Agro bate recorde de 28,4 milhões de ocupados; fim da 6×1 encarece em 10% a hora de quem trabalha 44 horas
No Centro-Oeste, lavoura e pecuária empregam 713 mil pessoas, 6,9% mais em um ano. ABPA diz que plantas de aves e suínos em 6×1 vão processar 5% menos e já têm 20 mil vagas abertas.

O agronegócio brasileiro chegou a 28,4 milhões de pessoas ocupadas no segundo trimestre de 2026, o maior número para o período desde o início da série, em 2012. Os dados são do boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), divulgado na sexta-feira (16). O setor responde por 26% dos trabalhadores do país. O recorde chega dois meses antes de a jornada máxima cair de 44 para 42 horas semanais, em 16 de dezembro, com o fim da escala 6×1.
Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o contingente cresceu 0,7%, ou 188,6 mil pessoas. O avanço veio da produção dentro da porteira, o segmento primário, que ganhou 210,2 mil trabalhadores (+2,7%) e chegou a 7,92 milhões, e dos agrosserviços (+1,1%), que somam 10,61 milhões. A agroindústria perdeu 114,2 mil postos (-2,4%), para 4,61 milhões, e a indústria de insumos, 21 mil (-6,5%). Outros 4,94 milhões de pessoas produzem só para o próprio consumo.
Na criação de animais, a mão de obra da avicultura subiu 21%, para 247,6 mil pessoas, e a da suinocultura, 32,9%, para 108,7 mil. A bovinocultura perdeu 94 mil trabalhadores (-5,2%). Na lavoura, os destaques foram o café, em plena colheita (+19,1%), e a soja (+13,8%, para 427,4 mil). Nos frigoríficos e abatedouros, a ocupação caiu 1,2% em um ano e 3,6% no trimestre, para 679,7 mil pessoas.
Os empregados com carteira assinada são 9,88 milhões, 34,8% do total, alta de 0,5% em um ano; os sem carteira caíram 1,7%. O rendimento médio dos empregados do agro foi de R$ 2.972, com ganho real de 3,7% em um ano, mas ainda abaixo da média nacional, de R$ 3.475.
Centro-Oeste emprega mais no campo
O boletim não traz recorte por estado; segundo o documento, os dados regionalizados da agropecuária são fornecidos sob pedido. A PNAD Contínua, do IBGE, que é a base do estudo, permite olhar a produção primária. No Centro-Oeste, 713 mil pessoas trabalhavam em agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura no segundo trimestre, 6,9% mais que um ano antes, ritmo duas vezes e meia o nacional (+2,7%). Em Mato Grosso, foram 268 mil (+14,5%), 12,9% de todos os ocupados do estado. Mato Grosso do Sul tinha 162 mil (+5,9%) e Goiás, 273 mil (+3%). As estimativas estaduais da pesquisa têm margem de erro maior que a nacional.
Quanto custa a hora a menos
A emenda constitucional promulgada na sexta-feira mantém os salários e reduz a jornada em duas etapas. Pelas contas do Campo em Pauta, para um empregado com o salário médio do agro apurado pelo Cepea, a hora trabalhada passa de R$ 13,51, com 44 horas semanais, para R$ 14,15 em dezembro, com 42 horas (+4,8%), e para R$ 14,86 em dezembro de 2027, com 40 horas (+10%). Se o empregador precisar manter as 44 horas pagando as 4 horas que faltam como extras, com o adicional mínimo de 50%, a folha desse trabalhador sobe cerca de R$ 446 por mês, ou 15%, antes dos encargos.
Na indústria de carnes, o efeito começa já. Em entrevista ao Canal Rural publicada neste domingo (18), durante a feira Sial, em Paris, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, disse que a primeira medida das empresas de aves, suínos e ovos será reduzir a capacidade produtiva, para não ter animais prontos sem gente para abatê-los dentro das exigências sanitárias. Segundo ele, as plantas já convivem com mais de 20 mil vagas abertas e recorrem a migrantes do Norte e do Nordeste e a estrangeiros. “Quem trabalha [emprega] no esquema 6×1 direto vai ter que reduzir 5% o número de produtos que entra em sua fábrica”, afirmou.
Santin disse que serão inevitáveis a falta de produtos em alguns mercados e a alta de preços, e que irá a Brasília expor a situação a ministros. “Mas naturalmente que se trata de uma PEC, foi a Constituição Federal do Brasil que foi alterada e precisa ser obedecida em um regime democrático”, ponderou.
No campo, a conta pesa mais para quem tem poucos empregados. “Nós tememos o aumento de custos principalmente para pequenos produtores. Aquele que tem condições de manter apenas um funcionário isso vai impactar bastante, pode tirar pequenos produtores também da atividade”, disse em junho ao Canal Rural Mato Grosso o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber. Ele defende a PEC 12/2026, apoiada pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que mantém o teto de 44 horas, amplia a negociação entre patrão e empregado e paga proporcionalmente às horas trabalhadas. Estudo da FPA citado em maio pelo deputado Rodrigo da Zaeli (PL-MT), vice-presidente da Comissão de Agricultura da Câmara, estima alta de 22% no custo da mão de obra na produção do campo.
O próprio boletim mostra a escassez como pano de fundo: a ocupação no segmento primário caiu de 10,15 milhões em 2012 para 7,77 milhões em 2025, movimento que o Cepea associa à mecanização e a mudanças demográficas, como a ida de jovens para as cidades e o encolhimento das famílias rurais.
Em Querência (MT), o agricultor Írio José Guisolphi, que cultiva cerca de 7 mil hectares de soja e milho, resumiu o problema ao programa Patrulheiro Agro, do Canal Rural Mato Grosso: “Nessa época os safristas nós precisamos deles, e com certeza no lugar de dois, vai ter que contratar três se achar. Está muito difícil encontrar operadores profissionais.”
Com informações de Cepea/CNA – Boletim Mercado de Trabalho do Agronegócio, 2º tri 2026, CNA, Cepea, IBGE/SIDRA – PNAD Contínua, tabela 5434, CNN Brasil, Canal Rural (ABPA), Canal Rural (ABPA, vídeo), Canal Rural Mato Grosso, Canal Rural Mato Grosso (Patrulheiro Agro) e Gazeta do Povo.



