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EUA pagam recorde de US$ 13,8 bi e miram Bangladesh e Indonésia, compradores de um quarto do algodão do Brasil

Plano americano eleva em 14% o preço de referência do algodão e o teto de pagamentos por produtor. Mato Grosso, que faz 68% da pluma do país, embarcou 1,44 milhão de toneladas até setembro, 18% a mais que um ano antes.

Por Redação Campo em Pauta ·

Carreta verde basculante despeja algodão colhido, em grande volume branco, numa prensa de módulos ao lado de uma lavoura já colhida, sob céu azul
Colheita de algodão nas South Plains, perto de Lubbock, no Texas (EUA), em 2010. Foto: USDA NRCS Texas (domínio público)

Os Estados Unidos começaram a liberar neste mês o maior pagamento da história dos dois principais programas de renda para os produtores americanos, e o algodão está entre as culturas que mais recebem por área. O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima em US$ 13,8 bilhões, em valores brutos, os repasses da Cobertura de Risco Agrícola (ARC) e da Cobertura de Perda de Preço (PLC) referentes à safra 2025, o maior volume desde a criação dos programas, na lei agrícola de 2014, segundo o Farm Policy News, da Universidade de Illinois. Nesta segunda-feira (19), a CNN Brasil detalhou, com base em documento do USDA, o pacote americano para o algodão, setor em que o Brasil tomou dos EUA, em 2023, o posto de maior exportador do mundo.

Pelas contas dos economistas do farmdoc daily, da Universidade de Illinois, o pagamento médio para o algodão em caroço é de US$ 119 por acre-base, atrás apenas do arroz e do amendoim e mais que o dobro do milho (US$ 51) e quatro vezes o da soja (US$ 29). O grupo calcula o total em US$ 13,2 bilhões, abaixo da conta oficial, mas também recorde. Os produtores devem receber até o fim de outubro. Segundo a American Ag Network, citada pelo Farm Policy News, o subsecretário de Produção Agrícola do USDA, Richard Fordyce, atribuiu a alta à lei sancionada por Donald Trump em julho de 2025, que o governo chama de Lei de Cortes de Impostos para Famílias Trabalhadoras. O texto elevou os preços de referência dos programas e o teto de pagamento por produtor de US$ 125 mil para US$ 155 mil, corrigido pela inflação.

O pacote do algodão

As medidas fazem parte do Grande Plano Americano do Algodão, lançado em 28 de maio pela secretária de Agricultura, Brooke Rollins. “Em 2023, perdemos para o Brasil o posto de maior exportador mundial de algodão. Isso muda a partir de hoje”, disse Rollins no lançamento, segundo o comunicado do USDA. O governo americano projeta perda de cerca de US$ 2,6 bilhões para os cotonicultores, em 9 milhões de acres plantados na safra 2026, o quinto ano seguido de rentabilidade negativa.

O preço de referência do algodão em caroço nos programas de renda sobe 14% a partir do outono americano de 2026. O valor do empréstimo de comercialização, que funciona como preço mínimo para o produtor, passa a US$ 0,55 por libra-peso no algodão upland e US$ 1 no de fibra extralonga, segundo a CNN Brasil. O pacote ainda prevê US$ 285 milhões a mais por ano em promoção comercial a partir do ano fiscal de 2027 e eleva de 3 para 5 centavos de dólar por libra-peso o subsídio às fiações americanas.

O plano mira clientes do algodão brasileiro. A Indonésia se comprometeu a facilitar a compra de pelo menos 163 mil toneladas por ano de algodão americano durante cinco anos, e Bangladesh terá redução de tarifas para roupas feitas com algodão e insumos têxteis dos EUA, segundo o documento do USDA citado pela CNN Brasil. Pelos dados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Bangladesh foi o segundo maior comprador da pluma brasileira de janeiro a setembro, com 411,2 mil toneladas, atrás só da China (423,1 mil). A Indonésia levou 148,2 mil toneladas em nove meses, menos que o volume anual prometido aos americanos. Somados, os dois países ficaram com 24,7% do algodão exportado pelo Brasil no período.

Mato Grosso na linha de frente

O peso recai sobre Mato Grosso. O estado embarcou 1,44 milhão de toneladas de algodão de janeiro a setembro, 18% mais que no mesmo período de 2025, e respondeu por 63,5% das exportações brasileiras, com receita de US$ 2,27 bilhões, segundo o Comexstat. No país, o volume subiu 20,8%, para 2,27 milhões de toneladas, mas o preço médio caiu: a tonelada saiu a US$ 1.575, ante US$ 1.654 um ano antes, recuo de 4,8%, pelas contas do Campo em Pauta. A Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa) informa que o país exportou o recorde de 3,37 milhões de toneladas no ano comercial 2025/26, de agosto a julho, 19% a mais que no ciclo anterior.

Para 2026/27, a Conab projeta 2,83 milhões de toneladas de pluma em Mato Grosso, 68,1% da produção nacional, de 4,16 milhões de toneladas, em 1,43 milhão de hectares (alta de 3,4%). O plantio no estado começa em dezembro. Os EUA também crescem: no relatório de outubro, o USDA estima a área plantada de algodão em 10,45 milhões de acres, 12,6% maior que na safra anterior, e prevê exportações de 12,3 milhões de fardos, contra 16 milhões do Brasil.

O mercado já não ajuda. O contrato de dezembro na bolsa de Nova York fechou a sexta-feira (16) a 80 centavos de dólar por libra-peso, pelas cotações publicadas pelo Notícias Agrícolas. O indicador da pluma do Cepea/Esalq caiu 2,4% em outubro, para R$ 4,07 por libra-peso. Em Mato Grosso, a pluma disponível valia R$ 126,45 por arroba na sexta, segundo o Imea, e a paridade de exportação para julho de 2027 estava em R$ 145,14 na quinta-feira (15). Até setembro, os produtores do estado tinham vendido 78,7% da safra 2025/26 e 43,4% da 2026/27.

O precedente da OMC

Não é a primeira vez que o apoio americano ao algodão opõe os dois países. Em 2002, o Brasil abriu disputa na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra os subsídios dos EUA. Em 2005, o Órgão de Apelação confirmou que pagamentos como os empréstimos de comercialização e os pagamentos contracíclicos deprimiam o preço mundial da fibra, em prejuízo do Brasil. Em 2009, a OMC autorizou retaliação de até US$ 829 milhões, segundo a Agência Brasil.

Em vez de retaliar, o Brasil negociou. A partir de 2010, os EUA pagaram US$ 147,3 milhões por ano ao Instituto Brasileiro do Algodão (IBA), até suspenderem os repasses em outubro de 2013. O acordo final, assinado em 1º de outubro de 2014, previu mais US$ 300 milhões, que elevaram o total a US$ 805 milhões, e o compromisso do Brasil de não contestar os programas americanos de algodão por quatro anos, segundo a Agência Brasil. Os dois países comunicaram à OMC o fim da disputa em 16 de outubro daquele ano.

Os produtores brasileiros apostam na qualidade e na presença junto aos compradores. “Conquistamos uma posição de liderança no mercado internacional, mas sabemos que mantê-la exige um trabalho contínuo”, afirmou o presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, em comunicado da entidade sobre a participação brasileira num encontro mundial do setor em Istambul, na Turquia, na semana passada.

Com informações de CNN Brasil, Farm Policy News (Universidade de Illinois), farmdoc daily (Universidade de Illinois), USDA (comunicado do Great American Cotton Plan, reproduzido pela WEIS Radio), USDA (WASDE, outubro de 2026), Comexstat (MDIC), Conab (1º levantamento da safra 2026/27), Conab (planilha por produto e UF), Abrapa, Imea (indicadores do algodão), Cepea/Esalq (indicador do algodão), Notícias Agrícolas (algodão em Nova York), OMC (disputa DS267) e Agência Brasil.

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