Leite cai 5% e paga R$ 2,76 ao produtor; com antidumping suspenso, importação sobe 8,4% em setembro
Goiás capta 6,6% menos leite no 2º trimestre, enquanto o país cresce 1%, e a Piracanjuba assumiu no domingo (1º) a fábrica da Complem em Morrinhos, de 300 mil litros por dia. Em 2025, o preço caiu 18% entre setembro e dezembro.

O preço médio do leite cru pago ao produtor caiu 5% em setembro sobre agosto e chegou a R$ 2,76 por litro na “Média Brasil”, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, divulgado na sexta-feira (30) e repercutido nesta terça-feira (3). O centro atribui a queda à maior oferta de matéria-prima, com a recuperação sazonal da produção no Sudeste, e à concorrência dos lácteos importados. Em termos reais, corrigido pelo IPCA, o valor ainda está 8,31% acima do de setembro de 2025.
A importação acelerou. Em setembro, o Brasil comprou 249,6 milhões de litros em equivalente-leite, 8,38% mais que em agosto, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) citados pelo Cepea, sobretudo leite em pó e queijos. As exportações somaram só 5,57 milhões de litros, e o déficit da balança de lácteos cresceu 8,4% no mês. O Índice de Captação de Leite do Cepea subiu 2,16% no mesmo período.
A queda chegou aos derivados. No atacado paulista, o leite longa vida recuou 4,76% em setembro, o leite em pó fracionado, 4,38%, e a muçarela, 2,77%, segundo pesquisa do Cepea com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Do lado do custo, o Custo Operacional Efetivo da atividade subiu 0,46%, puxado pelos concentrados, que encareceram 0,84% com a alta do milho, da soja e do farelo. O Cepea prevê preço pressionado nos próximos meses, com efeito do El Niño sobre a oferta mais adiante.
O histórico pesa. Pela série do Cepea, no ano passado o preço médio nacional caiu de R$ 2,44 em setembro para R$ 2,00 em dezembro, queda de 18% em três meses, pelas contas do Campo em Pauta. Em Goiás, a perda no mesmo intervalo foi de 19,7%, de R$ 2,34 para R$ 1,88 por litro.
Tarifa reconhecida, mas suspensa
A pressão dos importados ocorre com a defesa comercial parada. Em 28 de maio, o Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex/Camex) reconheceu dumping no leite em pó da Argentina e do Uruguai, com margens que chegaram a 60% e 50%, respectivamente, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), autora do pedido. A Resolução Gecex nº 907 fixou direitos de US$ 167,31 a US$ 903,50 por tonelada para os exportadores argentinos que participaram da investigação, mas suspendeu a cobrança no mesmo ato.
A suspensão saiu de uma nota técnica do Ministério do Planejamento anexada à resolução, segundo a qual o mercado de leite “atravessa momento de elevada sensibilidade inflacionária” e a aplicação imediata dos direitos “poderia gerar impactos relevantes sobre preços domésticos e abastecimento”. A Secretaria de Comércio Exterior abriu de ofício, em 28 de julho, uma avaliação de interesse público. Pelo cronograma que o Brasil apresentou ao Mercosul, relatado pelo MilkPoint, o prazo das manifestações finais terminou em 26 de outubro, e o Departamento de Defesa Comercial tem 20 dias, prorrogáveis, para a nota técnica. A suspensão pode durar até um ano e ser renovada uma vez.
Enquanto isso, o leite em pó dos vizinhos entra no país sem tarifa, pelas regras do Mercosul. Até maio, o Brasil importou 1,02 bilhão de litros em equivalente-leite, alta de 10,5% sobre o mesmo período de 2025, e 754 milhões de litros vieram em leite em pó, 86% deles da Argentina e do Uruguai, segundo levantamento da CNA citado pelo Canal Rural.
Goiás capta menos
O principal estado leiteiro do Centro-Oeste perdeu volume. Pela Pesquisa Trimestral do Leite, do IBGE, os laticínios sob inspeção sanitária de Goiás adquiriram 535,8 milhões de litros no 2º trimestre de 2026, 6,6% menos que um ano antes, enquanto o total do país cresceu 1%, para 6,61 bilhões de litros. No primeiro semestre, a queda goiana foi de 6,1%. Mato Grosso captou 7,5% menos no trimestre, e Mato Grosso do Sul, 18,4% menos.
O produtor goiano recebe acima da média. Em agosto, último dado estadual do Cepea, o litro em Goiás valia R$ 2,97, ante R$ 2,89 no país. No mercado spot, em que laticínios negociam leite entre si, a média goiana de setembro caiu 6,9%, para R$ 2,95, sinal de que a pressão já chegou ao estado.
É nesse cenário que o Grupo Piracanjuba assumiu, no domingo (1º), a operação da fábrica de lácteos da Cooperativa Mista dos Produtores de Leite de Morrinhos (Complem), depois de aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), segundo a Globo Rural. O negócio, anunciado em setembro, é um arrendamento dos ativos industriais e da marca Compleite e leva o grupo a 13 fábricas no país. A cooperativa, fundada em 1978, segue responsável pela captação do leite e pelo pagamento aos cooperados, e mantém grãos, nutrição animal, lojas e supermercados.
A unidade deve processar de início cerca de 300 mil litros de leite por dia, com potencial para dobrar o volume após investimentos, segundo nota divulgada pelas empresas em setembro. Pelas contas do Campo em Pauta, os 300 mil litros diários equivalem a 5,1% de todo o leite adquirido pelos laticínios goianos no 2º trimestre. Cerca de 200 funcionários da Complem passam ao quadro da Piracanjuba. “Estamos conduzindo essa transição com respeito às pessoas, aos produtores e às relações construídas ao longo do tempo”, disse o presidente do grupo, Luiz Claudio Lorenzo.
Para os produtores, a pendência continua em Brasília. Depois da decisão do Gecex, a CNA disse que seguiria trabalhando para reverter a suspensão. “A luta ainda não acabou, seguiremos dialogando com o governo para conquistar a legítima defesa comercial”, afirmou em maio o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da entidade, Jônadan Ma.
Com informações de Cepea, IBGE/SIDRA (Pesquisa Trimestral do Leite), Canal Rural, Globo Rural, Money Times (Estadão Conteúdo), CNA, CNN Brasil, LegisWeb (Circular Secex nº 62/2026) e MilkPoint.





