Milho de 2027 cobre só 83,4% do desembolso em MT; fundos cortam pela metade a aposta de alta em Chicago
Paridade do milho para julho cai 4,1% em uma semana, a R$ 38,41; soja em Paranaguá fica 5,9% abaixo do pico de setembro, e portos saturados travam negócios em MT, GO e MS.

O milho que Mato Grosso vai colher em 2027 já vale menos do que custa para ser plantado. A paridade de exportação para julho de 2027, que o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) calcula a partir do preço no porto, descontados os custos até a fazenda, ficou em R$ 38,41 por saca na quinta-feira (22), queda de 4,07% sobre a sexta-feira anterior (16), quando estava em R$ 40,04. Pelas contas do Campo em Pauta, com a produtividade de 119,64 sacas por hectare e o custo operacional efetivo (COE) de R$ 5.508,23 por hectare que o instituto estima para a safra 2026/27, a receita seria de R$ 4.595,37 por hectare, só 83,4% do desembolso. Faltam R$ 912,86 por hectare, R$ 195 a mais que com o preço do dia 16.
Para empatar com o COE, a saca precisaria valer R$ 46,04. O milho disponível em Mato Grosso fechou a sexta-feira (23) a R$ 44,27, queda de 0,63% no dia, segundo o Imea. Em Sorriso, o sindicato rural indicava R$ 44,70. Em Goiás, a Comigo pagava R$ 51 em Rio Verde, ante R$ 53 uma semana antes, e o sindicato de Jataí indicava o mesmo valor. Em Mato Grosso do Sul, a Granos Corretora apontava R$ 50 em Dourados e em Maracaju, depois de queda de 5,66% só na sexta.
Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, a oferta elevada pressiona o mercado, e a queda das cotações internacionais e do dólar reduz a paridade de exportação. Os compradores seguem cautelosos, de olho numa semeadura que avança bem, e os produtores aceitam negociar, com receio de novas quedas ou para fazer caixa. O Indicador Esalq/B3, referência para a região de Campinas (SP), marcou R$ 64,24 na quinta, o menor valor desde 6 de julho (R$ 64), e fechou a sexta a R$ 64,27, queda de 6,41% em outubro.
Fundos saem de Chicago
Na Bolsa de Chicago, os fundos aceleraram a saída. Pelo relatório da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC), a posição líquida comprada dos gestores de recursos no milho caiu 33,28% na semana encerrada na terça-feira (20), de 246.425 para 164.423 contratos: eles se desfizeram de 32,4 mil contratos de compra e abriram 49,6 mil de venda. Pelas contas do Campo em Pauta, em duas semanas a aposta líquida na alta do milho encolheu à metade, ante 329.839 contratos em 6 de outubro. Na soja, o saldo comprado recuou 11,40%, para 221.325 contratos.
O milho para dezembro fechou a sexta a US$ 4,56 por bushel, queda de 0,98% no dia e de 3,85% na semana, pelos dados da CME Group compilados pelo Notícias Agrícolas. A soja para novembro subiu 0,28%, a US$ 12,565, mas terminou a semana 0,38% abaixo da sexta anterior.
A sustentação da soja vem da China, que voltou às compras nos Estados Unidos. Segundo o jornal argentino Clarín, o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) anunciou na semana passada vendas de 612 mil toneladas aos chineses na terça-feira e de 134 mil na quarta, além de 165 mil à Espanha, somando 3,16 milhões de toneladas em seis sessões seguidas. Na semana até 15 de outubro, as vendas americanas chegaram a 2,84 milhões de toneladas, 2,18 milhões delas à China, segundo o USDA, citado pelo Canal Rural. Mas os chineses também negociaram cerca de nove cargas de soja nova brasileira na sexta, segundo estimativas de mercado citadas pelo jornal, o que limitou o efeito sobre Chicago.
Portos cheios e negócio parado
No Brasil, faltou comprador. Algumas tradings já estão perto de concluir seus programas de embarque do ano, com os portos bastante saturados, e houve poucas indicações de compra na sexta, segundo o analista Rafael Silveira, da Safras & Mercado, ao Canal Rural. O prêmio pago sobre Chicago para embarque em novembro em Paranaguá (PR) seguiu parado em US$ 1,55 por bushel. Os portos trabalham em ritmo acima de 2025: nos 11 primeiros dias úteis de outubro, o país embarcou 3,8 milhões de toneladas de soja, média diária de 345,2 mil toneladas, 12,9% acima de outubro do ano passado, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
A indústria também recua. Segundo o Cepea, boa parte dos compradores está abastecida para o curto e o médio prazos, faz aquisições pontuais e resiste a fechar grandes volumes, tanto para entrega imediata quanto ao longo de 2027, à espera da safra nova, quando a curva de preços indica valores menores. A paridade de exportação para 2027 foi ao menor patamar desde agosto. O indicador Cepea/Esalq em Paranaguá fechou a sexta a R$ 152,41 por saca, 5,9% abaixo do pico do ano, de R$ 162,02, em 17 de setembro; em dólar, a perda no período é de 3,1%.
Em Mato Grosso, a saca disponível valia em média R$ 132,97 na sexta, queda de 0,75%, segundo o Imea, R$ 19,44 abaixo de Paranaguá. Parte da diferença é logística: o frete de Sorriso a Santos (SP) subiu 2,04% na semana, para R$ 503,18 por tonelada, o equivalente a R$ 30,19 por saca, ou 22,7% do preço pago ao produtor em Sorriso (R$ 133,20), pelas contas do Campo em Pauta. Em Mato Grosso do Sul, a média das oito praças da Granos ficou em R$ 140,31, com R$ 146 em Campo Grande; em Goiás, a Comigo pagava R$ 132 em Rio Verde.
O câmbio virou mais uma incógnita com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). Antes da votação, o analista Enilson Nogueira, da Céleres Consultoria, disse à Globo Rural que uma vitória de Lula poderia levar o dólar a R$ 5,20 ou R$ 5,30 e destravar vendas, mas avaliou que o melhor momento de preço ficou para trás. “A oportunidade com preços melhores que o produtor viu em setembro não está mais na mesa”, afirmou.
Pelos cálculos da Céleres, 22% da soja 2026/27 já foi vendida, acima da média de 15%; em Mato Grosso, eram 43,73% até setembro, segundo o Imea. Para o analista Ariel Nunes, da Gran Center Commodities, o produtor deveria estar mais adiantado. “O ideal seria o produtor ter fechado 50% das vendas antecipadas, pensando em pagar seus custos”, disse à Globo Rural. “Para os outros 50% o recomendado é segurar mesmo, até pensando no El Niño e em possíveis perdas.”
Com informações de Imea (indicadores do milho: disponível, paridade jul/2027 e frete), Imea (indicadores da soja: disponível, paridade e frete), Imea (Boletim Semanal do Milho nº 919, COE e produtividade 2026/27), Imea (Boletim Semanal da Soja nº 919), Cepea/Esalq (indicador do milho e série histórica), Cepea/Esalq (indicador da soja e série histórica, Paranaguá), Mais Soja (Cepea, soja), Mais Soja (Cepea, milho), CFTC (Disaggregated Commitments of Traders, 20/10/2026), Canal Rural (CFTC), Clarín (compras chinesas de soja dos EUA), Canal Rural (Safras & Mercado, portos saturados), Canal Rural (Safras & Mercado, Chicago e câmbio), Safras & Mercado (soja), Safras & Mercado (milho), Globo Rural (Céleres, Gran Center, Brandalizze), Notícias Agrícolas (CME Group, soja), Notícias Agrícolas (CME Group, milho), Notícias Agrícolas (prêmio da soja em Paranaguá), Notícias Agrícolas (soja em MS, Granos Corretora), Notícias Agrícolas (milho em MS, Granos Corretora), Notícias Agrícolas (soja, sindicatos e cooperativas), Notícias Agrícolas (milho, sindicatos e cooperativas), Secex (balança comercial semanal por produto, até a 3ª semana de outubro) e CNN Brasil (câmbio).



