Juro do crédito rural quase dobra em quatro anos, diz Cepea; em MS, 13,7% da carteira tem atraso acima de 90 dias
Taxa média foi de 6,3% para 12,2% ao ano, e a conta de juros do setor saltou de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões. Pelos dados do Banco Central, o Centro-Oeste tem 26% da carteira rural do país e 36% do saldo inadimplente.

O que levou a inadimplência do crédito rural ao recorde foi o custo do dinheiro, e não o tamanho da dívida. É a conclusão de um estudo do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, divulgado nesta segunda-feira (19). A taxa média do crédito rural a pessoas físicas subiu de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025, e a conta anual de juros estimada sobre a dívida do setor quase triplicou no período, de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões, a preços de 2025. Em proporção da renda da agropecuária, passou de 3,9% para 11,4%.
Para as entidades do setor, o diagnóstico confirma o que o produtor sente no caixa. “O produtor rural precisa de uma solução que funcione na prática, e não apenas de uma possibilidade prevista na legislação”, afirmaram 43 entidades, entre elas a CNA, as Aprosojas de Mato Grosso e de Mato Grosso do Sul, a Famato e a Famasul, em carta de 3 de setembro sobre a renegociação das dívidas, divulgada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
O texto, de Lucilio Alves e Geraldo Barros, cruza séries públicas de 2013 a 2026. A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas, que mede o saldo com parcela atrasada há mais de 90 dias, passou de 0,77% em dezembro de 2022 para 9,69% em agosto de 2026, o maior nível da série. Em 2025, porém, a dívida equivalia a 94% da renda anual da agropecuária, na faixa de 2013 a 2019 (87% a 109%), quando a inadimplência era um terço da atual. Para os autores, a dívida “ficou mais cara, mudou de credor e se concentrou”.
O juro subiu com a Selic
Pela série do Banco Central, a taxa média das concessões de crédito rural a pessoas físicas foi de 6,29% em 2021 para 9,95% em 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, quando o Banco Central já subia a Selic para conter a inflação. No governo Lula, ficou acima de 10% nos três anos: 11,23% em 2023, 10,70% em 2024 e 12,19% em 2025, quando a Selic média chegou a 14,3%, segundo o estudo. Em agosto de 2026, a taxa estava em 11,12%.
O crédito oficial seguiu o mesmo caminho. A taxa do custeio para os produtores fora do Pronaf e do Pronamp, fixada no Plano Safra, era de 6% ao ano em 2020/21, passou a 12% em 2022/23 e chegou a 14% em 2025/26, com a Selic em 15%, segundo a Aprosoja/MS. Na safra atual, é de 12,5%. O Cepea registra ainda que os recursos com juros equalizados do Plano Safra 2026/27 caíram de R$ 113,8 bilhões para R$ 97 bilhões, enquanto o gasto do Tesouro com a equalização dobrou em 2025, para R$ 16,2 bilhões.
O atraso está no crédito a juro de mercado
As fontes privadas com taxa livre, como a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), respondiam por 5% do crédito rural contratado em 2013 e chegaram a 47% em 2023 e a 40% em 2025. Como acompanham a Selic, concentram 77% do saldo em atraso: a inadimplência nessas operações era de 17,6% em agosto, contra 3,8% nas de juros controlados. O aperto é maior nos grãos, cujo preço real caiu 28% entre 2021 e 2025; em 2025, uma tonelada de fosfato diamônico (DAP) custou 29,1 sacas de soja, ante 16,7 sacas na média de 2010 a 2019.
A carteira problemática, que soma operações em atraso, inadimplentes, prorrogadas e renegociadas, era de R$ 205 bilhões em agosto, 23,8% do crédito rural, e três quartos dela estão renegociados ou prorrogados, fora da inadimplência. No Rio Grande do Sul, atingido pelas enchentes de 2024, ela chega a 39,2%, com inadimplência de 3,2%. Nos estados de grãos do Centro-Oeste, o problema já virou atraso: em Goiás, a carteira problemática é de 27,6%, com 8,8% inadimplentes; em Mato Grosso do Sul, de 27,1% e 7,4%; em Mato Grosso, de 21,5% e 6,3%.
Centro-Oeste tem mais de um terço do atraso
Os dados do Sistema de Informações de Créditos (SCR), do Banco Central, mostram a piora em 2026. Pelas contas do Campo em Pauta, em agosto, 13,66% da carteira de crédito rural e agroindustrial de Mato Grosso do Sul, de R$ 34,4 bilhões, estava em operações com parcela vencida há mais de 90 dias, o maior percentual entre os dez estados com as maiores carteiras. Em janeiro, eram 9,76%. Goiás vem em seguida, com 12,96% (R$ 9,88 bilhões), ante 9,68% em janeiro, e Mato Grosso tem 9,06% (R$ 6,91 bilhões), ante 7,58%. A média do país é de 8,12%. Como o SCR conta o saldo inteiro dessas operações, os percentuais superam os do boletim usado pelo Cepea.
Somados, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e o Distrito Federal têm R$ 21,85 bilhões nessa situação, 11,36% de sua carteira. A região responde por 26% do crédito rural e agroindustrial do país e por 36% do saldo inadimplente. O juro de mercado pesa também aqui: nas operações com recursos livres, sem destinação específica, a inadimplência é de 22% em Mato Grosso do Sul, 19% em Goiás e 14,8% em Mato Grosso, contra 11,1%, 11% e 7,4% nas operações com recursos direcionados. Em Mato Grosso do Sul, a taxa média do custeio passou de 5,9% ao ano em 2020/21 para 12,1% em 2025/26, acima da média nacional, de 10,5%, segundo a Aprosoja/MS.
O juro também aparece na Justiça. A Ruiz Coffees, com 7,5 mil hectares de café em Minas Gerais e na Bahia, pediu recuperação judicial em São José do Rio Preto (SP) com dívidas de cerca de R$ 1,6 bilhão, R$ 775 milhões delas sujeitas ao processo, informou a Globo Rural nesta terça-feira (20). No pedido, o grupo cita “altas taxas de juros” e o “aumento dos custos financeiros”, além do clima. Segundo o Cepea, os juros aparecem em 60% das petições de recuperação judicial no agro, e o clima, em 85%.
A Medida Provisória 1.376, principal resposta do governo, renegociou R$ 5,98 bilhões até 5 de outubro, 5% dos até R$ 120 bilhões esperados; 80% foram para o Rio Grande do Sul, e só 1,3% para dívidas de investimento, que o estudo aponta como o centro do problema. As contratações vão até 12 de novembro. Os autores defendem separar, caso a caso, quem tem falta de liquidez de quem perdeu a capacidade de pagar, em vez de alongar todas as dívidas.
O setor cobra mais alcance. “Reconhecemos os avanços incorporados ao texto, mas o problema do endividamento rural ainda não foi solucionado de forma definitiva”, afirmou o presidente da Aprosoja Mato Grosso e da Aprosoja Brasil, Lucas Costa Beber, quando a MP foi publicada, em julho.
Com informações de Cepea/Esalq-USP (estudo original), Mais Soja, Canal Rural, Globo Rural, Banco Central (SCR.data, agosto e janeiro de 2026), Banco Central (SGS, séries 20771, 21146, 21147 e 21148), Aprosoja/MS (Informativo Econômico 16/2026), FPA (carta das entidades sobre a MP 1.376), Globo Rural (Ruiz Coffees) e Canal Rural (Aprosoja MT).



