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Recuperação judicial no agro cai 20,7%, e MT lidera com 107; juro de 2031 sobe a 12,7% a dois dias do 2º turno

Serasa contou 448 pedidos no 2º trimestre, 197 de pessoas físicas, e Goiás vem em segundo, com 84. Em MS, o FCO aprovou R$ 100,1 milhões para 52 projetos, 26 deles de máquinas. A curva de juros, que havia caído até 1,5 ponto desde julho, voltou a subir nesta sexta com as pesquisas e o petróleo, e pesa nas linhas a juros livres, que já cobram de 15% a 19% ao ano.

Por Redação Campo em Pauta ·

Dois operadores sentados de costas diante de monitores no pregão da Bovespa, com um painel eletrônico de cotações em vermelho e verde ao fundo
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), hoje B3, onde são negociados os contratos de juros futuros, em 2007. Foto: Rafael Matsunaga (CC BY 2.0)

Os pedidos de recuperação judicial ligados ao agronegócio caíram 20,7% no segundo trimestre de 2026, para 448, ante 565 no mesmo período de 2025, segundo o Indicador Serasa Experian Agro de Recuperações Judiciais, divulgado na segunda-feira (19). A queda interrompe três altas seguidas nos segundos trimestres de 2023, 2024 e 2025, e o número também recuou 5,5% em relação aos 474 pedidos de janeiro a março. Mato Grosso segue na liderança, com 107 pedidos (23,9% do total), seguido por Goiás, com 84 (18,8%), São Paulo (72), Minas Gerais (54) e Paraná (42). Mato Grosso do Sul está entre os dez estados com mais pedidos. Juntos, Mato Grosso e Goiás respondem por 42,6% dos pedidos do país, pelas contas do Campo em Pauta.

Quem representa o produtor não vê alívio no número. "O endividamento já chegou ao patrimônio das famílias rurais", disse o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), em 30 de setembro, ao cobrar mudanças na Medida Provisória 1.376, da renegociação das dívidas, que caduca em 11 de novembro. A própria Serasa pede cautela. "A retração nesse segundo trimestre, registrada em pelo menos dois dos três perfis analisados, pode estar relacionada a um período de maior entrada de receitas para parte dos produtores, à sazonalidade das atividades agropecuárias e ao avanço de renegociações com credores", afirmou o head de agronegócio da empresa, Marcelo Pimenta. "Ainda assim, o ambiente segue desafiador, marcado por custos elevados, crédito mais seletivo e endividamento." Para ele, a recuperação judicial "deve permanecer como último recurso".

Os produtores pessoa física continuam sendo o maior grupo, com 197 pedidos, 10,5% menos que os 220 de um ano antes. Mato Grosso teve 49 desses pedidos, Goiás, 46, e Mato Grosso do Sul, 10: os três estados somam 105 pedidos, ou 53,3% das recuperações judiciais de pessoas físicas do país. Por porte, 70 pedidos vieram de produtores "sem propriedades", grupo que inclui arrendatários, 51 de grandes proprietários, 39 de pequenos e 37 de médios. Entre os produtores pessoa jurídica, a queda foi maior: 160 pedidos, 34,2% menos que os 243 do segundo trimestre de 2025. A soja respondeu por 70 deles e a criação de bovinos por 28; Mato Grosso teve 54 pedidos de empresas rurais, São Paulo, 28, e Goiás, 22. As empresas da cadeia do agro, como revendas de insumos e agroindústrias, somaram 91 pedidos, 10,8% menos. Um mesmo processo pode envolver mais de um perfil, por isso os grupos não somam o total, explica a Serasa.

FCO aprova R$ 100,1 milhões em MS, 26 projetos de máquinas

Enquanto os bancos seguram o crédito, o dinheiro do Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) segue saindo em Mato Grosso do Sul. O Conselho Estadual de Investimentos Financiáveis pelo FCO (CEIF/FCO), ligado à Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), aprovou em reunião extraordinária na quarta-feira (21) 52 projetos, com R$ 100,1 milhões em investimentos previstos em 33 municípios, segundo a Agência de Notícias do Governo de MS. A linha FCO Rural levou 47 projetos e R$ 76,3 milhões: 26 de compra de máquinas agrícolas, quatro de reforma de pastagens, três de aquisição de bovinos, três de correção do solo, dois cada de avicultura, armazenagem, irrigação e florestas, e um cada de construções e benfeitorias, energia fotovoltaica e retenção de bovinos. Os outros cinco projetos, do FCO Empresarial, somam R$ 23,7 milhões em comércio e serviços (três), ciência e tecnologia (um) e indústria (um).

No ano, o conselho já aprovou 937 projetos e R$ 1,8 bilhão: 803 do FCO Rural, com R$ 1,532 bilhão, e 134 do FCO Empresarial, com R$ 324,4 milhões. A Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) destinou R$ 3,680 bilhões a Mato Grosso do Sul em 2026, metade para cada linha, e restam R$ 1,823 bilhão para novas propostas. Pelas contas do Campo em Pauta, o campo já tomou 83,3% da metade original de R$ 1,84 bilhão que lhe cabia, e as empresas urbanas, 17,6% da delas. Por isso o conselho remanejou em setembro R$ 600 milhões da linha empresarial para a rural, com teto de R$ 15 milhões por proponente e de R$ 400 milhões no ano para máquinas, caminhões e aviões agrícolas, segundo deliberação publicada no Diário Oficial do Estado e noticiada pelo Campo Grande News.

Juro longo sobe com pesquisas e petróleo

O custo do dinheiro voltou a subir nesta sexta-feira (23), a dois dias do segundo turno. Às 9h10, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 marcava 12,690% ao ano, ante 12,664% no ajuste de quinta-feira (22), e o DI para janeiro de 2031 estava em 12,695%, ante 12,665%, segundo o Canal Rural. O vencimento curto, janeiro de 2027, ficou estável em 13,501%, mesmo com o IPCA-15 de outubro abaixo do esperado: 0,32%, depois de 0,70% em setembro, segundo o IBGE, abaixo do piso das projeções, de 0,37%. O mercado digeria as pesquisas Datafolha, Vox Brasil, Real Time Big Data e Alfa Inteligência, que mostraram disputa acirrada entre Flávio Bolsonaro e Lula, além da alta do petróleo, da subida dos juros dos títulos americanos e da valorização do dólar, que fechou quinta-feira a R$ 5,0383 na Ptax do Banco Central.

A alta desta sexta é pequena diante do caminho percorrido desde julho. Pelos dados do Tesouro Direto, o Tesouro Prefixado 2029 pagava 14,14% ao ano em 1º de julho, 13,85% em 15 de setembro e 12,64% em 15 de outubro, última cotação do arquivo oficial; o Prefixado 2032 caiu de 14,35% para 12,87% no mesmo intervalo. Nos papéis atrelados à inflação, o Tesouro IPCA+ 2035 foi de 8,05% para 6,84% acima do IPCA, e o IPCA+ 2045, de 7,50% para 6,73%. Mesmo depois dessa queda, o mercado ainda cobra 12,7% ao ano para emprestar ao governo até 2031, com a Selic em 13,75%, e é essa curva que baliza o dinheiro que os bancos captam e repassam ao campo fora das linhas subsidiadas.

Para o produtor, a conta chega na safra seguinte. As taxas do Plano Safra 2026/27, lançado em 30 de junho, foram fixadas em 9% ao ano no custeio do Pronamp e 12,5% no custeio empresarial, com investimentos entre 8% e 12,5% e desconto de até 1 ponto para quem tem Cadastro Ambiental Rural regular e adota práticas sustentáveis. A diferença entre essas taxas e o custo de captação dos bancos é paga pelo Tesouro, na equalização, e quanto mais alto o juro de mercado, mais caro fica para o governo manter as taxas ou ampliar os volumes do Plano Safra 2027/28, que o presidente eleito no domingo (25) terá de anunciar em junho. "Boa parte dos recursos do Plano Safra continua operando com juros livres, que chegam entre 15% e 19% ao ano", disse o gerente técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Edson Novaes, no lançamento do plano, quando a federação classificou a redução de juros como "insuficiente diante do nível de endividamento enfrentado pelo produtor rural".

O consultor Miguel Daú, ouvido pelo Canal Rural, avalia que 2027 pode ser ainda mais difícil, com possibilidade de alta dos juros, e recomenda fechar custos e usar o mercado futuro para travar preços. Como mostrou o Campo em Pauta, o custo da soja em Mato Grosso subiu 6,96% nesta safra, e a saca precisa valer R$ 126,67 para empatar.

Os dois candidatos chegam ao domingo com respostas diferentes para a dívida do campo. O plano de governo de Flávio Bolsonaro registrado no Tribunal Superior Eleitoral promete "ferramentas de securitização e reorganização das dívidas do setor"; o governo Lula aposta na MP 1.376, cujas contratações vão até 12 de novembro. Para a vice-presidente da FPA, senadora Tereza Cristina (PP-MS), o produtor enfrenta uma "tempestade perfeita" de inadimplência, crédito escasso e juros. "Nós temos aí um problema dos juros que são altíssimos", disse ela em 24 de setembro. A bancada do agro quer que o próximo governo aprove o projeto de lei 5.122/2023, que usa fundos públicos para refinanciar dívidas de produtores com perdas em duas ou mais safras, parado na Câmara desde junho.

Com informações de Serasa Experian (release do Indicador Agro de Recuperações Judiciais, 2º tri 2026), Forbes Agro, Canal Rural (RJ), Agência de Notícias do Governo de MS (Semadesc/FCO), Campo Grande News, Campo Grande News (remanejamento do FCO), Canal Rural (juros longos), Canal Rural (Diário Econômico), Tesouro Transparente (taxas diárias do Tesouro Direto, CSV), IBGE/Sidra (IPCA-15, tabela 7062), Banco Central (Ptax 22/10 e meta Selic, SGS 432), Poder360 (taxas do Plano Safra 2026/27), Faeg (Plano Safra 2026/2027), Canal Rural (endividamento e juros 2027), Canal Rural (Pronaf, Pronamp e crédito comercial), Agência FPA (relatório da MP das dívidas rurais) e Agência FPA (Plano Safra 26/27 tem pior início).

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