Fazenda do 4º mandato segue sem nome; Meirelles não vê no governo quem banque ajuste, e agro teme juro de 15%
Governador do Piauí, Rafael Fonteles é o mais cotado, e Galípolo nega ir para a pasta. O risco-país subiu 26% no 1º dia útil depois da reeleição, e a bancada do agro diz que a conta das promessas de campanha vai chegar ao produtor.

Três dias depois da reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda não escolheu quem vai comandar o Ministério da Fazenda no 4º mandato, que começa em janeiro, e o mercado cobra um nome capaz de frear o gasto. Na segunda-feira (26), primeiro dia útil depois do 2º turno, o CDS de cinco anos do Brasil, derivativo que protege contra calote da dívida e serve de termômetro do risco-país, subiu 26%, de 120,2 para 151,7 pontos, o maior nível desde junho de 2025, segundo o Estadão Conteúdo. A Ptax do dólar, calculada pelo Banco Central, subiu 9,2% no mesmo dia, a R$ 5,50.
Os estrategistas do Morgan Stanley avaliam, em relatório citado pela mesma reportagem, que o CDS pode subir mais 40 pontos se as pressões fiscais se intensificarem. Logo depois do 1º turno, com Flávio Bolsonaro (PL) na frente, o indicador tinha caído abaixo de 108 pontos, o menor nível em seis anos.
O ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles diz não enxergar no governo quem possa bancar uma virada nas contas públicas. “Certamente não há ninguém no governo que eu saiba. Pode estar lá dentro, mas ninguém publicamente que esteja fazendo uma declaração clara de que é necessário controle fiscal”, afirmou ao CNN Money na segunda. “Fato é que estamos com a dívida pública elevada e, se seguirmos nesse ritmo de gastos fiscais, vai ficar insustentável.”
Para Meirelles, o escolhido precisa ser “alguém favorável à mudança” e ter um passado que confirme o compromisso fiscal e peso junto a Lula para sustentar as propostas. Sobre o arcabouço de 2023, disse que o “maior problema” é que a regra “não está sendo seguida”: segundo ele, o governo cumpriu as metas de gasto deixando despesas extraordinárias fora da conta, e “a dívida cresce independentemente de como o governo a contabiliza”.
Os nomes na mesa
O mais citado é o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), ex-secretário da Fazenda do estado e ex-presidente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), formado em matemática e mestre em economia matemática. Ele sinalizou a aliados disposição de ir para a Esplanada se Lula quiser e confia no vice, Washington Bandeira (PT), para assumir o governo estadual, segundo a CNN Brasil. Num livro de 2025, Fonteles escreveu que, “sem equilíbrio fiscal, as tensões socioeconômicas se elevam e o processo de desenvolvimento torna-se totalmente comprometido”.
O atual ministro, Dario Durigan, elogiou o colega na terça-feira (27). “Não tratamos de equipe. Isso é um assunto que o presidente vai se debruçar nas próximas semanas para definir e acho o nome do Rafael excelente”, disse, segundo o Poder360. Durigan, que se reuniu com Lula na segunda, atribuiu a reação do mercado a uma troca de posições de quem apostava na vitória de Flávio e disse não ver desconfiança sobre as contas públicas. Ele afirmou que segue no cargo até o fim do ano sem definição sobre o próprio futuro, segundo o ND Mais.
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, descartou a mudança na terça. “Não existe eu estar sendo cotado. Nada disso relativo à Fazenda. Para quem é economista, não existe emprego mais legal do que o que eu estou”, disse, em entrevista sobre o Relatório de Estabilidade Financeira. O mandato dele no BC vai até dezembro de 2028.
O cientista político Lucas de Aragão, sócio da Arko Advice, vê a disputa “entre o Geraldo Alckmin e o Rafael Fonteles, talvez com uma leve vantagem em direção ao Alckmin”, e não descarta um nome do mercado, cenário que considera menos provável. Para ele, o nome não basta. “Não vai adiantar um ministro da Fazenda que, individualmente, tenha boa vontade do mercado se ele não conseguir impor algumas agendas que são amargas e não conversam com as propostas de campanha”, afirmou à CNN Brasil. Aragão lembrou que Fernando Haddad e Durigan foram vistos como ministros que tiveram as visões atropeladas pela política, pelo próprio Lula e pela Casa Civil.
Na sexta-feira (23), Durigan já tinha dito que não há como resolver o problema fiscal no primeiro ano do novo mandato, como mostrou o Campo em Pauta. Em janeiro, entra em vigor a CBS, o novo imposto federal que substitui PIS e Cofins, e a alíquota do IVA em discussão com os setores gira em torno de 28%, segundo a CNN Brasil.
O que o agro cobra
Na primeira reunião depois da eleição, na terça, o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), disse que a população vai “pagar a conta” das promessas feitas pelo governo na véspera do 2º turno. “Essas promessas de campanha feitas pelo governo terão um preço, que recairá sobre a população, com inflação e menos recursos nas diversas áreas”, afirmou o deputado Luiz Carlos Hauly (Pode-PR), integrante da frente, segundo a Safras & Mercado.
No setor de cana, a palavra é apreensão. “Estamos apreensivos. Nosso receio é com o macro”, disse à Globo Rural o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, na segunda, em conferência da Datagro em São Paulo. O medo é que o governo não corte gastos, o que alimentaria a inflação e manteria os juros altos; a Selic está em 13,75% ao ano.
O presidente da União Nacional de Bioenergia (Udop), Hugo Cagno, criticou os gastos anunciados por Lula na campanha e cobrou atenção a quem está endividado no campo. “O produtor não aguenta taxa de juros de 14% a 15% ao ano”, disse.
Com informações de CNN Brasil, CNN Brasil (Estadão Conteúdo), CNN Brasil (blog Caio Junqueira), CNN Brasil (blog Larissa Rodrigues), Poder360, ND Mais, Banco Central (Ptax), Safras & Mercado e Globo Rural.





