Campo em Pauta
Receba no WhatsApp
Campo em Pauta

Notícias do agronegócio

Pecuária

Boi fecha semana no recorde de R$ 380,70; embarque de até 400 mil t à China até dezembro pode puxar a arroba

Em Mato Grosso, a arroba sobe 20,1% em um ano, mas R$ 348,11 ainda fica abaixo do custo da engorda. Exportação caiu 38% em setembro, e a carne subiu mesmo assim.

Por Redação Campo em Pauta ·

Vaca branca da raça Nelore, de chifres e orelhas grandes, com brinco amarelo de identificação na orelha, junto a uma cerca de arame em pasto verde, com mata ao fundo.
Bovino Nelore com brinco de identificação em pasto de Bonito (MS), em 2013. Foto: Sergio Alexandre Korndorfer (CC BY-SA 3.0)

O Indicador do Boi Gordo Cepea/Esalq, referência para São Paulo, fechou a sexta-feira (16) em R$ 380,70 por arroba à vista, novo recorde nominal da série do Cepea, iniciada em 1994. Na semana, encurtada pelo feriado de segunda-feira, a alta foi de 0,77%. Em outubro, o avanço chega a 4,50%, e desde o início de setembro, a 10,4%. Para os próximos dois meses, o mercado olha para a China.

Corrigido pelo IGP-DI, o valor ainda fica abaixo do pico de 11 de novembro de 2020, equivalente hoje a R$ 385, segundo o Cepea. Em termos nominais, a alta em um ano é de 23,1%, pelas contas do Campo em Pauta: em 16 de outubro de 2025, o indicador estava em R$ 309,15.

Quanto vale a arroba no Centro-Oeste

Pela Scot Consultoria, o boi subiu R$ 2 em Dourados (MS), para R$ 370 à vista, e ficou em R$ 366 em Campo Grande e R$ 363 em Três Lagoas. Em Goiás, os preços ficaram estáveis, com R$ 361 em Goiânia e R$ 351 no sul do estado. Em Mato Grosso, a região de Cuiabá, que inclui Rondonópolis, subiu R$ 3, para R$ 349; o sudeste ficou em R$ 348, e o norte e o sudoeste, em R$ 346. Em Araçatuba e Barretos (SP), o boi seguiu a R$ 376 à vista.

O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) calculou média estadual de R$ 348,11 à vista na sexta-feira, alta de 0,63% no dia, e de R$ 353,11 a prazo. A distância para o indicador paulista caiu para R$ 32,59 por arroba, ante R$ 34,26 na quinta-feira. Em um ano, o boi a prazo em Mato Grosso ficou 20,1% mais caro: estava em R$ 293,93 em 17 de outubro de 2025, segundo boletim do Imea.

O recorde ainda não paga todo o custo de quem engorda em Mato Grosso. O Imea calcula o custo operacional total da recria e engorda no estado em R$ 369,55 por arroba no segundo trimestre de 2026, 13,7% acima do mesmo período de 2025. O preço à vista de sexta-feira fica R$ 21,44 abaixo desse custo.

Na B3, o contrato de outubro fechou a sexta-feira a R$ 389,30, o de novembro, a R$ 397,95, R$ 17,25 acima do indicador do Cepea, e o de dezembro, a R$ 396,75.

Por que a China pode fazer a arroba disparar

A carne bovina brasileira que chega à China fora da cota paga, desde 1º de outubro, uma sobretaxa de 55%, que se soma à tarifa de importação de 12%. A cota de 2026, de 1,106 milhão de toneladas, se esgotou em 29 de setembro; a de 2027 será de 1,128 milhão, 2% maior. Como a conta é feita pela chegada da carne aos portos chineses, e não pelo embarque, o que for produzido em outubro e embarcado em novembro e dezembro deve entrar na cota do ano que vem.

Para o analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, se o governo criar o sistema interno de gestão da cota pedido pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a arroba tende a se estabilizar. “No entanto, se esse sistema de gestão interno não for contemplado, o preço da arroba vai explodir porque poderemos embarcar para a China até 400 mil toneladas de carne entre novembro e dezembro, elevando muito a demanda”, afirmou, segundo o Canal Rural, neste domingo (18).

As 400 mil toneladas equivalem a 35% da cota de 2027, ou duas vezes o que o Brasil exportou de carne bovina in natura para todos os destinos em setembro, 195,2 mil toneladas, segundo o Comex Stat. A proposta da Abiec, apresentada em setembro, divide a cota entre os frigoríficos pelo histórico de exportação. Sem ela, o limite de 2027 pode acabar em março, disse na época o presidente da entidade, Roberto Perosa; à CNN Brasil, ele afirmou que a ideia pode voltar à pauta do governo depois das eleições. No sábado (17), na feira Sial, em Paris, Perosa disse à Globo Rural que já tem reuniões marcadas com chineses: “Vai ser o primeiro momento de compra dessa nova leva, que se inicia em janeiro”.

O Centro-Oeste sente a falta da China. Mato Grosso exportou 69,6 mil toneladas equivalente carcaça de carne bovina em setembro, 29,7% menos que um ano antes, segundo o Imea, com dados da Secex. As vendas aos chineses caíram 92,3%, para 4,6 mil toneladas, e a fatia da China nas exportações do estado passou de 61,1% para 6,7%. Os embarques para os demais destinos cresceram 68,7% em um ano, o que amenizou a perda, mas não a compensou, segundo o instituto.

Exportar menos não deixou a carne mais barata

A ideia de segurar a exportação para baratear a carne não é nova. Em comício em 10 de setembro de 2022, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse: “Nós vamos ter que discutir se vai continuar só exportando ou se vai deixar um pouco para nós comermos”, segundo a agência Reuters. Setembro de 2026 mostrou o que acontece quando a exportação cai: os embarques de carne bovina in natura foram 38% menores que em setembro de 2025, e, no mesmo mês, as carnes subiram 0,63% no IPCA, segundo o IBGE. Em 12 meses, a alta das carnes chega a 9,83%, mais que o dobro da inflação geral, de 4,58%.

A explicação está na oferta. Segundo o Cepea, o medo de que a China reduzisse as compras levou pecuaristas a adiar a entrada de animais no confinamento, e o custo alto da reposição e o volume recorde de gado vivo exportado reduziram a disponibilidade de boi pronto. Pelo Comex Stat, o país exportou 1,05 milhão de bovinos vivos de janeiro a setembro, 34,2% a mais que um ano antes. Em Mato Grosso, o abate de fêmeas caiu 15,2% em setembro na comparação anual, segundo o Imea, sinal de que o produtor está segurando matrizes.

Em artigo no Canal Rural no sábado, o comentarista Miguel Daoud lembrou que o mercado interno ficou com 63,3% da carne produzida no país em 2025, segundo a Abiec. “É possível, portanto, ter exportações menores e arroba mais cara”, escreveu. Para ele, o preço no açougue depende de decisões tomadas anos antes, na cria, e o risco é do pecuarista: “O produtor não tem garantia de recuperar todos os gastos na venda. Se o mercado não pagar, o prejuízo fica com ele”.

Com informações de Cepea, Cepea (série histórica do boi gordo), Scot Consultoria, Imea (indicadores do boi), Imea (Boletim Semanal da Bovinocultura de Corte nº 918, 12/10/2026), Imea (Boletim Semanal da Bovinocultura de Corte nº 870, 20/10/2025), Notícias Agrícolas (fechamento B3), Comex Stat/MDIC, IBGE (IPCA, tabela 7060), Globo Rural, Canal Rural, CNN Brasil e Notícias Agrícolas/Reuters.

Mais em Pecuária