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Ureia sobe a US$ 488 e fica R$ 316/t mais cara que em setembro; Mosaic prevê fosfato 40% abaixo da demanda

Na soja de Mato Grosso, adubo e corretivo somam R$ 2.038 por hectare, 47,6% do custeio, e o dólar de quinta-feira põe R$ 74 a mais por hectare na conta dos macronutrientes. O Brasil não registra potássio de Belarus em 2026, enquanto Trump pressiona a Lituânia a liberar o produto.

Por Redação Campo em Pauta ·

Grânulos arredondados de adubo marrom espalhados sobre um tecido preto, ao lado de um pote de plástico tombado
Grânulos de fertilizante composto, feito de ureia, fosfato e cloreto de potássio, em 2025. Foto: Wee Hong (CC BY-SA 4.0)

A ureia granulada importada pelo Brasil subiu para a faixa de US$ 476 a US$ 488 por tonelada CFR (com frete, posta no porto) na quarta semana de outubro, ante US$ 464 a US$ 482 uma semana antes, segundo o Nobel Report Agro, da trading Nobel, publicado na segunda-feira (26) e repercutido pelo site Fertilizer Daily na quinta-feira (29). Os negócios fecharam entre US$ 475 e US$ 490, mesmo com o comprador brasileiro retraído à espera do segundo turno.

Pelas contas do Campo em Pauta, a tonelada no topo da faixa, convertida pela Ptax de fechamento de quinta-feira, de R$ 5,3744, sai por R$ 2.622,71. Em setembro, a ureia que desembarcou no país custou em média US$ 448,30 por tonelada com frete e seguro, segundo o Comexstat, ou R$ 2.306,38 pela Ptax média do mês, de R$ 5,1447. A diferença é de R$ 316 por tonelada: alta de 13,7% em reais, ante 8,9% em dólar. O câmbio responde por cerca de um terço do aumento.

A pressão vem de fora. Segundo a Nobel, o gás holandês TTF, referência na Europa, passou de 90 euros por megawatt-hora na terça-feira (20), o que elevou o custo estimado de produção da ureia no noroeste europeu de US$ 678 para cerca de US$ 740 por tonelada. A ureia chinesa foi oferecida a US$ 470 a US$ 475 em Aratu (BA) e Paranaguá (PR), mas em volume limitado, e a do Catar e da Nigéria, a US$ 485 a US$ 500.

A Índia é o outro fiel da balança. No leilão de 7 de outubro, o país comprou só cerca de 410 mil das 1,7 milhão de toneladas que buscava, 24% do previsto, segundo a trading; a estatal indiana IPL não divulgou o volume. A Nobel espera novo leilão entre o fim de outubro e meados de novembro. A ureia é o principal nitrogenado do milho segunda safra, que em Mato Grosso entra na terra logo depois da soja: no custo do milho de alta tecnologia calculado pelo Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) para 2026/27, os macronutrientes somavam R$ 1.394,27 por hectare em setembro.

Adubo é quase metade do custeio da soja

Na soja, o adubo já é o maior item da conta. No levantamento de setembro do Imea para a safra 2026/27 em Mato Grosso, o custeio está em R$ 4.284,37 por hectare, dos quais R$ 2.038,08 são fertilizantes e corretivos, ou 47,6% do total. Só os macronutrientes (nitrogênio, fósforo e potássio) somam R$ 1.654,71 por hectare, valor calculado pelo instituto com o dólar a R$ 5,1441.

Pelas contas do Campo em Pauta, com a Ptax de quinta-feira, 4,5% acima do câmbio do Imea, e os preços em dólar mantidos, os macronutrientes da soja passam a R$ 1.728,79 por hectare, R$ 74,08 a mais. Com a soja disponível em Mato Grosso a R$ 132,97 a saca na sexta-feira (23), segundo o Imea, a conta sobe de 12,4 para 13 sacas por hectare. No milho de alta tecnologia, o mesmo ajuste acrescenta R$ 62,42 por hectare. Como 75,8% da soja do estado já estava semeada em 23 de outubro, a diferença pesa sobre quem ainda não fechou a compra, sobre a adubação do milho e sobre a safra 2027/28.

Fosfato pode faltar, e não só encarecer

No fósforo, o alerta é de falta física. Ben Pratt, vice-presidente de assuntos públicos da Mosaic, uma das maiores produtoras de fosfatados do mundo, disse à revista americana Farm Journal, em entrevista publicada em 21 de outubro e relatada pelo Fertilizer Daily, que a produção global de fosfato deve chegar a só 45 milhões de toneladas neste ano, ante um consumo típico de 75 milhões, cerca de 40% abaixo. O motivo é o enxofre, que os fabricantes não conseguem comprar ou pagar: segundo Pratt, o insumo, que valia de US$ 100 a US$ 300 por tonelada em seus 15 anos de empresa, está bem acima de US$ 1.000.

Pratt disse que o produtor pode enfrentar não só preço mais alto, mas regiões onde o fosfato não será encontrado. A Mosaic já paralisou a operação de South Fort Meade, na Flórida, e as exportações chinesas de fosfato caíram para perto de zero neste ano. Josh Linville, vice-presidente de fertilizantes da StoneX, estima que cerca de metade do enxofre mundial passa pelo Estreito de Ormuz e que a Rússia responde por outros 17%; ele espera adubo caro até a primavera do Hemisfério Norte de 2027, mesmo que o tráfego em Ormuz se normalize. A Mosaic divulga o balanço do terceiro trimestre na terça-feira (3).

No Brasil, o fosfato monoamônico (MAP) ficou estável, de US$ 832 a US$ 850 por tonelada CFR, com a Rússia como principal fornecedora, segundo a Nobel. Os dados do Comexstat mostram a mudança de origem: de janeiro a setembro, a Rússia mandou 1,14 milhão de toneladas de MAP, 52,3% do total, ante 43,8% no mesmo período de 2025. A Arábia Saudita embarcou 48% menos, e a China, 82% menos. O país importou 2,19 milhões de toneladas, 15,3% a menos, e pagou em média US$ 772 por tonelada, 17,6% acima de 2025.

Potássio: Belarus fora do Brasil e na mira de Trump

No potássio, o enviado especial dos Estados Unidos para Belarus, John Coale, sondou nas últimas semanas diplomatas da Lituânia sobre a abertura do porto de Klaipeda, no Báltico, ao cloreto de potássio bielorrusso, segundo quatro autoridades europeias ouvidas pelo Politico Europe, em reportagem publicada na quinta-feira. As sanções da União Europeia a Belarus proíbem o embarque em portos do bloco e precisam ser renovadas a cada 12 meses; a próxima renovação é em fevereiro, e a Lituânia, que assume a presidência rotativa da UE no início do ano, poderia vetá-la. Antes das sanções, 90% do potássio de Belarus, dono de cerca de 20% do mercado mundial, saía por Klaipeda.

Os Estados Unidos importam quase todo o potássio que usam, cerca de 80% do Canadá, e Trump já suspendeu em março parte das sanções americanas, inclusive à estatal Belarusian Potash Company. Os europeus resistem: uma autoridade do Leste Europeu disse ao Politico que a resposta é um “não” categórico. No Brasil, o Comexstat não registra nenhuma tonelada de cloreto de potássio de origem bielorrussa de janeiro a setembro de 2026; em 2025, foram 10,3 mil toneladas. Neste ano, o Canadá respondeu por 38,4% do volume importado pelo país, a Rússia, por 31,7%, e o Turcomenistão, por 17,2%.

Segundo a Nobel, o cloreto de potássio granulado recuou para US$ 358 a US$ 371 por tonelada CFR, e as chegadas de outubro, de cerca de 634 mil toneladas, ficaram 27% abaixo das de um ano antes. Para Linville, da StoneX, menos demanda por fosfato não vai aliviar a oferta, porque o fabricante responde a preço mais fraco desligando mais capacidade.

Com informações de Fertilizer Daily (Nobel Report Agro, ureia), Fertilizer Daily (Mosaic e fosfato), Politico Europe, Comexstat (importações 2025 e 2026), Banco Central (Ptax), Banco Central (SGS, série 1), Imea (custo de produção soja e milho 2026/27) e Imea (boletim semanal da soja nº 920).

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