UE deve liberar frango em novembro; carne bovina, com 72% das vendas do Centro-Oeste, pode ficar fora até 2028
Auditoria europeia aprovou os controles do Brasil para aves e mel sem fazer nenhuma recomendação. MT, GO e MS venderam US$ 585,7 milhões em carne bovina ao bloco até setembro, 49% mais que em 2025, e seguem sem previsão de volta.

O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Augusto Billi, afirmou no sábado (17), em Paris, que a União Europeia deve decidir em novembro a volta da carne de aves e do mel brasileiros ao bloco, com publicação da medida até o início de dezembro. A declaração foi dada no primeiro dia da Sial Paris, uma das maiores feiras de alimentos do mundo, que reúne 156 empresas brasileiras, a maior delegação do país na história do evento, segundo a ApexBrasil.
Antes disso, nesta terça (20) e quarta-feira (21), o Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações (SCoPAFF) da Comissão Europeia recebe, em Bruxelas, o relatório da auditoria feita no país. Segundo Billi, o encontro serve só para apresentar o documento aos 27 Estados-membros. "Eu creio que em novembro a decisão vai ser tomada para que em dezembro a gente seja relistado para carne de aves e para mel", disse à CNN Brasil.
O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, cobra que a decisão siga o critério técnico. "Não vejo a possibilidade de uma decisão política contrária a um argumento técnico bem colocado", afirmou neste domingo (18), na feira, à Globo Rural. Segundo ele, a indústria está pronta para voltar a embarcar "no dia seguinte" à publicação.
O que está suspenso e por quê
O bloqueio vem do Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, publicado no Jornal Oficial da União Europeia em 5 de junho. A norma aplica a proibição europeia ao uso, em animais exportados ao bloco, de antimicrobianos para promover crescimento e dos reservados ao tratamento de infecções em humanos. O texto diz que a Comissão "não recebeu informações que garantam" que o Brasil cumpriria as exigências até 3 de setembro de 2026 e, por isso, tirou o país da lista para bovinos, equídeos, aves, aquicultura, mel e tripas. Foi o único caso de exclusão por falta de garantias; nas outras retiradas, os próprios países informaram não ter mais interesse em exportar os produtos.
A auditoria da Direção-Geral de Saúde e Segurança Alimentar (DG Sante), feita de 24 de agosto a 4 de setembro, cobriu só frango e mel. O relatório final conclui que os controles oficiais brasileiros, "embora implementados recentemente", funcionavam de forma eficaz nas duas cadeias e dão "base sólida" para o país atestar o cumprimento das regras nos certificados sanitários. A única falha, na fiscalização de fábricas de pré-misturas para ração de aves, foi corrigida durante a visita, e o documento não faz nenhuma recomendação. No frango, a garantia depende da segregação da linha de produção destinada ao bloco.
Carne bovina sem data
A carne bovina ficou fora da auditoria. Como o boi leva de 24 a 36 meses do nascimento ao abate, o país só terá animais criados do início ao fim sob o novo protocolo, homologado pelo Mapa em julho, a partir de meados de 2028, segundo reportagem do Estadão de agosto. Governo, exportadores e diplomatas europeus ouvidos pelo jornal avaliavam que a carne vermelha pode ficar fora do bloco até lá; o pedido brasileiro de um regime de transição foi negado. Em reuniões em Bruxelas nos últimos dias, Billi cobrou da Comissão uma resposta sobre o protocolo apresentado para os bovinos, segundo o Canal Rural.
O Centro-Oeste é quem mais perde. Pelos dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul exportaram US$ 585,7 milhões em carne bovina fresca, refrigerada e congelada para a União Europeia de janeiro a setembro de 2026, 71,9% dos US$ 815,1 milhões vendidos pelo país ao bloco. São 49% a mais que nos nove primeiros meses de 2025. Mato Grosso, maior exportador ao bloco, vendeu US$ 316,8 milhões (alta de 45,2%); Goiás, US$ 152,8 milhões (48,6%); e Mato Grosso do Sul, US$ 116,2 milhões (61,3%).
O peso do mercado está no preço. Pelas contas do Campo em Pauta, a tonelada de carne bovina embarcada para a União Europeia saiu em média por US$ 9.078 em 2026, 47,9% acima da média de todas as exportações brasileiras do produto, de US$ 6.137. Em volume, o bloco levou só 4,2% do total exportado. "A gente exporta para a Europa apenas 5% do que nós produzimos, mas é um importante mercado formador de preços para o Brasil", disse em Paris o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, segundo o Canal Rural.
Houve corrida antes do prazo. Em agosto, as vendas de carne bovina ao bloco somaram US$ 178,4 milhões, quase o triplo da média mensal do primeiro semestre, de US$ 64,3 milhões. Setembro ainda registrou US$ 156,2 milhões; em junho, o SCoPAFF havia esclarecido que remessas certificadas antes de 3 de setembro não seriam rejeitadas mesmo que chegassem depois, segundo o Estadão.
No frango, a dependência da região é menor. De janeiro a setembro, Mato Grosso do Sul vendeu US$ 27,8 milhões em carne de aves ao bloco, 9,9% de suas exportações do produto, e Goiás, US$ 14,1 milhões, ou 3%; Mato Grosso não embarcou para lá. As vendas externas de frango cresceram 24,7% em Goiás, 14,3% em Mato Grosso do Sul e 32% em Mato Grosso, sobre uma base de 2025 reduzida pelos embargos que se seguiram ao caso de gripe aviária no Rio Grande do Sul, em maio daquele ano.
Feira mira China e África
A ApexBrasil investiu cerca de R$ 28 milhões na Sial e espera R$ 3,5 bilhões em negócios durante e depois da feira; a Abiec levou 25 frigoríficos. Com a Europa fechada, o foco é a China: para Perosa, a feira é o "primeiro momento de compra" para a cota de carne bovina de 2027, que começa em janeiro.
Billi afirmou ainda que o governo deve anunciar nesta semana a abertura de pelo menos oito mercados para o agro, sete deles na África. No frango, a cota do acordo Mercosul-União Europeia começou em 30 mil toneladas neste ano, totalmente usadas pelo Brasil, segundo Santin, e deve chegar a 180 mil toneladas em seis anos. "Se não vende para a Europa, vai vender para outro lugar. Não vai desmobilizar o sistema e ficar esperando, até porque a própria Europa sabe que seria prejudicial ao nosso negócio e ao deles", disse o presidente da ABPA.
Com informações de EUR-Lex (Jornal Oficial da União Europeia), Regulamento de Execução (UE) 2026/1189, Comissão Europeia (DG Sante), relatório final da auditoria DG(SANTE) 2026-0202, via Poder360, Comexstat (MDIC), Globo Rural, CNN Brasil, Canal Rural e Estadão, via BrasilAgro.



