Tarifa de 55% da China já vale para a carne do Brasil; na Austrália, frigoríficos param abates
Brasil esgotou a cota de 1,106 milhão de toneladas em 29 de setembro; embarques de MT, GO e MS para a China caíram 94% em setembro, e exportadores miram a cota de 2027.

Frigoríficos da Austrália começaram a suspender dias de abate porque não têm mais onde guardar a carne. As câmaras frias habilitadas para a China estão lotadas desde que o país asiático passou a cobrar, em junho, uma sobretaxa de 55% sobre a carne bovina australiana que excede a cota anual. A mesma regra vale para a carne do Brasil desde 1º de outubro.
Segundo o portal australiano Beef Central, pelo menos dois, possivelmente três, frigoríficos exportadores perderam dias de produção. Os mais afetados trabalham com carne Wagyu, vendida congelada aos chineses. Os armazéns frigoríficos de Brisbane estão cheios, e os embarques australianos para a China somaram menos de 7,8 mil toneladas em setembro, cerca de um terço do volume de um ano antes. Para driblar a tarifa, exportadores carregaram navios em Brisbane com destino ao Panamá e em Melbourne rumo a Roterdã, na Holanda, para que a carne só chegue à China depois da virada do ano.
A tarifa faz parte de uma salvaguarda adotada pelo Ministério do Comércio da China (Mofcom) para proteger os criadores chineses, em vigor de 1º de janeiro de 2026 a 31 de dezembro de 2028. Cada fornecedor tem uma cota anual. Dentro dela, vale a tarifa normal; o que passa do limite paga 55% a mais, a partir do terceiro dia depois de a cota ser atingida. O saldo não usado não passa para o ano seguinte, e, segundo exportadores, a conta é feita pela carne que chega aos portos chineses, não pela data de embarque.
Em 2026, as cotas são de 1,106 milhão de toneladas para o Brasil, 511 mil para a Argentina, 324 mil para o Uruguai, 205 mil para a Austrália e 164 mil para os Estados Unidos. As cotas sobem a cada ano; a do Brasil passa a 1,128 milhão de toneladas em 2027.
Brasil esgotou a cota em setembro
Em aviso de 30 de setembro, o Mofcom informou que a carne brasileira atingiu 100% da cota em 29 de setembro e que a sobretaxa passaria a valer à zero hora de 1º de outubro. Somada à tarifa de importação de 12%, a carne brasileira fora da cota paga 67% para entrar na China, nível que os exportadores consideram inviável. A Austrália havia chegado ao limite em 18 de junho e paga a sobretaxa desde o dia 20 daquele mês.
A China é o principal destino da carne bovina brasileira. Em 2025, comprou 1,68 milhão de toneladas, 48% do volume exportado, segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). Pelos cálculos da entidade, citados pelo jornal South China Morning Post, a cota de 2026 cobre cerca de 65% do que o Brasil embarcou para os chineses no ano passado, e as exportações totais de carne bovina devem cair cerca de 10% neste ano.
O freio já aparece no Centro-Oeste. Segundo o Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul exportaram cerca de 5 mil toneladas de carne bovina fresca e congelada para a China em setembro, ante 80,7 mil toneladas no mesmo mês de 2025, queda de 94%. De janeiro a setembro, os três estados embarcaram 412,8 mil toneladas, 47% de tudo o que o Brasil vendeu aos chineses.
Desde julho, frigoríficos reduziram abates e deram férias coletivas. A Iguatemi Beef afastou cerca de 650 dos 850 funcionários da unidade de Iguatemi (MS) em julho, e a Plena Alimentos adotou férias coletivas de 21 dias úteis para 1,5 mil trabalhadores em plantas de Goiás e do Tocantins, segundo o jornal Valor Econômico.
Olho na cota de 2027
O governo brasileiro pede, desde janeiro, para usar volumes não preenchidos por outros fornecedores. No fim de setembro, o presidente Lula anunciou que o Uruguai autorizou o Brasil a usar parte da cota uruguaia, que estava 28% preenchida em julho, segundo dados do setor. Segundo o South China Morning Post, Pequim ainda não aceitou a transferência. Ao Valor, o ministro da Agricultura, André de Paula, disse que não houve nova negociação com a China por cota maior e que o acordo com o Uruguai depende do aval chinês.
Enquanto isso, os exportadores brasileiros repetem a estratégia australiana de mirar o ano que vem. Segundo o analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, o caminho mais provável é produzir em outubro e embarcar em novembro e dezembro, para que a carne chegue em janeiro e entre na cota de 2027. Por isso, o efeito sobre a procura por boi gordo tende a ser gradual, disse ele ao Canal Rural.
O risco é a cota nova acabar cedo. Na Austrália, parte do setor acredita que o limite de 2027 pode se esgotar até a Páscoa. No Brasil, a Abiec avalia que, no ritmo atual de vendas, a cota de 2027 pode ser consumida nos primeiros meses do ano e cobra previsibilidade e mecanismos que distribuam os embarques ao longo do ano.
Com informações de BeefPoint, Beef Central, Ministério do Comércio da China (aviso nº 58/2026, Brasil), Ministério do Comércio da China (aviso nº 51/2026, Brasil a 80%), Xinhua (salvaguarda de 2025), South China Morning Post (via The Star), DatamarNews / Valor Econômico, Comex Stat (MDIC) e Canal Rural.



