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Nordeste estreia na China e entra na fila da cota de 2027; vendas de MT, MS e GO em 2025 ocupariam 61% dela

A Masterboi embarcou 27 toneladas em Pernambuco que só chegam a Xangai em 2027. Pelas contas do Campo em Pauta, o Brasil embarcou 1,10 milhão de toneladas à China entre novembro de 2025 e junho de 2026, o tamanho da cota deste ano.

Por Redação Campo em Pauta ·

Vaca nelore branca em primeiro plano, em pasto verde, com outros animais da mesma raça pastando ao fundo, diante de uma faixa de mata.
Gado nelore em pasto de Itapebi (BA), em imagem do Departamento de Agricultura dos EUA divulgada em 2013. Foto: Scott Bauer/USDA (domínio público)

Um contêiner com 27 toneladas de cortes do dianteiro bovino saiu na sexta-feira (23) do frigorífico da Masterboi em Canhotinho, no agreste de Pernambuco, na primeira exportação de carne bovina do Nordeste para a China. A carga percorre cerca de 200 quilômetros até o Porto de Suape, na região do Recife, e segue de navio em novembro para Xangai, onde só chega em 2027, segundo a Globo Rural. A data foi planejada: a cota chinesa deste ano para a carne brasileira, de 1,106 milhão de toneladas com tarifa de 12%, já foi preenchida. Em 2027, o limite sem a sobretaxa de 55% será de 1,128 milhão de toneladas.

O ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, pernambucano, acompanhou o embarque a dois dias do segundo turno, ao lado do ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz. “Pela primeira vez, vamos ter uma planta frigorífica pernambucana do Nordeste exportando carne bovina para o mercado da China”, disse, segundo o Ministério da Agricultura (Mapa). A unidade de Canhotinho, inaugurada em 2022, foi habilitada pelos chineses no fim de setembro, junto com o frigorífico da Supremo Carnes em Carlos Chagas (MG). Com elas, o Brasil tem 69 plantas de 32 empresas autorizadas a vender carne bovina à China, em 12 estados, e só uma no Nordeste.

As duas empresas já planejam crescer. A Masterboi abate cerca de 800 bovinos por dia em Pernambuco e quer chegar a 920, segundo a Globo Rural; pelo Mapa, a capacidade deve passar de mil cabeças por dia até o fim do ano. A Supremo pretende ampliar o abate de 640 para 850 animais por dia em 2027, fazer o primeiro embarque à China em novembro e elevar de 40% para 60% a fatia exportada da produção mineira.

A conta da cota

O problema é o tamanho da porta. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) defende que o governo administre a cota, dividindo os volumes entre os frigoríficos. Sem isso, os embarques podem parar em meados de abril de 2027, projetou a entidade, segundo a Globo Rural. Em setembro, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, foi mais longe: “Se nada for feito, vai acabar em março”, disse, segundo o Canal Rural. A proposta prevê repartir a cota pela participação de mercado e pelo histórico de exportação de cada empresa, e a Abiec quer incluir na discussão os frigoríficos recém-habilitados. “Talvez depois das eleições a proposta volte à pauta”, disse Perosa à CNN Brasil, na mesma época.

Para quem acaba de entrar, a regra decide o negócio. “Para uma unidade recém-habilitada, o critério de distribuição é especialmente relevante. A habilitação sanitária abre o mercado, mas a possibilidade efetiva de desenvolver as exportações dependerá também do volume ao qual a planta terá acesso dentro da cota”, afirmou o presidente da Masterboi, Nelson Bezerra, segundo a Globo Rural.

Os números do Comex Stat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostram como a cota se esgota antes de o ano começar. Pelas contas do Campo em Pauta, o Brasil embarcou 325,9 mil toneladas de carne bovina fresca e congelada para a China em novembro e dezembro de 2025 e mais 773,9 mil toneladas de janeiro a junho de 2026. A soma, 1,10 milhão de toneladas, é praticamente a cota inteira deste ano, porque a contagem chinesa é feita na chegada da carne. Depois disso, os embarques caíram para 82,7 mil toneladas em julho, 16,1 mil em agosto e 10,9 mil em setembro. É o mesmo calendário que a Masterboi usou: o que sair em novembro e dezembro entra na cota de 2027.

O peso do Centro-Oeste

Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás venderam 688,4 mil toneladas de carne bovina à China em 2025, 41,8% do 1,65 milhão de toneladas embarcado pelo país, pelas contas do Campo em Pauta. Mato Grosso sozinho mandou 413,0 mil toneladas, 25,1% do total; Mato Grosso do Sul, 145,3 mil; e Goiás, 130,1 mil. O volume dos três estados naquele ano equivale a 61% de toda a cota de 2027. Se uma divisão por histórico reproduzir a fatia que a região teve em 2025, os frigoríficos de MT, MS e GO ficariam com cerca de 471 mil toneladas, 31,6% menos do que embarcaram aos chineses naquele ano.

A concorrência nordestina ainda é pequena. De janeiro a setembro, os estados do Nordeste exportaram 23,4 mil toneladas de carne bovina para todos os destinos, sendo 12,4 mil do Maranhão, 5,7 mil de Pernambuco e 5,3 mil da Bahia. No mesmo período, só Mato Grosso embarcou 566,5 mil toneladas. O contêiner de Canhotinho equivale a 0,5% do que Pernambuco exportou em nove meses. A conta do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac), de que Mato Grosso ampliou em 2.242% a exportação desde 2001, quando foi reconhecido como livre de aftosa com vacinação, bate com o Comex Stat: o estado embarcou 24,2 mil toneladas naquele ano, por US$ 47,5 milhões, para 29 países.

Prêmio do boi China ainda é curto

Para o pecuarista, a cota define quanto vale o “boi China”, abatido com até 30 meses. Na sexta-feira (23), a Scot Consultoria cotava esse boi a R$ 365 por arroba a prazo em Mato Grosso, R$ 5 acima do boi comum da região de Cuiabá e R$ 10 acima do norte do estado. Em Mato Grosso do Sul, o boi China valia R$ 382, R$ 2 acima de Dourados; em Goiás, R$ 370, R$ 3 acima de Goiânia. Em Minas Gerais, a Supremo já sente a mudança. “Estamos abatendo cada dia mais animais mais jovens e o pecuarista também está sendo mais bem remunerado”, disse o presidente-executivo da empresa, Sandro Oliveira, à Globo Rural.

A indústria diz que o limite é a cota, não a demanda. “Se não fosse a restrição imposta pela medida de salvaguarda, a cota, o Brasil facilmente teria alcançado a marca de 2 milhões de toneladas de carne exportadas para a China. Estávamos preparados para isso”, afirmou Perosa à CNN Brasil. A salvaguarda chinesa vale até 2028, quando o limite sobe para 1,151 milhão de toneladas.

Com informações de Globo Rural / Valor, Globo Rural, Mapa, BeefPoint, Canal Rural, CNN Brasil, Comex Stat (MDIC), BeefPoint / Imac e Scot Consultoria.

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