Importação de trator chinês sobe 117%, e venda interna cai 14,1%; MT importa 79,8% menos colhedoras de algodão
Com o Moderfrota a até 12,5% ao ano, a venda de colheitadeiras recua 39,4%. No Centro-Oeste, só 13 dos 155 tratores importados diretamente em 2026 vieram da China; o resto são máquinas grandes dos EUA e da Finlândia.

As importações de tratores agrícolas da China mais que dobraram neste ano, enquanto o produtor brasileiro compra menos máquinas. Levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), divulgado na quarta-feira (21), mostra que entraram no país 5.249 tratores chineses de janeiro a setembro, alta de 117% sobre o mesmo período de 2025. No mercado interno, as vendas de tratores de rodas caíram 14,1% até agosto, de 29,7 mil para 25,5 mil unidades.
A Índia empatou com a China, também com 5.249 tratores, mas cresceu só 11%. Juntos, os dois países responderam por 93% dos tratores importados. Somadas todas as máquinas agrícolas, as importações subiram 42%, para 11,2 mil unidades, mais que o dobro das 5 mil exportadas pelo Brasil no período. As vendas internas de máquinas agrícolas no varejo somaram 27 mil unidades até agosto, 15,8% menos que um ano antes, e as de colheitadeiras despencaram 39,4%, de 2,3 mil para 1,4 mil.
O avanço chinês se concentra nos tratores pequenos e médios. Segundo a Anfavea, 90% dos importados até setembro tinham até 100 HP (cavalos de potência), e a faixa de 50 a 100 HP somou 6.412 unidades, alta de 56%. Já a queda nas vendas internas é maior justamente nas máquinas de grande porte, típicas das lavouras de grãos do Centro-Oeste: os tratores acima de 180 HP recuaram 30,3% de janeiro a agosto, de 4 mil para 2,8 mil, contra queda de 8,3% nos modelos de até 100 HP.
Centro-Oeste importa trator grande
Na região, o retrato é outro. Pelas contas do Campo em Pauta com os microdados do Comexstat, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, empresas de Mato Grosso, Goiás e Mato Grosso do Sul importaram 155 tratores agrícolas de janeiro a setembro, mais que o dobro dos 75 do mesmo período de 2025, alta de 106,7%. O valor somou US$ 56,7 milhões, 120,9% a mais. O número já supera os 105 tratores trazidos pelos três estados em todo o ano passado.
Goiás puxou o aumento, de 30 para 111 unidades. Mato Grosso ficou estável, com 42, e Mato Grosso do Sul caiu de 4 para 2. Quase tudo é máquina de grande porte: 144 dos 155 tratores têm mais de 130 kW, cerca de 175 HP, e a maioria veio dos Estados Unidos (103) e da Finlândia (39). A China mandou 13, ou 8,4% das unidades e menos de 0,5% do valor. Cada trator importado pela região custou em média US$ 365,9 mil; os chineses, US$ 18,5 mil.
Com poucas unidades e preço alto, os três estados responderam por 20% do valor de todos os tratores agrícolas importados pelo Brasil no período. O Comexstat registra o estado da empresa importadora, e não o destino final da máquina. Segundo a Anfavea, os tratores chineses e indianos entram por poucos estados, com os chineses concentrados no Espírito Santo e em Santa Catarina, e podem ser revendidos em qualquer região.
Na colheita, a retração aparece com força. As importações de colhedoras de algodão por empresas dos três estados caíram de 207 para 99 unidades de janeiro a setembro, queda de 52,2%, e o valor recuou de US$ 148,3 milhões para US$ 82 milhões (-44,7%). Em Mato Grosso, maior produtor de algodão do país, a queda foi de 79,8%, de 124 para 25 máquinas. Goiás passou de 83 para 73. Das 99 colhedoras importadas pela região neste ano, 94 vieram dos Estados Unidos e 5 da China, todas para Mato Grosso, que em 2025 tinha trazido 44 colhedoras chinesas.
Licitações e custo de fábrica
A Anfavea também aponta as compras públicas como fator de mudança no mercado. Levantamento da entidade no Portal Nacional de Contratações Públicas mostra que 65% dos 3.318 tratores agrícolas licitados em 2025 foram importados. Entre as 10,6 mil máquinas agrícolas e rodoviárias licitadas no ano, no valor de R$ 3,7 bilhões, as de origem chinesa ficaram com 33,5% das unidades e 26% do valor, cerca de R$ 960 milhões.
"Uma máquina não termina sua relação com o comprador no momento da entrega. É um ativo que precisa operar por muitos anos, e isso depende de peças, assistência técnica, manutenção e capacidade de atendimento", afirmou o presidente da Anfavea, Igor Calvet, ao defender que as licitações considerem o custo total de propriedade, e não só o menor preço de compra.
As fábricas instaladas no país reclamam ainda do custo de componentes plásticos, que pode subir de 4% a 7% com a manutenção da alíquota de importação de 20% sobre resinas e polímeros, decidida pelo Gecex em agosto, e com medidas antidumping. A Anfavea diz não defender barreiras a novas marcas, mas exigências iguais de qualidade, segurança e assistência técnica para fabricantes nacionais e importadores.
Juro segura a compra
Para a entidade, o endividamento elevado e a baixa rentabilidade do produtor desestimulam a compra de máquinas novas. A Anfavea cita a Selic de 13,75% ao ano em setembro e a inadimplência do crédito rural de pessoas físicas, que chegou a 9,7% em agosto, segundo dados do Banco Central compilados por ela. Na apresentação dos números, a associação resume o caso das colheitadeiras numa frase: o cenário de juros "torna o investimento inviável".
A principal linha para trator e colheitadeira, o Moderfrota, do BNDES, cobra até 12,5% ao ano no Plano Safra 2026/27, ou até 11,5% para produtores do Pronamp, com prazo de até sete anos. A taxa está um ponto percentual abaixo da safra passada, quando era de até 13,5% e 12,5%, mas ainda acima de 2024/25, quando o programa cobrava até 11,5% e 10,5%, segundo as páginas do banco. Em julho, ao comentar o novo plano, a Anfavea considerou as taxas atrativas diante da Selic, mas ponderou que são "juros que ainda não cabem no bolso de alguns clientes", com as commodities em preços mais baixos.
A Abimaq, que reúne fabricantes de máquinas, também aponta o endividamento como freio à renovação da frota. Em 9 de outubro, o Campo em Pauta mostrou que o faturamento com máquinas agrícolas novas caiu 22,4% até agosto, segundo a entidade, e que seminovas podem custar de 40% a 60% menos que as novas equivalentes.
Com informações de Anfavea (press release Anfavea MAQ, outubro de 2026), Anfavea (apresentação Anfavea MAQ, outubro de 2026), Comexstat/MDIC (importações por NCM, 2026), Comexstat/MDIC (importações por NCM, 2025), BNDES (Moderfrota, Plano Safra 2026/27), BNDES (Moderfrota, Plano Safra 2025/26, cópia do Internet Archive), BNDES (Moderfrota, Plano Safra 2024/25, cópia do Internet Archive), NovaCana (nota da Anfavea sobre o Plano Safra 2026/27), Safras & Mercado e CNN Brasil.



