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Sauditas voltam a fechar todo o SC ao frango; África do Sul fica aberta e já comprou 81,6% mais de MT, MS e GO

Santa Catarina vendeu 12 mil t de carne de aves aos sauditas só em setembro, o maior volume do ano. Mato Grosso e Goiás, que seguem liberados, embarcaram 3,8 mil t no mês, o menor de 2026, e têm espaço para ocupar.

Por Redação Campo em Pauta ·

Vista do alto de um terminal portuário com um guindaste azul à beira do rio e pilhas de contêineres, muitos deles brancos, ao lado de prédios da cidade ao amanhecer
Contêineres no terminal do Porto de Itajaí (SC), em 2021. Foto: Marinha do Brasil (CC BY-SA 2.0)

A Arábia Saudita ampliou para todo o estado de Santa Catarina a suspensão das compras de carne de aves por causa dos focos da doença de Newcastle no oeste catarinense. Segundo a CNN Brasil, que noticiou a decisão nesta quinta-feira (29), Riade informou o Brasil em comunicado enviado na quarta-feira (28). Até então, a restrição saudita valia só para um raio de 10 quilômetros em torno do foco, conforme recomendação da própria representação agrícola brasileira no país, sem manifestação oficial da autoridade sanitária saudita. A lista de restrições divulgada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) na tarde de quarta ainda punha os sauditas entre os países que barram apenas a área sob controle sanitário, e até o fim da manhã desta quinta o ministério não a havia atualizado.

A mudança pesa na conta que o próprio governo fez da regionalização. Em nota de quarta, o Mapa estimou em US$ 954 milhões por ano as perdas potenciais evitadas porque a maioria dos compradores limitou os vetos a Santa Catarina ou aos quatro municípios da área de restrição (Nova Itaberaba, Águas Frias, Coronel Freitas e Nova Erechim), em vez de suspender o Brasil inteiro. A Arábia Saudita respondia por cerca de US$ 293 milhões desse valor, atrás só da China, com US$ 485 milhões, e à frente da Argentina, com US$ 57 milhões. O cálculo usa as exportações de 2025 e compara as medidas atuais com um cenário em que os países repetissem as restrições de 2024, quando houve foco em Anta Gorda (RS).

Vaga saudita para o Centro-Oeste

O peso de Santa Catarina no mercado saudita cresceu justamente antes do veto. Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comex Stat, o estado embarcou 12 mil toneladas de carne de aves para a Arábia Saudita em setembro, por US$ 26,9 milhões, o maior volume mensal de 2026 e 31,2% de tudo o que o Brasil mandou ao país no mês. Os sauditas ficaram com 12,4% das exportações de aves catarinenses em setembro.

Os frigoríficos de Mato Grosso e Goiás, que seguem liberados, foram no sentido oposto. Os dois estados venderam 3,8 mil toneladas aos sauditas em setembro, o menor volume do ano: 2,3 mil toneladas saíram de Mato Grosso e 1,6 mil de Goiás. Em maio, o pico de 2026, tinham sido 7,6 mil toneladas. Mato Grosso do Sul não exporta carne de aves para a Arábia Saudita. Na média de janeiro a setembro, a região embarcou 5,1 mil toneladas por mês ao país, metade do que Santa Catarina mandava, perto de 10 mil toneladas mensais.

África do Sul só barra granjas com foco

Na outra ponta, a África do Sul descartou um veto geral. Em comunicado na quarta-feira, o Departamento de Agricultura sul-africano informou que vai restringir apenas os embarques de estabelecimentos onde houve focos e que os certificados sanitários acordados com o Brasil permitem manter o comércio de carne de aves fresca, ovos férteis e pintinhos de um dia, desde que cumpridos os requisitos de importação, segundo a CNN Brasil. O país importa cerca de um quinto da carne de frango que consome, e o Brasil responde por pelo menos 70% dessas compras. As autoridades sul-africanas disseram ter sido notificadas do primeiro foco em 20 de outubro.

Para o Centro-Oeste, é um mercado em alta. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás exportaram 20,8 mil toneladas de carne de aves à África do Sul de janeiro a setembro, 81,6% mais que em igual período de 2025, por US$ 12,5 milhões. Mato Grosso do Sul mais que dobrou as vendas, de 3,5 mil para 8,1 mil toneladas, alta de 131,1%; Goiás passou de 6,0 mil para 9,6 mil toneladas, e Mato Grosso, de 1,9 mil para 3,1 mil. O país já é o quinto destino das aves dos três estados, com 4,6% do volume, atrás de China, Japão, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

É um comprador de produtos baratos. Carne mecanicamente separada (9,2 mil toneladas) e pés de galinha (8,0 mil toneladas) somaram 82,7% do que a região vendeu aos sul-africanos, e a tonelada saiu, em média, a US$ 602. O Brasil inteiro mandou 271,8 mil toneladas ao país até setembro, 34,2% mais que um ano antes, e Santa Catarina respondeu por 49,7 mil toneladas, 18,3% do total. Os números consideram a posição 0207 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), que reúne carnes e miúdos de aves.

Estoque em contêiner e revisão das regras

Em Santa Catarina, o produto que não embarca começa a se acumular. O Mapa autorizou, em caráter emergencial, que frigoríficos afetados pelos embargos guardem produtos avícolas acabados em contêineres refrigerados nos pátios das fábricas e os transfiram para outros estabelecimentos com inspeção federal usando só a Declaração de Produto de Origem Animal (DCPOA), informou a Globo Rural na quarta. Em ofícios citados pela revista, o ministério relata que as restrições adotadas de forma individual e gradativa geraram atrasos na emissão de certificados e “acúmulo de produtos acabados”. O pedido partiu da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Segundo a mesma reportagem, os frigoríficos estimam que os bloqueios atuais podem travar de 30 mil a 40 mil toneladas por mês, somando as vendas catarinenses a China e Chile e as de todo o país a Uruguai, México e Malásia.

O ritmo geral ainda não caiu. Wagner Yanaguizawa, especialista do Rabobank, disse à Reuters que os dados preliminares das quatro primeiras semanas de outubro mostram média diária de embarques de frango 15% acima da de outubro de 2025. “As exportações podem enfrentar certa pressão inicial, mas é improvável que isso persista por muito tempo, desde que não surjam novos casos em áreas mais distantes do foco inicial”, afirmou.

A indústria quer mudar a regra que fecha mercados nesses casos. Segundo a Globo Rural, a ABPA abriu conversas com empresas e entidades de outros países, a partir da feira Sial, em Paris, para rever as consequências comerciais quando a doença em aves comerciais é causada pelo paramixovírus de pombo (PPMV-1), o tipo encontrado nas três granjas de perus de Santa Catarina, segundo dados da Organização Mundial de Saúde Animal. O presidente da entidade, Ricardo Santin, compara a situação à da influenza aviária de baixa patogenicidade, que deixou de fechar mercados. “Se ele não prejudica as aves, não prejudica os humanos, não é contagioso, para que fechar mercados a fim de evitar a transmissão da doença?”, questionou.

Com informações de CNN Brasil, Ministério da Agricultura e Pecuária, Globo Rural e Comex Stat (MDIC).

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