Pecuária de MT capta R$ 50 mi do Eco Invest para recuperar 3 mil ha; no Plano Safra, linha de pasto cobra 8,5%
Crédito de dez anos à Novapec sai a cerca de R$ 16,7 mil por hectare e vale dez vezes o teto de R$ 5 milhões por produtor da linha de recuperação de pastagens do RenovAgro.

A Novapec Agropecuária, grupo pecuário de Mato Grosso, obteve R$ 50 milhões do Bradesco para recuperar mais de 3 mil hectares de pastagens degradadas em duas fazendas no estado, com recursos do segundo leilão do Eco Invest Brasil, programa do Tesouro Nacional que usa dinheiro público para atrair capital privado a projetos sustentáveis. A operação foi anunciada pelo banco na semana passada. Segundo o Giro do Boi, do Canal Rural, é o primeiro financiamento do país pela linha Eco Invest 2 destinado a intensificar a pecuária.
A captação levou cerca de um ano para ser estruturada e aprovada. “É uma linha com foco na sustentabilidade, com recursos e taxas atrativos, por isto mesmo com alto nível de exigência para captar, necessitando de um elevado nível de gestão, organização e compliance”, disse o diretor da Novapec, Arlindo Vilela, segundo o CircuitoMT.
O dinheiro veio por uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F), com prazo de dez anos e dois de carência. O custo final não foi divulgado. Em troca, a empresa terá de monitorar as emissões de gases de efeito estufa, as condições ambientais e as práticas trabalhistas nas fazendas e comprovar que os investimentos foram feitos, segundo o Bradesco. A operação recebeu avaliação favorável de uma certificadora independente, que verifica o cumprimento das salvaguardas ambientais e sociais do programa.
O projeto prevê correção do solo, formação e divisão de piquetes para pastejo rotacionado, captação e armazenamento de água da chuva, redes hidráulicas, bebedouros, proteção de nascentes, uso de bioinsumos e rastreabilidade dos animais. Haverá ainda plantio de eucalipto em faixas no pasto, com o gado pastando entre as fileiras. A produção será intensificada com a Terminação Intensiva a Pasto (TIP) e a Recria Intensiva a Pasto (RIP).
O Instituto Mato-grossense da Carne (Imac) ajudou a resolver pendências ambientais na análise do projeto, entre elas a existência de uma Área de Proteção Ambiental (APA) em uma das fazendas. “O financiamento é uma ferramenta importante para que o produtor consiga investir em tecnologia, recuperar áreas degradadas e aumentar a produtividade sem a necessidade de abrir novas áreas”, afirmou o diretor de Projetos do instituto, Bruno de Jesus Andrade.
Pelas contas do Campo em Pauta, o crédito equivale a cerca de R$ 16,7 mil por hectare, valor que cobre também infraestrutura, água e eucalipto, além da reforma do pasto. É dez vezes o limite por produtor da linha do Plano Safra para o mesmo fim.
A linha do Plano Safra
Para o pecuarista que não tem acesso a operações estruturadas como a da Novapec, a principal porta é o RenovAgro Recuperação e Conversão de Pastagens. Na safra 2026/27, a linha cobra juros prefixados de até 8,5% ao ano, ante 9,5% nas demais finalidades do RenovAgro, com limite de R$ 5 milhões por produtor e por ano agrícola e prazo de até dez anos, com até cinco de carência, segundo a Circular 96/2026 do BNDES, válida até 30 de junho de 2027. Com a Selic em 13,75%, a taxa fica 5,25 pontos percentuais abaixo do juro básico.
A linha financia calcário e outros corretivos, sementes para formar pastagens, cercas, bebedouros, cochos e assistência técnica. A compra de matrizes, de máquinas e de benfeitorias tem limite de 30% do valor cada uma e de 40% somadas, e o custeio associado ao projeto pode chegar a 30%. O juro reduzido depende da equalização paga pelo Tesouro, que está sujeita ao orçamento, como lembrou o Canal Rural ao tratar da linha nesta terça-feira (20). Como mostrou o Campo em Pauta, o crédito rural de investimento caiu 36,9% em Mato Grosso do Sul nos três primeiros meses da safra 2026/27.
Meta é maior que o crédito
No segundo leilão do Eco Invest, em 2025, o Tesouro destinou R$ 16,5 bilhões em recursos públicos à recuperação de terras degradadas, com previsão de mobilizar R$ 30,2 bilhões em investimentos e recuperar cerca de 1,4 milhão de hectares. Os 3 mil hectares da Novapec equivalem a 0,2% dessa meta. O governo mantém ainda o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas, criado por decreto em dezembro de 2023, que busca financiamento externo sem subvenção da União e só apoia imóveis inscritos no Cadastro Ambiental Rural (CAR) que reduzam emissões em até dez anos.
Em Mato Grosso, o desafio é de outra escala. Mapeamento do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento (Lapig), da Universidade Federal de Goiás, divulgado em 2023 pelo Instituto PCI, contou 17,7 milhões de hectares de pastagens no estado. Entre 2016 e 2022, 4,5 milhões de hectares foram recuperados, mas a degradação atingiu 6 milhões, mais do que foi recuperado no período. A meta da estratégia Produzir, Conservar e Incluir (PCI) é recuperar 2,5 milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade até 2030; o projeto da Novapec corresponde a 0,12% disso.
Para Vilela, a operação abre caminho para outros pecuaristas. “O caminho que temos defendido é que a intensificação é uma das maiores ferramentas da sustentabilidade e essa é a primeira vez que temos um retorno realmente efetivo por defendermos estas técnicas sustentáveis”, afirmou.
Com informações de Giro do Boi (Canal Rural), CircuitoMT, Brazil Stock Guide, Boca, BNDES (RenovAgro, Circular 96/2026), Canal Rural, Planalto (Decreto 11.815/2023), Instituto PCI e Banco Central (SGS, série 432, meta Selic).



