Inadimplência rural cai para 8,7% com renegociação, mas é dez vezes a de 2022; carteira encolhe R$ 12,8 bi
Recuo de 1 ponto em setembro é o maior da série do Banco Central, iniciada em 2011, e coincide com R$ 4,34 bilhões renegociados pela MP 1.376 no mês. Nas linhas a juro de mercado, o atraso ainda atinge 15,8% da carteira.

A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas caiu de 9,67% em agosto para 8,68% em setembro, segundo as séries do Banco Central divulgadas nesta quinta-feira (29) com as Estatísticas Monetárias e de Crédito. O recuo de 0,99 ponto percentual é o maior em um único mês desde o início da série, em março de 2011, mas o índice segue como o terceiro mais alto já registrado, atrás apenas de agosto e de julho deste ano (8,79%). Em setembro de 2022, a taxa era de 0,86%, um décimo da atual.
A queda veio junto com uma contração inédita da carteira. O saldo do crédito rural com recursos direcionados a pessoas físicas caiu de R$ 561,3 bilhões para R$ 548,5 bilhões, R$ 12,8 bilhões a menos em um mês (-2,3%), a maior redução em valor da série, que começa em 2007. Pelas contas do Campo em Pauta, aplicando as taxas sobre os saldos, o volume em atraso há mais de 90 dias passou de cerca de R$ 54,3 bilhões para R$ 47,6 bilhões, uma redução de R$ 6,7 bilhões.
O movimento se concentrou nas operações contratadas a taxas de mercado, as mais caras para o produtor. Nelas, a inadimplência caiu de 17,62% para 15,82%, e o saldo encolheu R$ 11,1 bilhões, 4,7%, para R$ 226,6 bilhões, também a maior perda em valor da série. Um ano antes, em setembro de 2025, o atraso nessas linhas era de 10,11%. Nas operações com taxas reguladas, como as do Plano Safra com juro controlado, o índice passou de 3,84% para 3,66%, e o saldo recuou 0,5%, para R$ 322 bilhões.
Em agosto, o Banco Central havia divulgado 9,69% de inadimplência, número citado pelo Campo em Pauta à época; na série revisada, o mês aparece com 9,67%. Mesmo com o recuo de setembro, o índice ainda sobe 2,1 pontos no ano e 3,24 pontos em 12 meses. Nas empresas, o atraso do crédito rural ficou estável em 1%, e o saldo de crédito para companhias da agropecuária caiu 0,3% no mês, para R$ 57,7 bilhões, segundo os dados do BC publicados pelo Canal Rural.
A renegociação explica parte do recuo
A nota do Banco Central sobre o crédito de setembro não comenta o resultado do crédito rural. O período, porém, coincide com o pico da renegociação pela Medida Provisória 1.376. Pelas contas do Campo em Pauta nos microdados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), os bancos registraram em setembro 12.631 operações de composição de dívidas pela MP, que somaram R$ 4,34 bilhões, ante R$ 1,2 bilhão em agosto. O Rio Grande do Sul concentrou R$ 3,44 bilhões, 79,3% do mês, e Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, R$ 213,7 milhões.
Pela Resolução 5.330 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que regulamenta a MP, o dinheiro da nova linha serve para liquidar ou amortizar operações de custeio, comercialização e investimento que estavam inadimplentes desde 2024 e continuavam em atraso em 31 de maio de 2026. A dívida antiga é quitada ou reduzida, e o contrato novo começa em dia, com até dois anos de carência para o principal. A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) destacou, quando a MP saiu, em julho, que as operações renegociadas passam a ser classificadas como novos financiamentos na análise de risco.
A renegociação, por outro lado, não desaparece da conta do produtor. Segundo a Aprosoja Brasil, com base no Sicor, a fatia renegociada da carteira de crédito rural saltou de 5,5% em abril de 2025 (R$ 44,62 bilhões) para 12% em maio de 2026 (R$ 106,6 bilhões de R$ 890,59 bilhões). A entidade também critica a linha para valores acima dos limites oficiais, que usa recursos livres. “As altas taxas de juros que acompanham esta modalidade de operação não contribuem para a resolução do endividamento e podem agravar a situação financeira dos produtores rurais”, afirmou em ofício enviado ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, em julho.
Bancos encolhem a carteira
Os balanços do trimestre mostram bancos mais cautelosos. No Santander, a carteira de crédito rural de pessoas físicas caiu 18,7% em um ano, para R$ 7,5 bilhões no fim de setembro, e a de empresas recuou 10%, para R$ 10,4 bilhões, segundo o balanço do terceiro trimestre publicado pela CNN Brasil na quarta-feira (28). O banco relatou aumento da inadimplência acima de 90 dias de pessoas físicas no trimestre, com piora nos segmentos de baixa renda e do agronegócio.
O prazo é curto. As linhas da MP podem ser contratadas até 12 de novembro, e a medida perde a validade no dia 11 se não for votada. Até esta quinta, a comissão mista não tinha votado o relatório do deputado Paulo Pimenta (PT-RS), recebido em 28 de setembro, segundo o sistema do Congresso. Em São Paulo, a Secretaria de Agricultura publicou em 21 de outubro um estudo do Instituto de Economia Agrícola (IEA) com as perdas da cana, da laranja e do amendoim para embasar os pedidos nos bancos. “O produtor rural está apanhando de fatores que não controla: clima, alta nos custos de produção, oscilação de mercado e o preço do dinheiro”, disse o secretário Geraldo Melo Filho, segundo a Agrishow Digital.
Para as entidades do campo, a queda de setembro não encerra o problema. “Reconhecemos os avanços incorporados ao texto, mas o problema do endividamento rural ainda não foi solucionado de forma definitiva”, afirmou o presidente da Aprosoja-MT e da Aprosoja Brasil, Lucas Costa Beber, sobre a MP. No ofício à Fazenda, ele argumentou que ampliar a renegociação custaria menos que “a deterioração da carteira de crédito rural, do aumento da inadimplência e da necessidade de futuras intervenções governamentais”.
Com informações de Banco Central (Nota para a Imprensa, Estatísticas Monetárias e de Crédito, 29/10/2026), Banco Central (SGS 21148, inadimplência do crédito rural de pessoas físicas), Banco Central (SGS 21146, inadimplência rural PF a taxas de mercado), Banco Central (SGS 21147, inadimplência rural PF a taxas reguladas), Banco Central (SGS 20609, saldo do crédito rural de pessoas físicas), Banco Central (SGS 20607, saldo rural PF a taxas de mercado), Banco Central (SGS 20608, saldo rural PF a taxas reguladas), Banco Central (Sicor, microdados de operações de renegociação), Banco Central (Sicor, lista de renegociações por base legal), Banco Central (Sicor, tabela de bases legais), Banco Central (Resolução CMN 5.330/2026), Canal Rural (inadimplência rural em setembro), Canal Rural (estoque de crédito em setembro), CNN Brasil (Santander), Senado Federal (tramitação da MPV 1.376/2026), Agrishow Digital (prazo da renegociação e estudo de SP), Canal Rural (nota da Aprosoja-MT sobre a MP) e Notícias Agrícolas (ofício da Aprosoja Brasil à Fazenda).





