Flávio recebe permissão de um ano para ficar nos EUA, cancela coletiva e diz que vai liderar a oposição de fora
Autorização do governo Trump, da categoria DT, vence em outubro de 2027 e não é visto nem asilo. Em carta, o senador indica Rogério Marinho para presidir o Senado e promete falar regularmente aos eleitores.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e a família receberam do governo de Donald Trump uma autorização para permanecer nos Estados Unidos por até um ano, com vencimento previsto para outubro de 2027, segundo registros da agência americana de Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) divulgados pela CNN Brasil nesta quinta-feira (29). A permissão, da categoria “DT”, foi registrada para Flávio, a mulher, Fernanda, e ao menos uma das filhas na chegada a Miami, na quarta-feira (28).
A sigla corresponde a “discretionary parole”, uma autorização temporária que o Departamento de Segurança Interna (DHS) concede caso a caso, por razões humanitárias urgentes ou por benefício público relevante para os Estados Unidos. Não é visto nem admissão formal pelo sistema de imigração americano, e tampouco é asilo. Na terça-feira (27), o Departamento de Estado havia dito à CNN e à Reuters que emitiria vistos para a família. O Campo em Pauta não localizou, até o fim da manhã desta quinta, confirmação de pedido formal de asilo.
Pelos mesmos registros, Flávio apresentou na entrada o passaporte diplomático e o comum, os dois cancelados pela Polícia Federal na terça, depois que ele deixou de entregá-los no prazo fixado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A coletiva que não houve
A entrevista coletiva anunciada por aliados para a tarde desta quinta-feira, em Miami, não vai acontecer. Ela foi cancelada no meio da tarde de quarta, segundo a coluna Direto da Casa Branca, do SBT News. Logo depois, a equipe do senador distribuiu a veículos brasileiros e estrangeiros uma declaração de três páginas, em vários idiomas, também publicada nas redes. Na primeira versão, Flávio se dirigia “ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Minutos depois, o texto foi republicado com “o líder do Brasil” no lugar da expressão, segundo a CNN e o Congresso em Foco.
“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”, escreveu o senador, que agradece a Trump e ao presidente argentino, Javier Milei. “Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime”, afirma. Ele promete se dirigir regularmente aos brasileiros e apresentar “uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos”. Aos senadores, deputados e governadores que ajudou a eleger, e “em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho”, diz: “Liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer”.
No trecho sobre a eleição, Flávio diz ter visto “uma fraude eleitoral se concretizar” no domingo (25) e ataca a prorrogação da votação até as 19h decidida pelo ministro Cristiano Zanin, a quem chama de “ex-advogado do Lula”. Segundo ele, a decisão chegou depois do horário legal, submeteu eleitores a regras diferentes e permitiu “uma impossibilidade matemática”: Lula ter somado mais de 10 milhões de votos entre os turnos. O senador também afirma que houve abuso de poder político e econômico na campanha e defende a cassação da chapa Lula-Alckmin. A carta não apresenta provas de irregularidade na votação ou na apuração, observa a CNN.
O que dizem TSE, PF e aliados
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, respondeu em nota que as eleições “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais” e que os questionamentos feitos “dentro do devido processo legal” serão analisados e respondidos. A campanha do senador também havia pedido ao TSE a extensão do horário em São Paulo, no Paraná e em Santa Catarina, por causa do tempo, segundo a CNN.
No inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas envolvendo Flávio e o advogado Willer Tomaz, a PF avalia pedir o bloqueio de bens e contas do senador, segundo a CNN, e trata com cautela um eventual pedido de prisão preventiva. A corporação também apura se ele teve ajuda de empresários e políticos para sair do país. A defesa prepara dois pedidos ao presidente do STF, Edson Fachin, para tirar Moraes da relatoria: um sustenta que o caso caberia ao ministro André Mendonça; o outro, que Moraes seria suspeito. Flávio nega irregularidades. O Campo em Pauta não localizou decisão sobre o pedido de prisão feito por deputados do PT na terça.
Entre os aliados, a carta não teve endosso. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho, que coordenou a campanha, disse na quarta que não foi consultado e que não pode afirmar que houve fraude. “Não tenho provas e eu acabei de dizer que é um desabafo de alguém que está se sentindo injustiçado”, afirmou à CNN, embora tenha acusado a chapa de Lula de abuso de poder econômico. Nesta quinta, depois de visitar Jair Bolsonaro com autorização de Moraes, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disse que “ninguém aprovou” o texto e que “nem o Bolsonaro sabia” da viagem. O PL e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) já haviam reconhecido o resultado.
Em Washington, Trump evitou endossar a reivindicação. “Bem, não vou comentar isso, mas sei que demos autorização para que ele entrasse no país, então vamos ver. Mas não vou me envolver. Foi uma eleição muito estranha, isso é certo”, disse, segundo o SBT News, acrescentando que o senador e a família foram tratados “de maneira muito injusta”. Um integrante do governo americano disse à coluna que apresentar-se como presidente de fato do Brasil não é algo que os Estados Unidos desejariam. Em Brasília, o Itamaraty orienta cautela e deixa o caso com a Justiça, enquanto o governo tenta esclarecer o papel da Argentina e dos EUA na viagem.
O mandato de Flávio no Senado termina em fevereiro de 2027, quando ele ficará sem cargo eletivo pela primeira vez em 24 anos. Na carta, ele diz que a disputa não acabou com a votação. “Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um país livre”, escreveu.
Com informações de CNN Brasil (autorização DT da CBP), CNN Brasil (passaportes), SBT News, Brasil 247, Congresso em Foco (íntegra da carta), Congresso em Foco, CNN Brasil (carta), CNN Brasil (TSE e aliados), CNN Brasil (Marinho), CNN Brasil (Valdemar), CNN Brasil (Valdemar visita Bolsonaro), CNN Brasil (PF e bloqueio de bens), CNN Brasil (PF apura ajuda), CNN Brasil (pedido a Fachin), CNN Brasil (governo apura rota) e SBT News (Itamaraty).





