MS contrata R$ 973 milhões em setembro, menos da metade de 2024; em MT e GO, custeio da soja cai 46% e 45%
De julho a setembro, o crédito rural soma R$ 6,12 bilhões em MT (-46,2%), R$ 5,24 bilhões em GO (-40%) e R$ 3,27 bilhões em MS (-25,9%), pelas contas do Campo em Pauta com dados do Banco Central. No país, a queda é de 25,3%.

Os produtores de Mato Grosso do Sul contrataram R$ 973,4 milhões em crédito rural em setembro, 40,1% menos que no mesmo mês de 2025 e 18,5% menos que em agosto, segundo o boletim de crédito rural da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), com dados da Matriz de Dados do Crédito Rural do Banco Central. Foi o menor volume mensal da safra 2026/27, num mês que, nas duas safras anteriores, esteve entre os de maior contratação por causa do plantio da soja. Em setembro de 2024, o estado havia tomado R$ 2,01 bilhões, mais que o dobro.
“A redução das contratações acompanha um movimento observado em todo o país”, afirmou o analista de Economia da Aprosoja/MS Raphael Gimenes, segundo a entidade. Pelos números do Banco Central reunidos pelo Campo em Pauta, os vizinhos estão em situação pior: nos três primeiros meses da safra, o crédito rural caiu 46,2% em Mato Grosso e 40% em Goiás, contra 25,9% em Mato Grosso do Sul e 25,3% no país.
O custeio, que paga sementes, adubo e defensivos, somou R$ 708,2 milhões no estado em setembro, queda de 31,4% em um ano e de 20,1% sobre agosto. O investimento recuou 42,7%, para R$ 227,2 milhões, e a comercialização, 91,8%, para R$ 10,7 milhões. A agricultura tomou R$ 537,3 milhões, metade do que tomou em setembro de 2025 (-49,9%), e a pecuária, R$ 436,1 milhões (-20,9%).
No acumulado de julho a setembro, Mato Grosso do Sul usou R$ 3,26 bilhões, 26,2% menos que os R$ 4,42 bilhões do mesmo período da safra passada. O custeio caiu 30,3%, de R$ 3,1 bilhões para R$ 2,16 bilhões, e o investimento, 36,9%, para R$ 608,5 milhões. Só a comercialização cresceu, 130%, para R$ 440,4 milhões, quase toda contratada em julho. Sem ela, a queda do estado seria de 33,2%, maior que a do país, segundo a Aprosoja/MS.
MT e GO perdem mais
O Campo em Pauta consultou nesta terça-feira (20) a Matriz de Dados do Crédito Rural para os três estados. Com os registros atualizados, Mato Grosso do Sul aparece com R$ 3,27 bilhões no trimestre, quase o mesmo valor do boletim. Mato Grosso contratou R$ 6,12 bilhões, ante R$ 11,38 bilhões no mesmo período de 2025. Só em setembro, a queda no estado foi de 54%, de R$ 5,12 bilhões para R$ 2,35 bilhões. Goiás somou R$ 5,24 bilhões no trimestre, ante R$ 8,73 bilhões, e R$ 1,97 bilhão em setembro, 31,5% menos.
No custeio, Mato Grosso perdeu 41,2%, para R$ 3,65 bilhões, e Goiás, 43,5%, para R$ 3,28 bilhões. A soja puxou a queda. O custeio da oleaginosa contratado de julho a setembro caiu 46% em Mato Grosso, para R$ 969,4 milhões, e o número de contratos foi de 1.139 para 703. Em Goiás, o recuo foi de 45,2%, para R$ 1,08 bilhão, com 1.378 contratos, ante 2.308. Em Mato Grosso do Sul, a queda foi de 28,9%, para R$ 767,7 milhões, e os contratos passaram de 1.912 para 1.489.
Outras culturas também perderam financiamento. O custeio do milho caiu 59,8% em Goiás, 48,6% em Mato Grosso do Sul e 31,4% em Mato Grosso, onde o do algodão recuou 77,1%, de R$ 815,9 milhões para R$ 186,5 milhões. Na pecuária, o custeio para bovinos caiu 38% em Goiás, 28,2% em Mato Grosso e 21,4% em Mato Grosso do Sul. Somados, os três estados contrataram R$ 14,63 bilhões no trimestre, 40,4% menos que um ano antes, e sua fatia no crédito rural do país caiu de cerca de 21,6% para 17,3%.
Juro menor no papel
O Plano Safra 2026/27 anunciou R$ 622,4 bilhões e juros menores em quase todas as linhas, mas “a contratação efetiva ainda não reflete essas condições mais favoráveis”, diz o boletim da Aprosoja/MS. A taxa média do custeio no estado, que foi de 12,1% ao ano em 2025/26, está em 10,9% nos três primeiros meses da safra, em dado preliminar da entidade. No Brasil, o crédito rural contratado de julho a setembro somou R$ 84,8 bilhões, ante R$ 113,5 bilhões um ano antes, e o custeio caiu de R$ 67,9 bilhões para R$ 52 bilhões.
A Aprosoja/MS atribui a retração também à seletividade dos bancos. Com a alta da inadimplência e das recuperações judiciais, as instituições passaram a exigir mais garantias, como alienação fiduciária de imóveis e cessão de recebíveis, e a concentrar a oferta em clientes com histórico, segundo o Informativo Econômico 16/2026 da entidade. O Agro Score médio dos produtores, da Serasa Experian, caiu de 606 para 591 pontos entre o primeiro trimestre de 2025 e o de 2026. A entidade cita ainda as exigências socioambientais do Manual de Crédito Rural, como a checagem por imagens do Prodes de desmatamento após julho de 2019 para operações com recursos controlados, que aumentam a papelada exigida do produtor.
Em Mato Grosso do Sul, os bancos públicos responderam por 57,2% do crédito contratado nos últimos 12 meses, ou R$ 7,84 bilhões. As cooperativas de crédito ficaram com 22,6% (R$ 3,11 bilhões), à frente dos bancos privados, com 20,2% (R$ 2,77 bilhões). O Pronamp, para o médio produtor, somou R$ 2,6 bilhões no período, e o Pronaf, R$ 621 milhões.
O dinheiro que falta ao produtor sai do próprio caixa, de Cédulas de Produto Rural (CPR), da troca de insumos por grãos com revendas e tradings e do crédito de fornecedores, em geral com prazo menor e custo maior, o que aumenta a exposição a quebra de safra ou a queda de preço, segundo a Aprosoja/MS. Como mostrou o Campo em Pauta, o custeio de soja contratado no estado na safra passada equivale a só 13,7% do custo estimado para plantar a soja sul-mato-grossense nesta safra.
As entidades do setor cobram do governo o fundo garantidor autorizado pela renegociação das dívidas, que, segundo a Aprosoja Mato Grosso, pode reduzir a exigência de garantias reais. Na carta de 3 de setembro sobre a Medida Provisória 1.376, assinada pela Aprosoja/MS, pela Famasul, pela Aprosoja Mato Grosso e pela Famato, entre outras 39 entidades, elas afirmam que “ainda não há uma mobilização por parte do Executivo para que o fundo garantidor saia efetivamente do papel”.
Com informações de Aprosoja/MS (Boletim de Crédito Rural, setembro de 2026), Banco Central (Matriz de Dados do Crédito Rural, Sicor), Aprosoja/MS (Informativo Econômico 16/2026), Campo Grande News, Mais Soja e FPA (carta das entidades sobre a MP 1.376).



