Indústria já produz para a China de 2027 e vai repassar a 6×1; MT, MS e GO fazem 46,7% das vendas aos chineses
Mato Grosso embarcou sozinho 252,3 mil toneladas à China até setembro, 28,6% de tudo o que o país vendeu aos chineses. Com estoque chinês para mais de um ano, a indústria admite que o preço pode arrefecer.

O pecuarista do Centro-Oeste, que respondeu por quase metade da carne bovina vendida pelo Brasil à China neste ano, tem duas contas novas pela frente: a volta das compras chinesas, em janeiro, e o custo do fim da escala 6×1 nos frigoríficos. Nesta segunda-feira (19), na feira Sial, em Paris, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, disse que a maioria das empresas já produz para a cota chinesa de 2027. Em conversa com jornalistas na feira, publicada pela CNN Brasil nesta terça-feira (20), afirmou que o custo da nova jornada terá de ir para o preço.
Do lado do produtor, a leitura é de mercado firme. Na quarta-feira (14), em reunião da comissão de bovinocultura de corte do Sistema Faep, o especialista da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) Rafael Lima Filho disse que há carne brasileira estocada na China à espera da virada da cota e que as compras devem voltar até o fim de outubro. “Apesar das restrições, o panorama é bem positivo. Afinal, não tem carne abundante no mercado”, afirmou, segundo o Sistema Faep.
Perosa confirmou a corrida. “As empresas, a maioria delas, já está produzindo carne para enviar à China”, disse ao Canal Rural. À Globo Rural, previu que a cota de 2027 acabará mais cedo que a deste ano: “Precisa ter uma conjuntura de coisas de transporte marítimo, para chegar na data certa, chegar somente em janeiro. Mas, pelo volume de produção, a cota tende a se encerrar mais cedo no ano que vem.”
Perosa, porém, fez uma ressalva que interessa a quem vende boi. “Nós também temos informações que a China tem estoque de carne para mais de um ano”, disse. O setor vai acompanhar as compras nos próximos 40 a 60 dias. “Havendo a persistência, os preços se manterão. Talvez, com uma diminuição da demanda, os preços possam arrefecer um pouco.”
A cota do Brasil em 2027 será de 1,128 milhão de toneladas, 22 mil a mais que a deste ano, esgotada em 29 de setembro. Fora do limite, a tarifa para entrar na China sobe de 12% para 67%, com a sobretaxa de 55%. Como a conta é feita pela chegada da carne, o que for embarcado em novembro e dezembro para desembarcar em janeiro entra no limite do ano que vem.
O peso do Centro-Oeste
Pelos dados do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás exportaram 412,8 mil toneladas de carne bovina fresca, refrigerada e congelada para a China de janeiro a setembro de 2026, com receita de US$ 2,58 bilhões. É 46,7% de toda a carne bovina que o Brasil vendeu aos chineses no período, 883,6 mil toneladas. Nos nove primeiros meses de 2025, a fatia dos três estados era de 40,8%.
Pelas contas do Campo em Pauta, o volume dos três estados para a China caiu 10,9% em um ano, mas a receita subiu 4,8%, porque o preço médio passou de US$ 5.320 para US$ 6.256 por tonelada. Mato Grosso embarcou 252,3 mil toneladas (US$ 1,56 bilhão) e respondeu sozinho por 28,6% da carne bovina brasileira vendida à China; Mato Grosso do Sul, 94,2 mil toneladas (US$ 604 milhões); e Goiás, 66,3 mil toneladas (US$ 420,7 milhões).
O freio veio no segundo semestre: os três estados mandaram 45,2 mil toneladas aos chineses em julho, 10,1 mil em agosto e 5 mil em setembro, ante 80,7 mil em setembro de 2025. Com isso, a China levou 44,5% da carne exportada por Mato Grosso no ano, ante 54,3% em igual período de 2025. Pelas contas do Campo em Pauta, o que o Centro-Oeste vendeu à China em nove meses equivale a 36,6% da cota inteira de 2027.
Para Rodolfo Botelho, presidente da comissão de bovinocultura de corte da Faep, o caminho é abrir mercados com apoio das embaixadas e dos adidos agrícolas. “É importante que o Brasil abra mais mercado, diminua o mercado chinês e não fique na dependência só da China”, disse na reunião de quarta. Perosa afirmou que a abertura do Japão já superou as etapas técnicas e, sobre a suspensão da carne bovina pela União Europeia, foi direto: “A briga não é comercial. É política”, disse, segundo a Globo Rural.
A conta da 6×1
Em Paris, Perosa disse que os frigoríficos terão de contratar para manter a produção com mais folgas. “Fim da escala 6 por 1 é aumento de custo na veia. O primeiro ponto é esse. Isso, é claro que a indústria vai ter que acabar repassando isso”, afirmou, segundo a CNN Brasil. “Se você quer trabalhar menos, ter maior período de descanso, alguém vai ter que trabalhar no seu lugar, porque a gente vai continuar produzindo comida.” Ele não estimou o aumento de custo nem o efeito no preço da carne e disse que a reforma tributária terá “um impacto gigantesco” sobre o setor, tema que a Abiec quer discutir depois da eleição.
A Emenda Constitucional promulgada na sexta-feira (16) reduz a jornada máxima para 42 horas semanais, com dois dias de descanso, depois de 60 dias, e para 40 horas um ano mais tarde, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Pelas contas do Campo em Pauta, mantido o salário, a hora trabalhada fica 4,8% mais cara com 42 horas e 10% com 40 horas. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) já havia previsto repasse ao preço do frango e do suíno.
Na carne bovina, a conta pesa no Centro-Oeste. No segundo trimestre de 2026, Mato Grosso abateu 1,81 milhão de bovinos, Goiás, 1,08 milhão, e Mato Grosso do Sul, 954,3 mil, segundo a Pesquisa Trimestral do Abate do IBGE. Pelas contas do Campo em Pauta, os três estados fizeram 35,8% dos 10,72 milhões de abates do país.
Os criadores de Mato Grosso já haviam feito a conta dentro da porteira. Quando a Câmara aprovou o texto, em maio, o Imea projetou que as horas extras podem custar mais de R$ 1 bilhão por ano à agropecuária do estado, segundo o Canal Rural Mato Grosso. Em nota, a Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) disse que o texto ignora a complexidade biológica e operacional da produção e defendeu “um modelo baseado no horário flexível e na prevalência dos acordos individuais sobre as imposições coletivas”.
Com informações de Canal Rural, CNN Brasil, Globo Rural, CNA / Sistema Faep, Economic News Brasil, Comex Stat (MDIC), Ministério do Trabalho e Emprego, IBGE/SIDRA e Canal Rural Mato Grosso.



