Chile barra aves de SC e fecha o maior mercado do peru catarinense; frango segue a R$ 8,49 no atacado
Santa Catarina vendeu 35,6 mil toneladas de aves aos chilenos até setembro. Em Mato Grosso, o México, único a vetar todo o Brasil, leva só 1,59% do frango exportado, diz o Imea.

O Chile entrou na lista oficial de compradores que restringem as aves brasileiras por causa do foco de doença de Newcastle em uma granja de perus de Nova Itaberaba (SC). Em nota divulgada nesta terça-feira (20), o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que os chilenos suspenderam a compra de carne fresca de aves, ovos, pintinhos de um dia e produtos com carne de aves vindos de Santa Catarina. Até o fim da manhã desta quarta-feira (21), a lista do ministério tinha três países: China e Chile, com veto restrito ao estado, e México, com suspensão para todo o Brasil.
Para os catarinenses, o Chile pesa mais no peru do que no frango. Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comex Stat, Santa Catarina embarcou 35,6 mil toneladas de carne de aves para o Chile de janeiro a setembro de 2026, com receita de US$ 86,8 milhões, o equivalente a 46,7% de tudo o que o Brasil vendeu aos chilenos no período. No frango in natura, foram 31,9 mil toneladas, 3,8% das 840,7 mil toneladas exportadas pelo estado.
No peru, o Chile é o principal cliente de Santa Catarina. Levou 3,8 mil toneladas, ou 19,6% das 19,2 mil toneladas que o estado exportou no ano, e pagou US$ 25,7 milhões, perto de um terço da receita. O México vem em segundo, com 2,5 mil toneladas. Somados, os dois países que já fecharam as portas ao peru catarinense ficam com 32,7% do volume embarcado. Para o Centro-Oeste, o veto chileno não muda a conta: Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e o Distrito Federal venderam 4,5 mil toneladas de frango ao Chile no ano e seguem liberados.
China publica a lista de 14 plantas
A suspensão chinesa já consta do sistema de registro de exportadores da Administração Geral de Alfândegas da China (GACC) e vale para embarques a partir de segunda-feira (19), segundo o Estadão/Broadcast. A lista tem 14 frigoríficos catarinenses: seis do grupo JBS (cinco da Seara e um da JBS Aves), cinco da Cooperativa Central Aurora Alimentos e três da BRF, hoje MBRF, em Concórdia, Chapecó e Videira. Na segunda, o Mapa havia suspendido, por precaução e como prevê o protocolo bilateral, a certificação de aves de todo o país para a China; com a resposta chinesa, as outras 47 plantas habilitadas podem voltar a embarcar.
A data-base para a certificação passa a ser 21 de setembro, dia da coleta que originou a investigação. Segundo a Globo Rural, a depender do destino, não poderão ser certificadas cargas produzidas depois dessa data. O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Billi, disse ao Estadão/Broadcast que o governo vai pedir ao México e aos demais compradores que reduzam a restrição. "Grande parte dos mercados já limitou o embargo ao raio do foco, mas iremos negociar para reduzir a restrição durante esses 90 dias até nos declararmos novamente livre de Newcastle", afirmou.
Origem do vírus ainda é investigada
A investigação epidemiológica ainda não tem conclusão divulgada. O relatório brasileiro publicado na terça no site da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) informa que a granja tem 6.526 aves, com 26 casos e nenhuma morte, e que a apuração segue em curso, segundo a Globo Rural. Billi afirmou que as aves serão sacrificadas nesta semana; sem novos focos, o Brasil poderá pedir à OMSA, em 90 dias, a volta ao status de livre da doença.
No campo, a Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) ampliou a vigilância. Segundo o governo catarinense, cerca de 1,6 mil propriedades num raio de 10 quilômetros do foco serão visitadas, e pouco mais de 130 delas poderão ter coleta de sangue das aves. "O foco está contido, todo o trabalho de contenção está realizado, todo o trabalho de monitoria está realizado, e não há mais nenhuma evidência de ampliação", disse o presidente do Sindicato das Indústrias da Carne e Derivados de Santa Catarina (Sindicarne/SC), José Antonio Ribas Júnior, ao portal Agrimidia.
Atacado não reage, e MT segue embarcando
No mercado interno, o preço ainda não sentiu o foco. O frango congelado ficou em R$ 8,49 o quilo no atacado paulista na segunda e na terça, o mesmo valor desde a quinta-feira (15), segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. O resfriado recuou 0,12% na terça, para R$ 8,50. Em outubro, os dois acumulam alta de 2,29%. O risco, segundo o Citi, está na duração dos vetos, que costumam deixar sobra de produto no mercado interno e pressionar preços e margens.
Os bancos veem estrago limitado. Para o Citi, a decisão chinesa é "um precedente encorajador" e "particularmente positivo para a MBRF", porque a possibilidade de seguir vendendo pelas outras 47 plantas "limita substancialmente o potencial de disrupção". O J.P. Morgan estima que Santa Catarina responda por 10% a 20% das exportações de frango da MBRF e da JBS/Seara e lembra que, no foco de 2024, o Ebitda das duas não sofreu impacto material.
No Centro-Oeste, o ritmo de embarques segue firme. Mato Grosso exportou 90,12 mil toneladas de carne de frango de janeiro a setembro, alta de 24,42% sobre 2025 e maior volume em nove anos para o período, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). A Arábia Saudita levou 27,34 mil toneladas, e Hong Kong e China, 10,77 mil. O México, segundo o instituto, ficou com 1,59% das vendas do estado, e o Sistema Famato reforçou o pedido de vigilância sanitária nas propriedades.
Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, estima que a reabertura do México leve pelo menos 21 dias, como em 2024, e prevê novos vetos ao produto catarinense. "Outros mercados devem acabar embargando os produtos avícolas de Santa Catarina", disse ao Canal Rural.
Em nota, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) afirmou que o alcance limitado das suspensões mostra a confiança no sistema sanitário brasileiro e que espera avanço rápido das negociações. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que fala pelos produtores, defendeu que o governo negocie a regionalização com os principais importadores. "O objetivo agora é demonstrar que se trata de um caso isolado e negociar com os mercados regionalização para minimizar os impactos nas exportações brasileiras de carnes de aves e demais produtos avícolas", disse a entidade em comunicado técnico, segundo a Globo Rural.
Com informações de Ministério da Agricultura e Pecuária, Estadão/Broadcast, Globo Rural, Canal Rural, CNN Brasil, Governo de Santa Catarina, Agrimidia, Notícias Agrícolas (Imea), Cepea e Comex Stat (MDIC).



