadeira verde trabalha em campo de terra avermelhada, com duas palmeiras à esquerda, mata e chapadas no horizonte sob céu nublado
Colheitadeira em lavoura de soja da fazenda Retiro da Aliança, em Goiatuba (GO), com sorgo em início de desenvolvimento no primeiro plano, em 2013. Foto: Tiago Firmino Boaventura de Oliveira (CC BY 3.0)

O crédito rural a juros de mercado, sem subsídio do Tesouro, encolheu dois terços em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás nos três primeiros meses da safra 2026/27. Pelas contas do Campo em Pauta com os microdados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, atualizados no sábado (31), bancos e cooperativas emprestaram R$ 4,14 bilhões nessas linhas de julho a setembro, 66,2% menos que os R$ 12,27 bilhões do mesmo período de 2025. O Banco do Brasil, maior financiador do campo, foi o que mais cortou: suas operações a taxas livres nos três estados caíram de R$ 5,44 bilhões para R$ 459,5 milhões, redução de 91,5%.

No crédito com juros controlados, que reúne os recursos obrigatórios, a poupança rural e a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) equalizadas pelo Tesouro, o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) e o BNDES, a queda foi bem menor, de 9,3%, para R$ 11,13 bilhões. Com isso, a fatia do dinheiro a juro de mercado no crédito rural da região caiu de 50% para 27,1% em um ano. O total contratado nos três estados recuou 37,7%, de R$ 24,53 bilhões para R$ 15,27 bilhões, e as linhas livres explicam 87,7% dessa diferença. O número de contratos a taxas de mercado passou de 4.414 para 1.244.

Mato Grosso teve o maior corte. O crédito a juro de mercado no estado caiu 69,8%, de R$ 6,78 bilhões para R$ 2,05 bilhões, e a participação dessas linhas no total foi de 59,5% para 31,4%. Em Goiás, a redução foi de 66,5%, para R$ 1,3 bilhão, e em Mato Grosso do Sul, de 50,5%, para R$ 797,1 milhões. O BB cortou cerca de nove em cada dez reais que emprestava a taxas livres nos três estados: passou de R$ 2,38 bilhões para R$ 252,5 milhões em Mato Grosso, de R$ 2,32 bilhões para R$ 148,2 milhões em Goiás e de R$ 737 milhões para R$ 58,9 milhões em Mato Grosso do Sul.

Onde o dinheiro sumiu

A maior perda veio da poupança rural não controlada, dinheiro que os bancos captam na caderneta e emprestam ao produtor a taxas livres. Na região, essa fonte caiu de R$ 4,81 bilhões para R$ 431,8 milhões, 91% a menos. Quase tudo era do Banco do Brasil, que tinha emprestado R$ 3,68 bilhões por essa linha de julho a setembro de 2025 e registrou só R$ 11 milhões no mesmo período deste ano.

O crédito com dinheiro de LCA a taxas livres caiu 53,5%, de R$ 6,27 bilhões para R$ 2,91 bilhões. O Bradesco reduziu essas operações na região de R$ 1,99 bilhão para R$ 247,7 milhões, e o BB, de R$ 1,73 bilhão para R$ 445,9 milhões. O Safra, que tinha emprestado R$ 549,3 milhões nos três estados um ano antes, não registrou nenhuma operação. Na contramão, o BTG Pactual passou de R$ 30 milhões para R$ 710 milhões.

Do lado subsidiado, a LCA equalizada pelo Tesouro cresceu 19%, para R$ 4,09 bilhões, e a poupança rural equalizada mais que dobrou, para R$ 1 bilhão. O aumento não compensou a perda nos recursos obrigatórios, a parcela dos depósitos à vista que os bancos têm de aplicar no campo, que caíram 42,4%, de R$ 5,55 bilhões para R$ 3,2 bilhões. No FCO, a queda foi de 7,5%, para R$ 1,8 bilhão.

O movimento se repete no país. O crédito rural a taxas de mercado caiu 54,9% no trimestre, de R$ 36,99 bilhões para R$ 16,68 bilhões, enquanto o controlado recuou 7,1%, para R$ 71,07 bilhões. No BB, as operações a taxas livres em todo o Brasil passaram de R$ 13,68 bilhões para R$ 1,47 bilhão, queda de 89,3%. Pelos números do próprio banco publicados pela Globo Rural, o desembolso total do BB ao campo caiu 44,1% entre 1º de julho e 20 de outubro, como mostrou o Campo em Pauta.

Atraso concentrado nas linhas caras

A retração atinge justamente as linhas que mais cresceram na última década e que concentram os atrasos. Segundo estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, divulgado em outubro e repercutido pela CNN Brasil na segunda-feira (2), as fontes a taxas de mercado eram 5% das contratações rurais em 2013 e chegaram a 40% em 2025. Em agosto deste ano, respondiam por cerca de 43% do saldo das pessoas físicas, mas por 77% do saldo em atraso. Nas séries do Banco Central, a inadimplência acima de 90 dias nessas operações foi de 15,82% em setembro, ante 3,66% nas linhas com juros controlados.

Para os pesquisadores Lucilio Alves e Geraldo Barros, autores do estudo, o recorde de inadimplência no campo não vem simplesmente de endividamento excessivo em relação à renda do setor, mas do custo da dívida, da composição das fontes de financiamento e da concentração dos compromissos em atividades que perderam margem.

O dinheiro que sobrou continua caro. Pelas contas do Campo em Pauta, a taxa média ponderada das operações prefixadas a juro de mercado na região foi de 13,64% ao ano de julho a setembro, ante 14,67% um ano antes, com a Selic hoje em 13,75%. Na LCA a taxas livres, a média ficou em 15,94% ao ano. Nas linhas controladas, foi de 10,42%. Num financiamento de R$ 1 milhão, a diferença entre a LCA livre e a média das linhas controladas soma R$ 55,2 mil de juros em um ano.

A principal fonte das linhas livres também está na mira da equipe econômica. Como mostrou o Campo em Pauta, o governo estuda cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de aplicações hoje isentas de Imposto de Renda, como a LCA, segundo o jornal O Globo. Como o IOF muda por decreto, a cobrança não dependeria do Congresso.

O levantamento soma custeio, investimento, comercialização e industrialização com emissão de julho a setembro e conta como taxas de mercado a poupança rural e a LCA não controladas, os recursos livres, o BNDES livre e a captação externa. Os dados de 2026 podem ser revisados, porque os bancos registram parte das operações com atraso. Para os autores do Cepea, a saída para o endividamento não é um alongamento generalizado das dívidas, mas separar o produtor com falta temporária de caixa daquele cuja renda já não comporta o tamanho do que deve.

Com informações de Banco Central (Sicor, microdados de operações de crédito rural de 2026), Banco Central (Sicor, microdados de operações de crédito rural de 2025), Banco Central (Sicor, tabela de fontes de recursos), Banco Central (SGS 21146, inadimplência rural PF a taxas de mercado), Banco Central (SGS 21147, inadimplência rural PF a taxas reguladas), Banco Central (SGS 432, meta da Selic), CNN Brasil (estudo do Cepea sobre a dívida rural), Canal Rural (estudo do Cepea sobre juros e inadimplência) e BrasilAPI (Receita Federal, identificação das instituições pelo CNPJ).

PublicidadeAnúncio: Summit Paraguay–Brasil, do LIDE, em 13 de novembro em AssunçãoAnúncio: Summit Paraguay–Brasil, do LIDE, em 13 de novembro em Assunção

Mais em Política