Custo da soja sobe 6,96% em MT, e saca precisa valer R$ 126,67 para empatar; preço para março paga R$ 116,52
Ao preço de hoje, a lavoura com a produtividade prevista pela Conab cobre o custo total e sobra R$ 520 por hectare; ao valor projetado para a colheita, fica R$ 658 no vermelho. No milho, ao preço projetado para julho, a receita fica um terço abaixo do custo total.

Produzir um hectare de soja em Mato Grosso na safra 2026/27 vai custar R$ 8.210,31, alta de 6,96% sobre o ciclo anterior, segundo o projeto Custo de Produção Agropecuária (CPA-MT), do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) e do Senar-MT, consolidado no boletim semanal do instituto divulgado na segunda-feira (19). Pelas contas do Campo em Pauta, com a produtividade que a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê para o estado, de 64,82 sacas por hectare, o produtor precisa vender a saca a R$ 126,67 para pagar todas as despesas, R$ 10,63 a mais que na mesma conta feita com os números da safra 2025/26 (R$ 116,04).
O Imea, do Sistema Famato, atribui a alta principalmente às operações mecanizadas, 23,85% mais caras por causa do conflito no Oriente Médio, que encareceu o diesel, e aos defensivos, que subiram 10,10%. Na planilha do instituto, o gasto com óleo diesel e lubrificantes das máquinas passou de R$ 176,39 para R$ 218,45 por hectare, e o de defensivos, de R$ 1.217,59 para R$ 1.340,62. Fertilizantes e corretivos subiram 6,19%, para R$ 1.997,24, e as despesas financeiras, 11,5%, para R$ 482,03. A semente foi o alívio: caiu 21,96%, para R$ 473,87. Com isso, o custeio, que reúne os gastos diretos com a lavoura, fechou em R$ 4.324,87 por hectare, 3,43% acima do ciclo passado.
O número de R$ 8,2 mil é o mais amplo da conta. O custo operacional efetivo (COE), que soma os desembolsos do ciclo, inclusive manutenção, impostos e arrendamento, ficou em R$ 6.028,79 por hectare, alta de 4,33%. Com depreciação e pró-labore, o custo operacional total (COT) vai a R$ 6.699,57, alta de 4,68%. O custo total acrescenta a remuneração da terra e do capital investido, chamada de custo de oportunidade, que subiu 18,4%, para R$ 1.510,74, e responde por quase 44% dos R$ 534,41 de aumento por hectare.
Quantas sacas pagam o hectare
Ao preço médio de terça-feira (20), de R$ 134,70 pela saca disponível em Mato Grosso, segundo o Imea, o custo total equivale a 60,95 sacas por hectare. Com as 64,82 sacas previstas pela Conab, sobram 3,87 sacas, ou R$ 520,50 por hectare, margem de 6,3% sobre o custo total. Com a produtividade estimada pelo próprio Imea, de 62,44 sacas, mais pessimista, a sobra cai para R$ 200,36, e o ponto de equilíbrio sobe para R$ 131,49 por saca. Em Paranaguá (PR), o indicador Cepea/Esalq fechou a terça a R$ 153,40; a diferença para o interior é, em boa parte, frete.
A soja que está indo para a terra agora, porém, só será vendida a partir de janeiro. A paridade de exportação para março de 2027, que o Imea calcula convertendo o preço pago no porto para a porteira, descontados frete e despesas, estava em R$ 116,52 por saca na sexta-feira (16). A esse valor, pagar o custo total exige 70,46 sacas por hectare, mais do que a Conab e o Imea esperam colher. Pelas contas do Campo em Pauta, a receita com a produtividade da Conab seria de R$ 7.552,44 por hectare, R$ 657,87 (8%) abaixo do custo total, embora ainda R$ 852,87 acima do COT. Com a produtividade do Imea, a diferença para o custo total chega a R$ 934,80 por hectare (11,4%).
As duas projeções de safra explicam parte da distância. A Conab estima para Mato Grosso 3.889 quilos por hectare, 2% abaixo da safra passada, e 50,88 milhões de toneladas, em 13,08 milhões de hectares, área só 0,6% maior, o menor crescimento da série, segundo o Imea. O instituto prevê 48,88 milhões de toneladas, com rendimento inferior ao das duas últimas safras, que passaram de 66 sacas por hectare, e cita os riscos do El Niño. A diferença de 2,38 sacas entre as duas estimativas vale cerca de R$ 320 por hectare ao preço de terça. Para o instituto, o produtor deve focar especialmente no valor de venda da produção.
A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) já via o aperto em setembro. “Qualquer imprevisto, seja quebra de produtividade, queda no preço da soja ou aumento do custo financeiro, pode transformar rapidamente essa pequena margem em prejuízo”, afirmou o diretor administrativo da entidade, Diego Bertuol, à Revista Cultivar. Segundo ele, a pressão sobre o caixa já levava produtores a reduzir as doses de fósforo e potássio. “Não se trata necessariamente da melhor decisão técnica, mas da necessidade de adequar a lavoura ao caixa disponível”, disse.
Milho e algodão
No milho segunda safra, que será plantado depois da soja, a conta já não fecha, como mostrou o Campo em Pauta na terça-feira. O custo total da lavoura de alta tecnologia está em R$ 7.384,03 por hectare, 9,78% acima do ciclo anterior, pela planilha do Imea, e o ponto de equilíbrio, com a produtividade de 119,64 sacas estimada pelo instituto, é de R$ 61,72 por saca. Na terça, a saca disponível valia R$ 45,42 no estado. A paridade de exportação para julho de 2027 teve média de R$ 40,99 na semana passada: a esse preço, a receita seria de R$ 4.904,04 por hectare, 11% abaixo do COE e 33,6% abaixo do custo total, pelas contas do Campo em Pauta.
O algodão também ficou mais exigente. Pelo boletim do Imea, o COE da pluma na safra 2026/27 está em R$ 15.239,62 por hectare, e, com a produtividade prevista de 127,41 arrobas, o cotonicultor precisa vender a pelo menos R$ 119,61 por arroba para cobri-lo, o maior valor desde a safra 2022/23. Na semana passada, a pluma teve média de R$ 126,68 por arroba em Mato Grosso, 5,9% acima desse piso, depois de cair 2,74% em sete dias.
Para Bertuol, cortar gastos tem limite. “Essa redução de custos no curto prazo não pode comprometer a capacidade produtiva da agricultura mato-grossense no médio e no longo prazo”, afirmou.
Com informações de Imea (Boletim Semanal da Soja nº 919), Imea (Boletim Semanal da Soja nº 917), Imea (Custo de Produção - Soja - Ponderado Transgênica, CPA-MT), Imea (Boletim Semanal do Milho nº 919), Imea (Custo de Produção - Milho - Ponderado Alta Tecnologia), Imea (Boletim Semanal do Algodão nº 844), Imea (indicadores de soja e milho), Conab (1º levantamento da safra 2026/27, planilha por produto), Cepea, Mais Soja, Canal Rural e Revista Cultivar.



