Recuperação judicial no agro cai 20,7% no 2º trimestre; MT e GO somam 42,6% dos 448 pedidos
Mato Grosso lidera com 107 pedidos, e a soja ainda é a atividade com mais casos entre produtores-empresa. Inadimplência do produtor pessoa física segue no recorde de 9,69%, e a MP da renegociação contratou só R$ 5,27 bilhões.

Os pedidos de recuperação judicial no agronegócio caíram 20,7% no segundo trimestre de 2026, para 448, ante 565 no mesmo período do ano passado, segundo levantamento da Serasa Experian divulgado nesta segunda-feira (19). O resultado interrompe a sequência de altas registrada nos segundos trimestres de 2023, 2024 e 2025. Na comparação com os 474 pedidos do primeiro trimestre deste ano, a queda foi de 5,5%.
Para quem representa o produtor, o recuo nos tribunais não significa alívio no caixa. “O produtor segue enfrentando burocracia para comprovar perdas, juros elevados, limites insuficientes, exigências bancárias pesadas e dificuldade para oferecer garantias. Isso tem uma consequência concreta, o endividamento já chegou ao patrimônio das famílias rurais”, afirmou o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), ao comentar, no fim de setembro, o relatório da medida provisória que trata da renegociação das dívidas rurais.
A própria Serasa trata o número com cautela. Para Marcelo Pimenta, head de agronegócio da empresa, a queda pode estar ligada à sazonalidade da atividade, à entrada de receitas para parte dos produtores e ao avanço das renegociações com credores, sem indicar uma reversão dos problemas financeiros do setor. “Ainda assim, o ambiente segue desafiador, marcado por custos elevados, crédito mais seletivo e endividamento. Por isso, é importante acompanhar se essa redução será sustentada nos próximos trimestres”, disse, em nota citada pela CNN Brasil e pelo AgFeed.
O indicador é montado a partir dos processos publicados pelos Tribunais de Justiça dos estados, e a série histórica é ampliada a cada trimestre, à medida que novos pedidos são divulgados. Em 2025, a Serasa contou 1.990 pedidos no agro, alta de 56,4% sobre 2024 e o maior volume da série, iniciada em 2021.
Mato Grosso e Goiás concentram os casos
Mato Grosso segue no topo, com 107 pedidos no segundo trimestre, ou 23,9% do total. Goiás vem em seguida, com 84 (18,8%), à frente de São Paulo (72), Minas Gerais (54) e Paraná (42). Pelas contas do Campo em Pauta, os dois estados do Centro-Oeste somam 191 pedidos, 42,6% do país. Mato Grosso do Sul, que no primeiro trimestre aparecia logo depois de Goiás e Paraná, ficou fora dos cinco primeiros.
Em Mato Grosso, o número caiu de 135 pedidos no primeiro trimestre para 107. O estado lidera tanto entre os produtores pessoa física, com 49 pedidos, quanto entre os que atuam como pessoa jurídica, com 54. Goiás é o segundo entre as pessoas físicas, com 46, e o terceiro entre as jurídicas, com 22. No acumulado de 2025, Mato Grosso (332), Goiás (296) e Mato Grosso do Sul (216) responderam por 844 dos 1.990 pedidos, ou 42,4%, pelas contas do Campo em Pauta.
A maior queda veio dos produtores organizados como empresa: 160 pedidos, ante 243 um ano antes, recuo de 34,2%. A soja segue como a atividade com mais casos nesse grupo, com 70, pouco mais da metade dos 137 do primeiro trimestre, seguida pela criação de bovinos, com 28. Entre os produtores pessoa física, foram 197 pedidos, 10,5% menos que os 220 de um ano antes, mas 8,2% mais que os 182 do primeiro trimestre. Nesse grupo, os classificados como “sem propriedades”, que incluem arrendatários e integrantes de grupos familiares, fizeram 70 pedidos, e os grandes proprietários, 51. As empresas da cadeia, como prestadoras de serviço, agroindústrias, atacadistas e revendas de insumos, somaram 91 pedidos, queda de 10,8%.
Inadimplência continua no recorde
O recuo nos pedidos contrasta com o atraso nos pagamentos. A inadimplência do crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,69% em agosto, o maior nível da série do Banco Central, iniciada em 2011, ante 5,23% um ano antes, como mostrou o Campo em Pauta. Nas operações a taxas de mercado, fora das linhas com juros controlados, o índice foi a 17,56%. Pelos dados do Sistema de Informações de Crédito (SCR), Goiás tem 8,99% da carteira rural de pessoas físicas vencida há mais de 15 dias, a maior fatia entre os dez estados com as maiores carteiras; Mato Grosso do Sul tem 7,43%, e Mato Grosso, 6,13%.
Em julho, 23,5% da carteira de crédito rural do país, ou R$ 207,4 bilhões de R$ 881,7 bilhões, estava em atraso, inadimplente, prorrogada ou renegociada, segundo levantamento da FPA com dados do Banco Central. Só a inadimplência somava R$ 45,8 bilhões.
A renegociação aberta pela Medida Provisória 1.376, em vigor desde 15 de julho, anda devagar. Até o fim de setembro, foram contratados cerca de R$ 5,27 bilhões, em pouco mais de 43 mil operações, para um estoque de dívidas rurais acima de R$ 100 bilhões, segundo nota da FPA. A bancada afirma que mais de 14 mil imóveis rurais foram levados a leilão em 2025.
O relator da MP na comissão mista, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), rejeitou as 144 emendas apresentadas, mas incorporou pontos sugeridos por parlamentares: incluiu as Cédulas de Produto Rural (CPRs) emitidas a cooperativas e fornecedores de insumos e as CPRs em dia, e estendeu de 31 de maio para 31 de agosto a data de referência da inadimplência. A FPA cobra a simplificação dos laudos que comprovam perdas passadas, que não podem ser emitidos de forma retroativa, e a flexibilização da entrada exigida pelos bancos. A MP perde a validade em 11 de novembro, e as contratações vão até o dia 12.
Para a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), renegociar com os juros atuais pode apenas adiar a crise. “Alongar uma dívida sem compatibilizar o custo financeiro com a capacidade de geração de caixa da atividade pode significar apenas transferir para 2027 e para os anos seguintes parte dos problemas que o setor enfrenta hoje”, afirmou a entidade em agosto, ao comentar a liberação dos recursos da MP.
Com informações de CNN Brasil, AgFeed, Serasa Experian (1º trimestre de 2026), Serasa Experian (balanço de 2025), Agência FPA (relatório da MP 1.376), Agência FPA (nota oficial), Agência FPA (carteira de crédito rural), Agência FPA (Aprosoja-MT) e Câmara dos Deputados (tramitação da MP 1.376/2026).



