Carne de MT, MS e GO fica fora da UE por dois anos, diz Rabobank; região perde mercado de US$ 828 mi por ano
Em 2026, o bloco pagou 44,7% acima da média pela carne dos três estados, que fizeram 42,4% das vendas do ano aos europeus nos dois meses anteriores ao veto. O prazo enterra a aposta da Abiec de volta no 1º semestre de 2027, e a Indonésia, que dobrou as compras, paga menos da metade.

A carne bovina de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás deve ficar fora da União Europeia por pelo menos mais dois anos. A estimativa é do analista de proteína animal do Rabobank Wagner Yanaguizawa, que atribuiu o prazo à própria Comissão Europeia em entrevista coletiva cujo conteúdo foi publicado pela CNN Brasil na quarta-feira (4). "A gente entende, e isso é visão da Comissão da União Europeia, que os embarques para esse mercado não devem retomar pelo menos nos próximos dois anos", afirmou. A conta, segundo ele, segue o ciclo da pecuária: esperar o nascimento dos bezerros e o tempo até o abate.
O bloco tirou o Brasil da lista de fornecedores de produtos de origem animal a partir de 3 de setembro. O Regulamento de Execução (UE) 2026/1189 exige garantia de que os animais exportados nunca receberam antimicrobianos para ganho de peso nem os reservados ao tratamento de pessoas, e a Comissão afirmou não ter recebido do governo brasileiro informações que assegurassem o cumprimento da regra. Frango e mel passaram por auditoria e estão a caminho da volta. Para a carne bovina, a Comissão informou em outubro que não pretende propor a reinclusão por ora, porque o Brasil ainda não consegue certificar o uso de antimicrobianos ao longo da vida do boi.
A previsão desmonta o calendário dos exportadores. Em 17 de setembro, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, projetava a retomada no primeiro semestre de 2027, com um período de transição. "Estamos pressionando o governo [brasileiro] para que a União Europeia aceite o protocolo e depois o execute", disse na ocasião, segundo o Poder360. Em maio, o Brasil já havia proposto que os frigoríficos comprovassem a ausência de antimicrobianos só nos nove meses anteriores ao abate, e o bloco recusou. Em 28 de setembro, o chefe de auditorias da autoridade sanitária europeia, Eric Thévenard, disse a deputados do Parlamento Europeu que não deveria vir carne bovina do Brasil "de agora até daqui a dois anos", segundo a Folha de S.Paulo.
O que a região deixa na mesa
Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás venderam US$ 828 milhões em carne bovina fresca, resfriada e congelada à União Europeia nos 12 meses encerrados em setembro, de outubro de 2025 a setembro de 2026. O valor equivale a 8,7% de toda a receita da região com a exportação do produto no período. Dois anos fora, nesse ritmo, correspondem a US$ 1,66 bilhão em vendas.
O peso está no preço. De janeiro a setembro de 2026, o bloco pagou em média US$ 9.007 pela tonelada de carne bovina dos três estados, 44,7% acima dos US$ 6.224 da média de todos os destinos. Um terço das vendas, US$ 202 milhões, foi de carne resfriada desossada, o corte de maior valor. É também o mercado que mais exige do pecuarista: o protocolo privado de antimicrobianos, criado por Abiec e Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e aprovado pelo Ministério da Agricultura, prevê vistoria de certificadora nas fazendas, conferência do plano de manejo e inspeção de animais por amostragem.
Antes do prazo, houve corrida. A região embarcou US$ 128,7 milhões ao bloco em agosto e US$ 119,6 milhões em setembro, ante média mensal de US$ 44,2 milhões no primeiro semestre. Os dois meses somam 42,4% dos US$ 585,7 milhões vendidos aos europeus de janeiro a setembro. Mato Grosso do Sul teve em setembro o maior mês do ano, com US$ 33,3 milhões. Pela regra europeia, remessas certificadas até 3 de setembro não seriam rejeitadas, mesmo que chegassem depois.
A suspensão também tira o Brasil da disputa pela cota de carne do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, em vigor provisório desde 1º de maio, de 99 mil toneladas por ano com tarifa de 7,5%. Os quatro sócios não chegaram a acordo sobre a divisão: o Paraguai quer 25% para cada país, e Brasil, Argentina e Uruguai defendem repartir pelo histórico de vendas, segundo o Estadão. Sem a divisão, a cota vinha sendo preenchida por ordem de chegada, e os chanceleres querem um acerto antes da cúpula de 4 de dezembro, em Montevidéu.
Ásia não paga o mesmo
O Rabobank ainda prevê crescimento das exportações brasileiras de carne bovina, para 4,5 milhões de toneladas em 2027, alta de 1,5% sobre a projeção para 2026. Segundo Yanaguizawa, as habilitações para Japão e Coreia do Sul estão em estágio avançado, com protocolos cumpridos e relatórios finais pendentes. Para a China, o banco trabalha com aumento de cerca de 3% na cota brasileira, perto de 33 mil toneladas adicionais, sem confirmação do governo chinês.
O mercado que já abriu paga menos. A Indonésia habilitou 21 frigoríficos brasileiros em setembro, entre eles unidades de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e passou de 52 para 73 plantas autorizadas, segundo o Ministério da Agricultura. Os três estados venderam US$ 49,3 milhões em carne bovina aos indonésios de janeiro a setembro, mais que o dobro dos US$ 23,7 milhões de um ano antes, com volume de 12,8 mil toneladas. A tonelada saiu a US$ 3.865, 42,9% do que pagou o comprador europeu.
Para a Abiec, a perda vai além dos 27 países. "Essa lista tem impacto em mais de 20 países que também seguem a legislação europeia, para além da União Europeia", disse Perosa em setembro. A Noruega acompanhou o bloco e suspendeu a carne brasileira no mesmo dia 3. Sem data para a auditoria europeia na cadeia bovina, os frigoríficos seguem oferecendo o protocolo, e o pecuarista que entrou nele só terá boi apto quando o bezerro nascido sob as novas regras chegar ao abate.
Com informações de CNN Brasil, Poder360, Folha de S.Paulo (via ES Hoje), Folha de S.Paulo (via Bahia Notícias), Estadão Conteúdo (via Mercado & Consumo) e Comex Stat (MDIC).





