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Flávio promete R$ 900 bi em logística e Ferrogrão; Lula, mais Plano Safra: o que os planos dizem ao agro

Nos programas registrados no TSE, os dois candidatos prometem ampliar o seguro rural e produzir fertilizante no país, mas nenhum fixa valor. Flávio aposta em securitizar dívidas e em licença com prazo; Lula, em Pronaf, reforma agrária e desmatamento zero até 2030. Para a FPA, o plano do senador converge com a pauta do produtor.

Por Redação Campo em Pauta ·

Cinco soldados dos Dragões da Independência, de uniforme branco e vermelho e capacete dourado com penacho, perfilados com lanças diante da fachada iluminada do Palácio do Planalto ao anoitecer
Dragões da Independência em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, em 2014. Foto: Romério Cunha/Palácio do Planalto (CC BY 2.0)

A dois dias do 2º turno, no domingo (25), os planos de governo de Flávio Bolsonaro (PL) e de Lula (PT) registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) coincidem em três promessas ao campo, ampliar o seguro rural, reduzir a dependência de fertilizante importado e investir em logística, e se separam no resto: o senador aposta em reorganizar as dívidas do produtor, dar prazo ao licenciamento e blindar o direito de propriedade; o presidente, em mais Plano Safra, agricultura familiar, reforma agrária e metas climáticas. O Campo em Pauta leu os dois documentos, de 76 e 84 páginas, no pacote de propostas que o tribunal disponibiliza no DivulgaCandContas, atualizado na quinta-feira (22), e comparou ponto a ponto o que cada um diz sobre sete temas.

Quem fala pelo produtor já escolheu lado. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) formalizou apoio a Flávio em 6 de outubro, depois de reunião em que levou ao candidato crédito rural, seguro, regularização fundiária, armazenagem e fertilizantes. O presidente da frente, deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), disse que o apoio veio da convergência entre as propostas do candidato e as demandas da bancada e citou juros na casa de 20% ao ano como a trava do setor, segundo o Canal Rural. A régua da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) é a lista de dez prioridades entregue ao governo em abril: Plano Safra plurianual, R$ 4 bilhões para a subvenção ao seguro rural, R$ 623 bilhões em crédito, fundos garantidores e mais financiamento privado.

Crédito e dívida

No capítulo “Agronegócio e Campo”, Flávio promete “trazer ferramentas de securitização e reorganização das dívidas do setor, dando ao produtor o horizonte de mais de um ano que ele precisa para planejar” (p. 54). O texto não diz quais dívidas, com que prazo ou taxa. O Plano Safra aparece uma única vez, ligado a incentivos à biomassa (p. 55), e o capítulo fiscal promete equilíbrio “limitando o crédito subsidiado com recursos do Tesouro” (p. 71), sem dizer se a regra alcança a equalização de juros do programa. A proposta de comprar dívidas e congelar parcelas por até um ano, anunciada pelo senador no debate da Band no domingo (18), veio depois do registro do documento e detalha como ele pretende fazer a reorganização prometida.

O plano de Lula diz: “Continuaremos fortalecendo o crédito rural, ampliando os recursos do Plano Safra e assegurando juros compatíveis com a rentabilidade da atividade agropecuária”. Promete priorizar máquinas, irrigação e tecnologia e “continuar diversificando as fontes de financiamento, estimulando o mercado de capitais e títulos do agronegócio” (p. 61). Não há volume nem taxa, e não há proposta de renegociação da dívida rural: o Desenrola citado no plano (p. 12 e 57) é para famílias e pequenos negócios. Nenhum dos dois adota o Plano Safra plurianual pedido pela CNA e defendido por Lupion.

Seguro, fertilizantes e logística

Os dois prometem mais seguro, sem número. Flávio promete “ampliar o Seguro Rural, dando previsibilidade a quem planta: safra protegida é oferta garantida, e oferta garantida é preço estável” (p. 31). Lula: “Daremos especial atenção ao fortalecimento da política de seguro rural” e diálogo com o setor para “um instrumento de mitigação dos efeitos das catástrofes para cobrir perdas sistêmicas decorrentes de quebras severas de safra” (p. 62), além de Garantia-Safra e seguro para a agricultura familiar (p. 60). Nenhum dos dois fixa orçamento ou meta de área segurada, como também observou a CNN Brasil.

No fertilizante, a diferença é o instrumento. Flávio quer “apoiar a produção nacional de fertilizantes, aproveitando as reservas de minerais que o país possui, como o potássio e o fosfato” (p. 54) e “favorecer a produção nacional de fertilizantes a partir do gás” (p. 53). Lula lembra que “a Petrobras retomou a produção com 3 unidades em Sergipe, Bahia, Paraná e as obras da unidade do Mato Grosso do Sul foram reiniciadas” e diz que “seguiremos acelerando a produção nacional de fertilizantes” (p. 63), além de bioinsumos na agricultura familiar (p. 60).

É onde Flávio põe o maior número. “Vamos investir R$ 900 bilhões em quatro anos em rodovias, hidrovias, portos, aeroportos e ferrovias”, diz o plano (p. 51), que cria “Corredores Logísticos Inteligentes” com foco nos “corredores de escoamento do Centro-Oeste até os portos”, promete “destravar a Ferrogrão” e um trem de cargas ligando Mato Grosso ao oeste do Paraná e a Santa Catarina. O dinheiro viria de um fundo “lastreado na securitização de ativos e imóveis da União”, PPPs e BNDES (p. 50). O texto não diz quanto disso vai para o agro.

Lula não traz valor para o próximo mandato. O plano cita a execução de R$ 1,3 trilhão do Novo PAC, o recorde de R$ 280 bilhões em infraestrutura em 2025 e diz: “Manteremos o ritmo nas concessões rodoviárias e intensificaremos as de ferrovias em duas frentes: leilão de novos projetos e repactuação dos contratos existentes” (p. 53), além de arrendamentos portuários (p. 54). A Ferrogrão não é citada. Flávio também promete ampliar a armazenagem de grãos (p. 54); no plano de Lula, o tema aparece como retomada dos estoques reguladores de alimentos (p. 58).

Agricultura familiar, ambiente e propriedade

Aqui a assimetria é maior. A expressão “agricultura familiar” e o Pronaf não aparecem no plano de Flávio, que fala em “ampla regularização e titulação do pequeno proprietário rural, para que quem trabalha a terra tenha o documento que prova que ela é sua, possa acessar crédito e investir com segurança” (p. 54), lembrando os “mais de 450 mil documentos de titulação” do governo Bolsonaro. O plano de Lula dedica duas páginas ao segmento: Plano Safra da Agricultura Familiar com “juros compatíveis com o perfil do agricultor”, Pronaf “recorde”, PAA, 45% da alimentação escolar comprada do setor (p. 59) e “continuaremos a avançar na política de reforma agrária, assentando as famílias acampadas” (p. 60).

No ambiente, Flávio fixa “a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029” (p. 58) e diz que o produtor que cumpre a lei deve ser “parceiro da conservação, não como suspeito”. No licenciamento, propõe prazo: “Se não decidir nem se manifestar dentro desse prazo, a licença deve ser concedida” (p. 50), com estabilidade de regras por até 20 anos para grandes projetos. Lula reafirma o “desmatamento líquido zero até 2030” (p. 70) e a destinação de terras públicas a unidades de conservação, territórios indígenas e assentamentos; a palavra licenciamento não aparece no documento.

Flávio promete “segurança jurídica sólida, irreversível e sem margem para relativizações do direito de propriedade, porque ninguém planta e investe no que teme perder” (p. 54) e, nas terras tradicionais, “autonomia aos povos indígenas e quilombolas para decidir sobre atividades produtivas em suas terras” com “indenização de eventuais restrições ao usufruto” (p. 50). O plano não cita invasões, marco temporal nem armas na propriedade. O plano de Lula diz: “Fortaleceremos políticas de prevenção e combate à violência no campo, assegurando a proteção de quem vive no campo e dos defensores dos direitos humanos e ambientais” (p. 61), “demarcação e desintrusão de terras sempre que necessárias” (p. 20) e manter o controle de armas (p. 28).

Na Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), a carta enviada aos dois candidatos em 9 de outubro pediu a reestruturação do estoque de dívidas com prazos compatíveis com o ciclo da safra e um fundo garantidor para o crédito rural, segundo a Globo Rural. Para o consultor Carlos Cogo, da Cogo Inteligência em Agronegócio, o setor não espera “cheque em branco”: lê a equipe econômica de Flávio como sinal de compromisso fiscal, com reflexo nos juros, e cobra um interlocutor formal para o agro, disse ao Broadcast. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), vice-presidente da FPA, que participou da elaboração do plano do senador, é o nome mais citado para o Ministério da Agricultura, segundo ele.

Com informações de TSE - DivulgaCandContas (propostas de governo, eleição 2026), TSE - pacote das propostas de governo 2026 (PDFs dos planos), CNN Brasil, Canal Rural, CNA, Notícias Agrícolas, Gazeta do Povo e Diário do Grande ABC (Broadcast).

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