Focus via Selic de 11,75% em 2027 antes da urna; DI de 2028 passa de 14%, e Durigan diz que fiscal não fecha em 2027
Pesquisa previa déficit de 0,30% do PIB em 2027, contra meta de superávit de 0,5% do governo. No crédito rural a taxas de mercado, a pessoa física já paga 13,52% ao ano, e cada ponto a mais custa R$ 10 mil por R$ 1 milhão financiado.

O mercado foi às urnas apostando em Selic de 11,75% ao ano no fim de 2027; horas depois do resultado, a curva de juros passou a cobrar bem mais que os 13,75% de hoje. O boletim Focus divulgado pelo Banco Central nesta segunda-feira (26), com projeções coletadas até a sexta-feira (23), antes do 2º turno, cortou a mediana da Selic para 2027 de 12% para 11,75% e a de 2028 de 10,50% para 10%. Às 9h58, primeiro pregão depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028, que embute a média de juros esperada até o fim do ano que vem, estava em 14,915%, 206 pontos-base acima dos 12,859% de sexta, segundo a Reuters.
O câmbio também ficou para trás. O Focus baixou a projeção do dólar no fim de 2026 de R$ 5,13 para R$ 5,05 e a de 2027 de R$ 5,22 para R$ 5,15, terceira queda semanal seguida. Às 10h18 desta segunda, o dólar comercial estava em R$ 5,604, alta de 12,20% sobre a sexta, segundo o InfoMoney, 8,8% acima da projeção para o fim de 2027. Para o Morgan Stanley, parte relevante da alta dos juros reflete a redução das apostas em cortes da Selic e a incorporação de um prêmio adicional ligado às contas públicas.
A inflação já vinha acima da meta. A mediana do IPCA de 2026 caiu de 5,22% para 5,19%, acima do teto de 4,5% (meta de 3% com tolerância de 1,5 ponto), e a de 2027 subiu pela segunda semana, de 4,32% para 4,34%, puxada pelos preços administrados, cuja projeção para o ano que vem passou de 3,86% para 3,99%. O crescimento esperado do PIB recuou de 1,83% para 1,80% em 2026 e de 1,32% para 1,31% em 2027.
A distância entre a meta e a projeção
No fiscal, a pesquisa mostra a distância entre o que o governo promete e o que o mercado espera. A mediana do Focus aponta déficit primário de 0,48% do PIB em 2026 e de 0,30% em 2027, melhor que os 0,40% de uma semana antes, e equilíbrio só em 2028. A dívida líquida do setor público, pela mesma pesquisa, sobe de 70,1% do PIB em 2026 para 74% em 2027 e 76,6% em 2028. A meta fiscal proposta para 2027 é de superávit de 0,5% do PIB; neste ano, o governo persegue superávit de 0,25%.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, porta-voz econômico da campanha de Lula, disse na sexta, em entrevista ao UOL citada pela CNN Brasil, que não há como resolver o problema fiscal no primeiro ano do novo mandato. "Não dá para querer vender para o mercado que no primeiro ano vai resolver esse problema porque não vai. É impossível que isso seja feito", afirmou. Segundo ele, o governo vai repetir a estratégia do 3º mandato, com revisão de benefícios tributários e de critérios de programas sociais, e prevê superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões em 2027.
Na mesma entrevista, Durigan rejeitou qualquer risco de calote, afirmou que a dívida está quase toda nas mãos de brasileiros e atribuiu seu crescimento à alta dos juros, segundo o Canal Rural. Também criticou a proposta de Flávio Bolsonaro (PL) de cortar R$ 200 bilhões, que considera impossível sem afetar universidades e benefícios sociais.
O mercado não esperou a próxima rodada do Focus para responder. O economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, avalia que cortes de juros nas duas reuniões que restam neste ano já não parecem prováveis, com riscos fiscais maiores e real mais fraco, segundo o InfoMoney. O Focus ainda previa corte da Selic para 13,50% na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de 4 de novembro e 13,25% em dezembro; o economista Bruno Corano, da Corano Capital, vê alta probabilidade de o Banco Central interromper os cortes.
Selic volta ao ponto de partida, e o crédito do campo sobe
Quatro anos depois, a Selic está no mesmo lugar em que Lula a encontrou. Pela série do Banco Central, a taxa era de 13,75% em janeiro de 2023, caiu a 10,50% em 2024, subiu a 15% em junho de 2025, ficou nesse patamar até março de 2026 e voltou a 13,75% em setembro.
No crédito rural sem subsídio, o custo subiu mesmo com os cortes. A taxa média das operações de crédito rural com taxas de mercado para pessoas físicas foi de 13,52% ao ano em agosto, último dado do Banco Central, ante 11,91% em abril, alta de 1,61 ponto num período em que a Selic caiu de 14,75% para 14%. Para empresas, a taxa de mercado ficou em 11,81%; nas linhas com juros controlados, a pessoa física pagou 9,22%. Pelas contas do Campo em Pauta, a 13,52%, um ano de juros sobre R$ 1 milhão financiado custa R$ 135,2 mil, e cada ponto percentual a mais acrescenta R$ 10 mil.
O juro de mercado mais alto também encarece o Plano Safra, porque o Tesouro paga aos bancos a diferença entre a taxa controlada e o custo de captação, a chamada equalização. O plano 2027/28 terá de ser anunciado em junho, no primeiro ano do novo mandato.
Quem fala pelo produtor liga o custo do crédito ao fiscal. "Quando impede a produção, impede a geração de emprego, impede o crescimento econômico", disse o presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), em 6 de outubro, ao citar a dívida pública de cerca de R$ 11 trilhões, o déficit primário e juros reais que, segundo ele, passam de 20% para o produtor rural.
Com informações de Banco Central (Focus), Banco Central (Expectativas de Mercado), Banco Central (SGS, séries 432, 20769, 20758, 20770), Safras & Mercado, CNN Brasil, Canal Rural, Reuters (via Antena 1) e InfoMoney.



