ABPA prevê repasse ao preço do frango e do suíno com a 6×1; governo fala em crédito, ainda sem valor nem prazo
MT, GO e MS abateram 13,8% dos frangos e dos suínos do país no 2º trimestre, e MS ampliou em 29,8% o abate de porcos. Milho a R$ 46 em MT alivia a ração por ora, mas a B3 já paga perto de R$ 70 para 2027.

A indústria de frango e de carne suína vai repassar ao preço final parte do custo extra com o fim da escala 6×1 e com o milho mais caro esperado para 2027, disse neste domingo (18) o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin. “Vai ter um impacto no preço do frango e no suíno. Será um repasse necessário para a manutenção da produção. E cada empresa tem o seu jeito e o quanto vai colocar no preço final”, afirmou, em entrevista à Globo Rural durante a feira Sial, em Paris.
Segundo Santin, a nova jornada reduz em pelo menos 5% a carga horária instalada das plantas de aves e suínos, que empregam cerca de 500 mil pessoas e já têm perto de 20 mil vagas abertas. “A ordem é não baixar salário, mas preciso pagar um custo fixo, que agora aumenta em 5% naquela parcela de colaboração que a mão de obra tem no custo final”, disse. Ele considera curto o prazo de adaptação, porque os pintinhos dos ovos postos agora nascem em 18 a 21 dias e, pelo ciclo do frango, será difícil abater e processar todo o volume previsto. “Se todo dia chegam 25 milhões de cabeças, eu tenho que reduzir capacidade e não tenho gente para repor”, afirmou.
A Emenda Constitucional 141, promulgada na sexta-feira (16), reduz a jornada máxima de 44 para 42 horas semanais a partir de 16 de dezembro, com duas folgas por semana, e para 40 horas um ano depois, sem corte de salário. Santin disse que vai procurar nos próximos dias o ministro da Agricultura, André de Paula, para tratar de casos específicos, como o da suinocultura, cujo ciclo é mais longo que o do frango de corte.
Crédito anunciado na TV, sem nota oficial
Do lado do governo, a resposta até agora é a promessa de financiamento. Na sexta-feira, em entrevista à TV Band, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a equipe econômica estuda linhas de crédito e programas de capacitação para as empresas mais afetadas. “É possível que a gente faça, assim, por exemplo, uma espécie de linha de crédito ou de capacitação para inovação”, afirmou, segundo o SBT News. Mais adiante, disse que já há “uma previsão de ter linhas de crédito específicas para essa transição, tanto da reforma tributária quanto do fim da jornada 6×1”.
O ministro não anunciou desoneração da folha nem compensação direta aos empregadores. Como exemplo do que já foi feito, citou a ampliação, de R$ 250 mil para R$ 500 mil, do limite de crédito para pequenas empresas, inclusive para capital de giro, medida voltada a pequenas empresas. Até a manhã desta segunda-feira (19), nem o Ministério da Fazenda nem o do Trabalho haviam publicado ato ou nota com valor, juros, prazo ou critério de acesso à linha. A nota do Ministério do Trabalho sobre a promulgação não trata de crédito e informa que 14,7 milhões dos 44,5 milhões de empregados com carteira trabalhavam em escala 6×1 em dezembro de 2025, 33,2% do total. Durigan afirmou que de 68% a 70% dos empregos já estão fora dessa escala e que o impacto sobre os empresários será “linear”.
O peso no Centro-Oeste
A conta chega a uma região que ganhou espaço na carne de aves e suínos. No segundo trimestre de 2026, Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul abateram 233,2 milhões de frangos e 2,16 milhões de suínos, 13,8% do total nacional nas duas carnes, segundo a Pesquisa Trimestral do Abate do IBGE. Goiás respondeu sozinho por 136,1 milhões de frangos, 3,9% mais que um ano antes, ritmo acima do nacional (2,8%). Mato Grosso do Sul abateu 1 milhão de suínos, alta de 29,8%, enquanto Mato Grosso (665,9 mil) e Goiás (496,8 mil) ficaram praticamente estáveis.
Pelas contas do Campo em Pauta, se o corte de 5% na capacidade descrito por Santin valesse para todo o abate dos três estados, seriam cerca de 11,7 milhões de frangos e 108 mil suínos a menos por trimestre. O efeito real vai depender de quanto cada empresa conseguir contratar e de como reorganizar os turnos até dezembro.
No milho, o Centro-Oeste tem folga, por enquanto. O Cepea informou nesta segunda que as cotações seguem pressionadas, com oferta maior que a demanda e a Conab prevendo safra maior em 2026/27. O indicador Cepea/Esalq, de Campinas (SP), fechou a sexta em R$ 64,85 a saca de 60 quilos, queda de 5,56% em outubro. Em Mato Grosso, a média do Imea foi de R$ 46,19, R$ 18,66 a menos por saca que em Campinas, com R$ 45,80 em Lucas do Rio Verde e R$ 46,50 em Sorriso. Em Rio Verde (GO), a Comigo pagava R$ 53, ante R$ 56 no dia 2; em Maracaju e Campo Grande (MS), a saca também valia R$ 53, segundo o Notícias Agrícolas.
A preocupação da indústria é o ano que vem. O milho responde por quase 70% do custo da ração nas granjas, e na B3 o contrato de novembro fechou a sexta a R$ 66,63, com os vencimentos de 2027 perto de R$ 70. “O milho está sendo precificado um pouco mais caro. Não é nada absurdo, mas já tem uma precificação para o ano que vem que vai impactar no preço final do produto”, disse Santin. O próprio Cepea alerta que chuva em excesso ou calor forte no fim do ano, num cenário de El Niño, podem reduzir a safra hoje estimada como recorde.
Por ora, o produtor de suínos respira. Segundo o Cepea, o poder de compra do suinocultor paulista voltou a subir em outubro, depois de três meses de queda, com o suíno vivo valorizando mais que o farelo de soja e o milho em baixa. No atacado, o frango ganhou competitividade porque a carne suína e a bovina subiram mais no mês.
Santin afirmou que a ABPA mantém a previsão de crescimento da produção de frango, suínos e ovos em relação ao ano passado, se não houver problema sanitário, e que não faltará carne. “Mas vai ter aumento de custo e de preço”, disse. “Eu não estou contra a medida. Só estou dizendo que precisa de uma adaptação maior. Vou conversar com o ministro, levar o problema ao governo que apoiou isso internamente para tentar ajudar na construção.”
Com informações de Globo Rural, Canal Rural, SBT News, O Liberal/Estadão Conteúdo, Ministério do Trabalho e Emprego, Ministério da Fazenda (notícias), IBGE (Pesquisa Trimestral do Abate, tabela 1093), IBGE (Pesquisa Trimestral do Abate, tabela 1094), Cepea (indicador do milho), Cepea (Milho: quedas nos preços se intensificam, 19/10/2026), Cepea (Suínos, 15/10/2026), Cepea (Frango, 16/10/2026), Imea (indicadores do milho) e Notícias Agrícolas (milho, mercado físico).



