Ibovespa cai 16% e perde 33 mil pontos na volta do circuit breaker; dólar encarece ureia em R$ 217 por tonelada
Minerva despenca 22%, e o Banco do Brasil, maior financiador do campo, 31%. Capital Economics já não vê cortes da Selic neste ano, e Morgan Stanley projeta dólar a R$ 6 se o mercado enxergar dominância fiscal.

O Ibovespa voltou a ser negociado nesta segunda-feira (26), depois de 30 minutos de circuit breaker, e saiu do leilão de reabertura com queda de 16,95%, a 170.315,64 pontos, segundo o InfoMoney. Às 10h56, o índice caía 16,26%, a 171.738,28 pontos, segundo o Poder360: 33.344 pontos a menos que os 205.082,56 do fechamento de sexta-feira (23), na primeira hora de negócios depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no domingo (25). Como mostrou o Campo em Pauta, foi o primeiro acionamento do mecanismo desde março de 2020.
O dólar recuou da máxima, mas segue em outro patamar. A Ptax intermediária das 11h09, calculada pelo Banco Central e usada nos contratos do agro, saiu a R$ 5,4968, alta de 9,11% sobre a Ptax de sexta, de R$ 5,0377, e 1,93% abaixo da primeira parcial do dia, de R$ 5,6052. O dólar comercial subia cerca de 10%, a R$ 5,54, na atualização do InfoMoney após a reabertura da bolsa, depois de bater R$ 5,6047 (alta de 12,25%) no início da manhã, segundo o Money Times. Pelas contas do Campo em Pauta, mesmo depois do recuo a moeda está 5,2% acima da Ptax de 2 de outubro, de R$ 5,2238, a sexta-feira anterior ao 1º turno: toda a queda que se seguiu à vitória de Flávio Bolsonaro (PL) naquela votação foi devolvida em uma manhã.
Na bolsa, a queda atingiu em cheio empresas ligadas ao campo e ao crédito. Na reabertura, a Minerva (BEEF3) recuava 22,01% e a MBRF (MBRF3), resultado da fusão de Marfrig e BRF, 10,17%; a Cosan (CSAN3), sócia da Raízen, caía 50%. O Banco do Brasil (BBAS3), maior financiador do crédito rural, perdia 31,35%, e o Bradesco (BBDC4), 24,55%, segundo o InfoMoney. A Vale, exportadora com receita em dólar, chegou a subir 8,40%.
Os juros futuros, que balizam o custo do dinheiro emprestado fora das linhas subsidiadas, subiram em toda a curva. Por volta das 10h, o DI para janeiro de 2027 passava de 13,475% para 13,896%, e o de janeiro de 2029, de 12,595% para 15,030%, segundo o Canal Rural, exatamente o teto de oscilação que a B3 havia acabado de ampliar, segundo o InfoMoney. Às 9h58, a Reuters registrava o DI para janeiro de 2028 a 14,915%, 206 pontos-base acima do ajuste de sexta, e o de 2035 a 15,375%, alta de 263 pontos. O DI de 2028 embute a média de juros esperada até o fim do ano que vem e passou a ficar acima da Selic atual, de 13,75%.
Até a publicação, não havia cotação do CDS de cinco anos, termômetro do risco-país, divulgada para esta segunda. O último nível noticiado pelo Poder360 foi de 110 pontos, em 9 de outubro, o menor desde fevereiro de 2020. O Morgan Stanley projeta alta de cerca de 40 pontos-base no CDS nas primeiras sessões depois da eleição. Em Londres, o rendimento do título brasileiro em dólar com vencimento em 2037 subiu 19 pontos-base, para 6,44%, segundo a Bloomberg, e o JPMorgan rebaixou a dívida externa do país para underweight, equivalente a venda.
O que o câmbio faz com a saca e com o adubo
Para quem tem soja para vender, o dólar mais caro põe mais reais na saca. Pelas contas do Campo em Pauta, o indicador Cepea/Esalq de Paranaguá (PR), que fechou a sexta a US$ 30,53 por saca de 60 quilos (R$ 152,41), vale R$ 167,82 convertido pela Ptax das 11h09, R$ 14,02 (9,1%) a mais que pela Ptax de sexta. A conta supõe o preço em dólar no porto inalterado; o indicador desta segunda ainda não havia sido divulgado.
A mesma moeda encarece o que o produtor compra em dólar para fechar a safra 2026/27 e preparar o milho de 2027. A ureia, cotada a US$ 473 por tonelada com frete pela Nobel Trading, como mostrou o Campo em Pauta, passa de R$ 2.382,83 pela Ptax de sexta para R$ 2.599,99 pela das 11h09, R$ 217,15 a mais por tonelada. "Um dólar mais alto pode favorecer a receita de exportação, mas também encarece insumos e compromissos ligados à moeda americana. A margem depende dessa conta inteira", escreveu o comentarista de economia do Canal Rural Miguel Daoud, para quem o risco fiscal "chega ao custo do financiamento, do diesel, dos fertilizantes e da próxima safra".
O que os bancos projetam para o 4º mandato
O câmbio da manhã superou quase todas as projeções feitas antes da abertura. O Wells Fargo esperava dólar a R$ 5,30 em caso de vitória de Lula; o chefe global de mercados do ING, Chris Turner, falava em salto de 5% a 7%, para R$ 5,20 a R$ 5,25; a economista-chefe do PicPay, Ariane Benedito, em R$ 5,15 a R$ 5,25, com Ibovespa entre 198 mil e 202 mil pontos, no programa Diário Econômico, do Canal Rural. O Société Générale havia sinalizado queda de até 10% do real e alta de 150 a 250 pontos-base nos juros. Numa pesquisa do Citi com investidores publicada na sexta, 63% esperavam desvalorização do real acima de 5% com a vitória de Lula.
Para frente, o Morgan Stanley espera que o dólar teste R$ 5,50 e avance para R$ 5,60 ou R$ 5,70 à medida que os investidores incorporem um prêmio de risco fiscal maior, e vê R$ 6 se o mercado passar a enxergar risco de dominância fiscal, segundo relatório citado pelo InfoMoney. O banco estima alta de pelo menos 300 pontos-base na curva de juros e Ibovespa perto de 130 mil pontos até meados de 2027 se a deterioração fiscal continuar. O JPMorgan vê as taxas dos títulos do Tesouro em até 15,5% num cenário pessimista, e o economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, dólar em torno de R$ 5,40 de forma sustentada em 2027.
"A vitória surpreendente de Lula vai frustrar as esperanças de reformas que melhorariam as finanças públicas e fortaleceriam as perspectivas de crescimento", afirmou William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, para quem cortes de juros nas duas reuniões que restam neste ano já não parecem prováveis, segundo o InfoMoney. "Minha avaliação é que o mercado está reprecificando simultaneamente dois riscos: o fiscal, relacionado à continuidade dos déficits primários e à trajetória da dívida pública, e o institucional, diante das controvérsias sobre o processo eleitoral", disse o economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos. O próximo Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne em 4 de novembro.
O governo aposta em ajuste gradual. Na sexta, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse ao UOL que o 4º mandato vai "pegar o orçamento positivo de 2027 e aumentar o resultado positivo nos próximos anos, sem dar cavalo de pau e sem fazer loucuras". A Gavekal Research recomendou comprar ativos brasileiros na queda, citando juros altos, commodities e um Congresso mais conservador que o presidente. Lula teve 51,79% dos votos válidos, e Flávio, que não reconheceu o resultado, anunciou que pedirá a anulação da eleição.
No campo, a conta dos juros chega antes de qualquer sinal de Brasília. O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), disse em 6 de outubro, ao declarar apoio a Flávio, que o produtor enfrenta juros reais superiores a 20% e associou o custo ao déficit e à dívida pública. "A afinidade política tem valor, mas a prestação do financiamento vence numa data determinada, independentemente dos acordos em Brasília", escreveu Daoud.
Com informações de B3 (Bora Investir), Banco Central (Ptax), Cepea, InfoMoney, InfoMoney/Bloomberg, Poder360, Money Times, CNN Brasil, Canal Rural, Reuters (via Antena 1) e InvestNews/Bloomberg.



