Juro de 2031 volta a 15% e dólar sobe 0,9%; superávit de setembro se apoia em R$ 21 bi de receita extra
No ano, as contas do governo seguem R$ 90,2 bilhões no vermelho, e o gasto com subsídios e Proagro, que inclui a equalização de juros do Plano Safra, cai 9,2%. Com a Ptax a R$ 5,3668, cada US$ 100 mil em insumos custa R$ 32,9 mil a mais que antes da urna.

O mercado voltou a cobrar mais caro para financiar o país nesta quinta-feira (29), quarto dia útil depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na abertura, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2031 estava em 15,025% ao ano, 0,055 ponto acima do fechamento de quarta-feira (28), segundo o InfoMoney. Na sexta-feira (23), antes do 2º turno, o mesmo contrato marcava 12,695% no início do pregão, como mostrou o Campo em Pauta: são 2,33 pontos a mais. Às 11h56, o dólar comercial subia 0,90%, a R$ 5,388, e o Ibovespa caía 0,95%, a 169.385,56 pontos, abaixo dos 170 mil.
A Ptax, taxa do Banco Central usada nos contratos do agro, saiu a R$ 5,3668 na segunda parcial do dia, divulgada às 11h03, 0,46% acima do fechamento de quarta, de R$ 5,3420. Pelas contas do Campo em Pauta, a moeda está 6,53% mais cara que na sexta anterior à eleição, quando fechou a R$ 5,0377: cada US$ 100 mil em adubo, defensivo ou peça importada custa R$ 32,9 mil a mais. No crédito, se os 2,33 pontos do DI de 2031 forem repassados integralmente, um financiamento de R$ 1 milhão a juro livre para armazém ou máquina sai R$ 23,3 mil mais caro por ano.
Na quarta, a Bolsa caiu pela terceira sessão seguida, 2,68%, para 171.006,10 pontos, e acumula perda de 16,6% desde sexta, 34 mil pontos. O dólar comercial chegou a R$ 5,399 à tarde, mas virou no fim e fechou em queda de 0,19%, a R$ 5,340. Nos juros, as taxas longas subiram: o DI de 2031 fechou a 14,970%, alta de 0,12 ponto, e o de 2033, a 15,040%, segundo o InfoMoney. Operadores atribuíram a pressão às dúvidas sobre a equipe econômica e a política fiscal do quarto mandato, segundo o Canal Rural.
As empresas ligadas ao campo estiveram entre as maiores quedas. A Cosan perdeu 12,31%, a Vamos, locadora de caminhões e máquinas, 11,34%, e a Minerva, 9,40%, para R$ 2,89. O Banco do Brasil, maior financiador do crédito rural, recuou 3,39%. A MBRF foi a maior alta do índice, com 2,82%. “Nenhum cenário positivo em relação à situação fiscal do Brasil foi divulgado até o momento, e o mercado começa a questionar se ainda teremos cortes de juros no futuro”, disse Lucas Xavier, sócio da AW Capital, ao InfoMoney.
Lá fora, o Federal Reserve, banco central dos Estados Unidos, manteve na quarta os juros americanos entre 3,75% e 4% ao ano, por 10 votos a 2; as diretoras Lisa Cook e Beth Hammack defenderam alta de 0,25 ponto, segundo a Safras & Mercado.
Superávit com dinheiro extra
O Tesouro Nacional informou nesta quinta que o governo central teve superávit primário de R$ 4,8 bilhões em setembro, ante déficit de R$ 14,4 bilhões um ano antes. O resultado superou o déficit de R$ 7,5 bilhões esperado pelo Prisma Fiscal, pesquisa do Ministério da Fazenda. A receita líquida cresceu 13,6% acima da inflação, R$ 24,6 bilhões, e a despesa, 2,4%.
A melhora veio de receitas fora do comum. Segundo o sumário do Tesouro, a devolução à União de precatórios cancelados pela Justiça somou R$ 12,8 bilhões a mais que em setembro de 2025; os royalties e a venda de petróleo e gás pela Pré-Sal Petróleo (PPSA), R$ 5,7 bilhões; e o imposto de exportação sobre óleo bruto, R$ 2,9 bilhões. Pelas contas do Campo em Pauta, os R$ 21,4 bilhões equivalem a 87% do aumento da receita líquida. O secretário do Tesouro, Daniel Leal, disse que o governo estima R$ 64,6 bilhões em receita extra neste ano com a alta do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio, segundo a Reuters.
No gasto, o governo segurou o que pode cortar sem lei: as despesas discricionárias do Executivo caíram 37,8% em setembro, R$ 8,4 bilhões, e o investimento, 25,2%. Já os créditos extraordinários para amortecer o efeito do conflito subiram R$ 9,9 bilhões.
No ano, a conta segue no vermelho: déficit de R$ 90,2 bilhões de janeiro a setembro e de R$ 49,5 bilhões em 12 meses, o equivalente a 0,38% do PIB. Pela tabela do próprio Tesouro, mesmo descontados os R$ 60,2 bilhões em despesas que a lei deixa fora da meta, o resultado acumulado está R$ 30 bilhões abaixo do piso da meta do ano, de déficit zero. A previsão oficial para 2026 é de déficit de R$ 67,3 bilhões, exatamente o valor das despesas excluídas, e só fecha com um bloqueio de R$ 13,6 bilhões.
Entre as despesas que encolheram está a de subsídios, subvenções e Proagro, rubrica que inclui a equalização de juros do Plano Safra, o dinheiro que o Tesouro paga aos bancos para baratear o crédito rural. De janeiro a setembro, foram R$ 17,2 bilhões, queda real de 9,2%, ou R$ 1,7 bilhão a menos que no mesmo período de 2025.
Conta maior pela frente
A Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado, projetou nesta quinta déficit de 0,5% do PIB em 2026 e calculou que o fim das bets, o pacote para microempreendedores e o reajuste do Bolsa Família somam R$ 40 bilhões em gastos não previstos no orçamento, segundo o InfoMoney. Para estabilizar a dívida pública, seria preciso um ajuste de cerca de 3 pontos do PIB, avaliaram os diretores Marcus Pestana e Alexandre Andrade.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na terça-feira (27) que o governo prepara um projeto de lei complementar para ampliar o bloqueio de despesas e mirar o centro da meta fiscal, e não o piso, segundo o SBT News. A proposta ainda será discutida com o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, antes de ir ao Congresso, e Durigan afirmou que a margem de tolerância continua.
Nesta quinta, Leal negou que o governo discuta cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) da Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e do Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), mas disse que não é de agora que a equipe avalia formas de tributar os títulos isentos, segundo a Reuters. Outra conta chegou na quarta: o Tribunal de Contas da União (TCU) calculou em 11,3% a alíquota de referência da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que começa a substituir PIS e Cofins em janeiro, 2,09 pontos acima dos 9,21% usados até então como referência. O Senado tem até 15 de dezembro para fixá-la. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decide a Selic, hoje em 13,75%, na quarta-feira, 4 de novembro.
Com informações de Banco Central (Ptax), Tesouro Nacional (Resultado do Tesouro Nacional, setembro de 2026), Tesouro Nacional (sumário executivo do RTN), Tesouro Nacional (apresentação do RTN), CNN Brasil, InfoMoney, Canal Rural, Safras & Mercado e SBT News.





