Focus mantém IPCA de 5,22% e eleva 2027; com Selic a 13,75%, juro real de 8,8% pesa no crédito do agro
Mercado vê Selic de 13,25% no fim do ano e piora do déficit; IGP-10 sobe 1,76%, puxado por soja, farelo e combustíveis, e China cresce 4,5% no 3º trimestre, enquanto vendas do Centro-Oeste aos chineses sobem só 3,1%.

O mercado financeiro manteve em 5,22% a projeção para a inflação oficial (IPCA) de 2026 e elevou de 4,30% para 4,32% a de 2027, segundo o Boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (19). Os dois números ficam acima da meta de 3%, e o de 2026 passa do teto de 4,5% da margem de tolerância. A mediana para a Selic no fim do ano ficou em 13,25%, ante os 13,75% atuais, e a projeção de crescimento do PIB caiu de 1,85% para 1,83% neste ano e de 1,40% para 1,32% em 2027.
Para a bancada do agro, o juro alto tem origem nas contas públicas. “Temos despesas novas a todo momento. Isso gera desconfiança e se reflete na taxa de juros”, afirmou a vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Senado, senadora Tereza Cristina (PP-MS), em agosto, em evento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) com o Grupo Estado.
As projeções fiscais do próprio Focus pioraram. A estimativa de déficit primário em 2026 passou de 0,41% para 0,48% do PIB em uma semana, e a de déficit nominal, que inclui os juros da dívida, de 8,87% para 8,90%. A dívida líquida do setor público deve chegar a 70,1% do PIB neste ano, 74% em 2027 e 76,7% em 2028, pela mediana das instituições consultadas.
Juro real perto de 9%
A Selic está em 13,75% desde 17 de setembro. Desde junho, o Comitê de Política Monetária (Copom) fez três cortes de 0,25 ponto, a partir de 14,50%. O Focus projeta 13,50% depois da reunião de novembro e 13,25% em dezembro; para o fim de 2027, 12%. Descontada a inflação esperada para os próximos 12 meses, de 4,51%, a Selic atual equivale a juro real de 8,8% ao ano, pelas contas do Campo em Pauta.
No campo, o custo aparece no crédito. Em Mato Grosso do Sul, a taxa média do custeio contratado na safra 2025/26 foi de 12,1% ao ano, acima da média nacional, de 10,5%, segundo a Aprosoja/MS. Em julho e agosto, os dois primeiros meses da safra 2026/27, os produtores do país tomaram R$ 52,4 bilhões em crédito rural, 26,4% menos que um ano antes, o pior início em cinco temporadas, segundo levantamento da FPA com dados do Banco Central.
Dólar recua, e atacado sobe com soja e boi
No câmbio, a semana passada foi de alta: o dólar subiu 1,75% e fechou a sexta-feira (16) a R$ 5,072; a Ptax, taxa de referência do Banco Central, ficou em R$ 5,0826 no dia. Nesta segunda, a moeda americana recuou e chegou à mínima de R$ 5,0497 nos primeiros negócios, queda de 0,47%, num dia de dólar mais fraco ante moedas emergentes e de queda do petróleo, segundo o Canal Rural. O mercado acompanha as pesquisas do segundo turno, que mostram diferença menor entre Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT).
Para o exportador, real mais forte significa menos reais por saca vendida. O Focus reduziu a projeção do dólar no fim de 2026 de R$ 5,20, há quatro semanas, para R$ 5,13, e a do fim de 2027 de R$ 5,28 para R$ 5,22. Em setembro, Tereza Cristina resumiu o efeito sobre a safra: “Nós plantamos a safra com o dólar a R$ 6 e hoje o dólar está a R$ 5,20. Então isso também traz um prejuízo, já que a nossa produção é vinculada, também, ao dólar”.
Nos preços ao produtor, a pressão vem do campo e do combustível. O IGP-10 subiu 1,76% em outubro, após 1,47% em setembro, perto do teto das projeções do mercado, que iam de 0,75% a 1,78%, informou nesta segunda o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). Em 12 meses, o índice acumula 5,02%, ante 1,60% um ano antes. No atacado, a alta foi de 2,36%, e as matérias-primas brutas subiram 3,81%. Entre as maiores influências estão a soja em grão (4,80%), o farelo de soja (8,30%), os bovinos (2,14%), a gasolina (16,03%) e o etanol anidro (12,26%).
Ao consumidor, o IPC-10 subiu 0,39%, com a alimentação acelerando de 0,03% para 1,09% e altas de 25,21% no tomate, 19,38% na batata e 13,81% na cebola. Na cidade de São Paulo, o IPC-Fipe subiu 0,56% na segunda quadrissemana de outubro, repetindo a leitura anterior, com o grupo Alimentação acelerando de 0,95% para 1,29%, informou a Fipe.
China cresce, mas Centro-Oeste vende pouco mais
A China, maior compradora do agro brasileiro, cresceu 4,5% no terceiro trimestre em relação ao mesmo período de 2025, acima dos 4,3% do segundo, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS) do país. Nos nove primeiros meses do ano, a alta é de 4,6%. As importações chinesas subiram 22,3% em yuans até setembro, e as vendas de grãos, óleos e alimentos no varejo, 6,8%. A produção chinesa de carne bovina caiu 0,7%, enquanto a de aves subiu 9,3% e a de suínos, 3,2%. O investimento em imóveis recuou 20,6%.
As exportações brasileiras para a China somaram US$ 84,68 bilhões de janeiro a setembro, 12% mais que no mesmo período de 2025, pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O Centro-Oeste cresceu menos, 3,1%, para US$ 19,33 bilhões: Mato Grosso vendeu US$ 10,35 bilhões (+3,7%), Goiás, US$ 4,62 bilhões (-6,1%), e Mato Grosso do Sul, US$ 4,27 bilhões (+13,2%). Desde 1º de outubro, a carne bovina brasileira que excede a cota anual paga sobretaxa de 55% para entrar na China, como mostrou o Campo em Pauta.
É nesse quadro de juro real alto, crédito mais curto e dólar em queda que o produtor do Centro-Oeste planta a safra 2026/27. “Temos custos de produção elevados, juros que encarecem o financiamento e instituições financeiras mais criteriosas na concessão dos recursos”, afirmou o analista de Economia da Aprosoja/MS Raphael Gimenes na quinta-feira (15).
Com informações de Banco Central (Boletim Focus), Safras & Mercado, Banco Central (meta Selic, SGS 432), Banco Central (Ptax), Canal Rural (dólar), Cruzeiro FM, FGV Ibre (IGP-10), FGV Ibre (press release IGP-10), Canal Rural (IGP-10), Canal Rural (IPC-Fipe), NBS (Escritório Nacional de Estatísticas da China), Comexstat (MDIC), Agência FPA (Tereza Cristina, juros), Agência FPA (dólar e endividamento), Agência FPA (Plano Safra) e Aprosoja/MS.



