USDA corta pela 8ª vez seguida a produção de carne bovina dos EUA; Coreia do Sul entra no radar do Brasil
Desde fevereiro, revisões tiram 507 mil t da previsão americana para 2026. Maior comprador da carne dos EUA, a Coreia importou 468 mil t em 2025 e ainda não compra a brasileira in natura.

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) reduziu pela oitava vez seguida a previsão de produção de carne bovina do país em 2026. No relatório de oferta e demanda (WASDE) de 9 de outubro, a estimativa caiu 75 milhões de libras-peso, cerca de 34 mil toneladas, para 24,87 bilhões de libras, ou 11,28 milhões de toneladas em equivalente carcaça.
Os cortes começaram em março. Em fevereiro, o USDA ainda previa 25,99 bilhões de libras, cerca de 11,79 milhões de toneladas. Desde então, a estimativa caiu em todos os relatórios mensais, e as revisões somam 1,12 bilhão de libras, perto de 507 mil toneladas, mais do que o Brasil embarcou aos americanos de janeiro a setembro.
Segundo o USDA, a revisão de outubro se deve à expectativa de abate menor de novilhos e novilhas no segundo semestre e a carcaças mais leves, o que mais do que compensa o aumento no abate de vacas. Para o último trimestre, a produção prevista é de 6,4 bilhões de libras, 3,8% abaixo do mesmo período de 2025.
A projeção para 2027 também caiu, pela quarta vez seguida: 24,74 bilhões de libras, cerca de 11,22 milhões de toneladas, 0,5% abaixo de 2026. O órgão cita carcaças mais leves e a entrada menor de animais nos confinamentos no segundo semestre deste ano, que deve reduzir a saída de gado terminado no início de 2027. Segundo análise do economista Josh Maples, da Universidade Estadual do Mississippi, citada pelo BeefPoint, a entrada de animais nos confinamentos ficou abaixo da do ano anterior em dez dos últimos doze meses.
Para cobrir a diferença, o USDA elevou de novo a previsão de importação: mais 85 milhões de libras em 2026, principalmente pelo ritmo recente dos embarques da Austrália, e mais 125 milhões em 2027, pela maior oferta mundial esperada no segundo semestre. Já a exportação americana ficou inalterada, em 2,34 bilhões de libras neste ano, 9,2% abaixo de 2025.
Coreia do Sul, o maior cliente da carne americana
Menos carne para exportar afeta diretamente a Coreia do Sul, o maior comprador da carne bovina dos EUA pelo quinto ano seguido. Em 2025, os sul-coreanos importaram 468.122 toneladas de carne bovina, segundo o Serviço de Alfândega da Coreia, em dados divulgados pela Federação de Exportação de Carnes dos EUA (USMEF). Os americanos venderam 220.427 toneladas, 47,1% do total, e desde janeiro sua carne entra no país sem tarifa, pelo acordo de livre comércio entre os dois países.
A oferta curta nos EUA já pesa nas compras. Em outubro de 2025, os preços mais altos, provocados pela produção americana limitada, levaram importadores coreanos a reduzir estoques de carne dos EUA, segundo a consultoria Expana. A Austrália é a outra grande fornecedora.
O Brasil ainda não exporta carne bovina in natura para a Coreia do Sul. O governo negocia a abertura desde 2008, segundo o Poder360. Uma vistoria em frigoríficos prevista para maio foi cancelada pelos sul-coreanos, segundo a Folha de S.Paulo. Depois do encontro entre os presidentes Lula e Lee Jae-myung, em 27 de julho, uma missão da Agência de Quarentena Animal e Vegetal da Coreia (APQA) avaliou o sistema brasileiro de inspeção entre 11 e 20 de agosto, com roteiro por Mato Grosso do Sul, São Paulo e Pernambuco, segundo o BeefPoint.
O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou ao Poder360 que as visitas não habilitam, por si só, os frigoríficos. O próximo passo é negociar o Certificado Sanitário Internacional entre os dois países; só depois começa a habilitação das plantas. O ministério não deu prazo para a abertura do mercado.
O que está em jogo para o Centro-Oeste
Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul lideram as vendas de carne bovina aos EUA, e a Coreia seria mais uma saída para a mesma carne, num momento em que a cota da China já se esgotou.
Além do certificado sanitário, a carne brasileira terá de disputar espaço com americanos e australianos já estabelecidos. A mesma análise aponta que o consumidor sul-coreano valoriza conhecer a origem da carne e que sistemas de rastreabilidade podem ajudar o Brasil a ganhar a confiança de importadores e varejistas.
Com informações de USDA (WASDE-676, 9/10/2026), USDA (WASDE de fevereiro a setembro de 2026), BeefPoint, The Korea Times/Yonhap (dados do Serviço de Alfândega da Coreia, via USMEF), Poder360, Canal Rural, Comexstat/MDIC e Expana.



