México solta até 20 mil t de frango já no mar, exceto de SC; MS quase dobrou vendas aos mexicanos em setembro
Mapa investiga seis suspeitas de síndrome respiratória em aves, quatro delas perto dos focos catarinenses. Marrocos e Síria entram na lista de vetos ao país inteiro, mas MT, MS e GO não vendem aves a nenhum dos dois.

O México autorizou a entrada das cargas de carne de aves brasileiras que já estavam a caminho do país quando o primeiro foco da doença de Newcastle foi confirmado em Santa Catarina, segundo fontes do mercado ouvidas pela Globo Rural e pela CNN Brasil na quinta-feira (29). A liberação vale para embarques feitos até 19 de outubro, de todos os estados menos Santa Catarina, e pode alcançar até 20 mil toneladas que estavam em navios, de acordo com estimativas de exportadores.
A decisão não derruba o veto: o México segue como o único grande comprador de frango brasileiro fechado ao país inteiro, e a autorização cobre só a carga em trânsito. Uma fonte disse à Globo Rural que a medida “tira a pressão” dos frigoríficos: boa parte da perda projetada para outubro estava nesses navios. No mercado, a avaliação é que os mexicanos podem em breve limitar o embargo a Santa Catarina, sem decisão oficial até agora.
Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comex Stat, os estados de fora de Santa Catarina venderam 137,9 mil toneladas de carne de aves ao México de janeiro a setembro, média de 15,3 mil toneladas por mês. As 20 mil toneladas liberadas equivalem a mais de um mês desses embarques. O Paraná domina o fluxo, com 89,2 mil toneladas, ou 48,9% de tudo o que o Brasil mandou aos mexicanos no período. Santa Catarina, cujas cargas seguem barradas, respondeu por 24,3%.
Mato Grosso do Sul acelerou antes do veto
Entre os estados do Centro-Oeste, quem mais tem carga em jogo é Mato Grosso do Sul. O estado embarcou 1,57 mil tonelada de carne de aves ao México em setembro, o maior volume mensal de 2026 e 93,5% mais que em agosto, quando foram 809 toneladas. Com isso, o México levou 10,3% de toda a carne de aves exportada pelo estado no mês, mais que o dobro da fatia média do ano, de 4,6%.
Goiás foi no sentido contrário. As vendas goianas ao México chegaram a 1,37 mil tonelada em maio e caíram para 189 toneladas em setembro, recuo de 86,2%. Mato Grosso mandou 282 toneladas no mês, 2,4% do que exportou. Somados, os três estados respondem por 7% da carne de aves que o Brasil vendeu aos mexicanos em 2026. Os números consideram a posição 0207 da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM), que inclui frango, peru e miúdos.
Lista de vetos cresce
A lista de restrições também mudou. No documento do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) assinado na quinta, descrito pela CNN Brasil, Marrocos e Síria aparecem ao lado de Malásia, México e Uruguai entre os países com restrição a produtos avícolas de todo o Brasil. Pelo levantamento do Canal Rural, ao menos 23 países, além de blocos econômicos, adotaram algum tipo de restrição desde o primeiro foco, a maioria limitada a Santa Catarina ou aos quatro municípios da área sob controle sanitário.
Os dois novos vetos nacionais pouco pesam para a região. O Brasil vendeu 2,43 mil toneladas de carne de aves ao Marrocos e 342 toneladas à Síria de janeiro a setembro, e nenhum quilo saiu de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul ou Goiás, pelos dados do Comex Stat.
A Globo Rural confirmou na quinta, com base no comunicado oficial enviado por Riade na quarta-feira (28), que a Arábia Saudita suspendeu as compras de todo o estado de Santa Catarina. Segundo a revista, o embargo vale a partir de 27 de outubro, e a indústria vê impacto reduzido, porque muita carga já tinha sido embarcada desde o primeiro foco. A lista pública do Mapa ainda não incorporou a mudança: na nota de quarta, atualizada às 18h32, e no documento de quinta descrito pela CNN Brasil, os sauditas seguem entre os países que barram apenas a área de restrição.
Na Europa, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billy, disse ao Canal Rural que os focos não afetam as negociações com a União Europeia. Segundo a emissora, ele espera que um grupo do bloco possa votar em novembro a retomada das exportações brasileiras de carne de aves e mel.
Seis suspeitas sob investigação
O painel de investigações de síndrome respiratória e nervosa das aves do Mapa, atualizado na quinta, mostra seis casos em apuração no país, todos com amostras coletadas e sem resultado laboratorial conclusivo. Quatro estão em municípios catarinenses vizinhos aos focos, entre eles Nova Itaberaba e Quilombo, e envolvem galinhas de criação doméstica, segundo o Canal Rural. Há ainda um caso em outro ponto de Santa Catarina e um em São José do Belmonte (PE). O painel não informa se a investigação é de Newcastle ou de influenza aviária, segundo a Globo Rural, e só focos em granjas comerciais geram restrições.
Em entrevista coletiva recente, citada pela Globo Rural, o secretário-adjunto de Defesa Agropecuária, Allan Alvarenga, disse que o número de investigações tende a crescer pela maior sensibilidade do sistema e pela intensificação das vistorias, o que não significa risco maior de novos casos. Em Santa Catarina, a força-tarefa reunia 124 profissionais e cinco barreiras sanitárias até quarta, segundo a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc). Na quarta, começou o abate sanitário das aves do terceiro foco, em Nova Erechim.
No mercado interno, o efeito ainda não apareceu. O frango resfriado fechou a quinta a R$ 8,26 o quilo no atacado paulista, 2,82% abaixo dos R$ 8,50 de uma semana antes, pelo indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). O centro atribui a queda à demanda mais fraca típica do fim do mês e diz que não há aumento anormal de oferta de frango do Sul em São Paulo, ao contrário do que ocorreu na gripe aviária de 2025.
O risco fica para frente. Agentes ouvidos pelo Cepea avaliam que, se as restrições se prolongarem ou novos mercados fecharem, o frango que deixar de embarcar terá de buscar outros destinos, e a parte que não encontrar comprador lá fora virá para o mercado interno, pressionando as cotações domésticas.
Com informações de Globo Rural, CNN Brasil, Canal Rural, Ministério da Agricultura e Pecuária, Cidasc, Cepea e Comex Stat (MDIC).





