Ormuz trava 29% da ureia mundial, e fila de adubo nos portos sobe 10%; tonelada vale 59,5 sacas do milho 2027
Ureia volta a subir e chega a US$ 473 por tonelada no porto, enquanto as chegadas de cloreto de potássio caem 32% em outubro. Nova lei põe o adubo entre os minerais críticos, com crédito fiscal limitado a R$ 1 bilhão por ano de 2030 a 2034.

A crise no Estreito de Ormuz voltou a pesar sobre o adubo que o produtor do Centro-Oeste vai usar no milho safrinha de 2027. Relatório do S&P Global Institute divulgado na segunda-feira (19) calcula que cerca de 29% do comércio mundial de ureia, o fertilizante nitrogenado mais usado no mundo, passa normalmente pelo estreito, assim como quase metade do enxofre e 21% da amônia negociada entre países. No Brasil, a fila de navios com fertilizantes cresceu 10,4% em um mês, para 6,2 milhões de toneladas, e a ureia voltou a subir nos portos.
O estudo, assinado por Daniel Yergin e outros três autores, reduziu em 6 milhões de toneladas a previsão para o milho brasileiro, para 137 milhões, e vê espaço para mais 10 milhões de perda se o El Niño se intensificar. Os autores lembram que o diesel também apertou e que, diante dos dois custos, produtores das regiões mais expostas tendem a cortar a adubação ou a área. "Os agricultores compram semente, fertilizante e combustível meses antes de vender a safra. O aperto que agora pesa sobre os orçamentos das fazendas pode não chegar com força aos mercados de alimentos antes de 2027", escrevem.
Plano da ONU segue parado
O mecanismo apoiado pela ONU para tirar navios de fertilizantes do Golfo continua sem uso. Na quarta-feira (14), em Bangcoc, o subsecretário-geral da ONU que comanda o plano, Jorge Moreira da Silva, disse que Estados Unidos e Irã precisam autorizá-lo em poucas semanas. "Senão, vamos perder a época de plantio", afirmou, segundo a Reuters, em relato publicado pela Fertilizer Daily. Pela proposta, um centro em Omã registraria as embarcações e fiscais da ONU confeririam o carregamento nos portos do Golfo; a operação poderia começar de 7 a 10 dias depois de um acordo, com cinco navios por dia. Enquanto isso, cerca de 259 mil toneladas de ureia seguiam retidas no Golfo, segundo relatório da Nobel Trading divulgado na terça-feira (20).
Fila maior nos portos
No Brasil, o levantamento da agência marítima Williams Brasil feito de 1º a 9 de outubro, divulgado pela Safras & Mercado, registra 6,199 milhões de toneladas de fertilizantes programadas para desembarque até 24 de dezembro, ante 5,617 milhões no levantamento de setembro. Santos (SP) concentra 2,211 milhões de toneladas, 35,7% do total, e Paranaguá (PR), 972,8 mil, ou 15,7%. É carga agendada, ainda não descarregada, e a conta não separa os produtos.
A fila maior vem depois de um terceiro trimestre fraco na ureia. De julho a setembro, o país importou 1,82 milhão de toneladas, 7,4% menos que um ano antes, pelas contas do Campo em Pauta sobre o Comexstat, sistema de comércio exterior do governo federal. O último trimestre pesa mais para a safrinha: de outubro a dezembro de 2025 chegaram 3,23 milhões de toneladas, 41,8% de toda a ureia importada no ano. Para outubro de 2026, a Nobel registra programação parcial de 746 mil toneladas e estoque estimado de 1,3 milhão nos portos.
No potássio, as chegadas de cloreto previstas para outubro somavam 586,2 mil toneladas, 32% abaixo de um ano antes, segundo a Nobel. Até setembro, a Rússia vendeu ao Brasil 3,38 milhões de toneladas do produto, 38,7% menos, e perdeu o primeiro lugar para o Canadá, com 4,27 milhões, pelo Comexstat. A trading cita avaliação de que problemas logísticos no Báltico podem cortar até 500 mil toneladas por mês dos embarques russos neste trimestre.
Quanto custa o adubo do milho 2027
A referência da ureia granulada CFR Brasil, que inclui o frete até o porto, passou de US$ 470 para US$ 473 por tonelada, com ofertas de até US$ 500, segundo a Nobel; pelo Itaú BBA, foi o único dos principais adubos a subir em 30 dias. O cloreto de potássio granulado ficou em US$ 366. No Comexstat, o cloreto importado em setembro custou em média US$ 394,50 por tonelada com frete e seguro, 8,6% mais que um ano antes, e a ureia, US$ 448,30, 2,3% menos.
Pelas contas do Campo em Pauta, ao dólar Ptax de terça-feira, de R$ 5,0140, a tonelada de ureia no porto sai a R$ 2.371,62, e a de cloreto de potássio, a R$ 1.835,12. Com a paridade de exportação do milho para julho de 2027 calculada pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), de R$ 39,88 por saca na segunda-feira (19), o produtor de Mato Grosso precisa de 59,5 sacas para uma tonelada de ureia e de 46 sacas para uma de cloreto, sem contar o frete até a fazenda e a margem da revenda. Pelo milho disponível, a R$ 45,42 na terça, seriam 52,2 e 40,4 sacas. O Imea estima a colheita de milho 2026/27 do estado em 53,7 milhões de toneladas, 7,5% menos que no ciclo anterior.
A Nobel recomenda comparar o adubo disponível no mercado interno com o custo de novas importações e diz que juros altos, crédito escasso e câmbio volátil mantêm os compradores cautelosos. Nos Estados Unidos, a bolsa MIAX começou a negociar na segunda-feira (19) contratos futuros de ureia, MAP, DAP e cloreto de potássio com entrega física em Nova Orleans, para proteção de preço de revendas e produtores americanos.
Adubo entra na lei de minerais críticos
Do lado da produção nacional, a Lei 15.506, sancionada em 16 de setembro, criou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e incluiu os fertilizantes fosfatados, potássicos e nitrogenados entre os produtos que podem receber crédito fiscal e entre os projetos prioritários para debêntures incentivadas. O crédito pode chegar a 20% do gasto com beneficiamento e transformação mineral, com teto de R$ 1 bilhão por ano de 2030 a 2034.
"É a primeira política minerária brasileira que inclui fertilizantes como minerais críticos e os considera como infraestrutura estratégica para o país", disse à CNN Brasil, na terça-feira, o diretor executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), Bernardo Silva. Segundo ele, o país importa 97% do potássio, 97% do nitrogênio e 74% do fosfato que usa. "Sem uma produção doméstica robusta, que segure o fornecimento de fertilizantes em épocas de crise, a gente não apenas corre um risco de desabastecimento como paga o preço dessas crises geopolíticas contidas na nossa importação de fertilizantes", afirmou.
Com informações de S&P Global (comunicado via PR Newswire/BOE Report), Fertilizer Daily, Fertilizer Daily (Reuters), Safras & Mercado, Portal do Agronegócio (Nobel Trading), Portal do Agronegócio (Itaú BBA), Comex Stat (MDIC), Banco Central (Ptax), Imea, Planalto (Lei 15.506/2026) e CNN Brasil.



