G7 soma US$ 2,5 bilhões contra a crise dos fertilizantes, com foco na África; Brasil depende de adubo importado
Valor, quase todo em doações, foi mobilizado desde o início da guerra no Oriente Médio, diz a presidência francesa do grupo; o comunicado não cita o Brasil entre os destinos do dinheiro.

Os países do G7 mobilizaram US$ 2,5 bilhões desde o início da crise no Oriente Médio para enfrentar o choque nos fertilizantes e reforçar a segurança alimentar, quase tudo em doações e com foco na África. A informação está no comunicado do Ministério da Economia da França, que preside o grupo em 2026, divulgado nesta quinta-feira (15) depois da reunião de ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais em Bangcoc, na Tailândia, à margem das reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
“Juntos, nos comprometemos a destinar US$ 2,5 bilhões para ajudar a garantir a segurança alimentar, especialmente em uma questão muito importante: os fertilizantes”, disse o ministro francês da Economia, Roland Lescure, segundo a agência AFP e o jornal Le Monde, em reportagem reproduzida pela CNN Brasil. Ele citou levantamento do Banco Mundial que aponta 44 países sob risco de insegurança alimentar com a alta da energia, mas não detalhou de onde sai o dinheiro nem como será aplicado.
Pelo comunicado oficial, o valor não corresponde a um fundo anunciado agora: é o total que o grupo diz ter mobilizado desde o começo da guerra para cumprir um plano de ação sobre choques de fertilizantes e resiliência dos sistemas alimentares, adotado com países parceiros em junho. Segundo o texto, a ênfase é em resiliência e prevenção de crises futuras, sobretudo na África. O documento não traz lista de países beneficiados nem prazo de aplicação.
O G7 reúne Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, além da União Europeia. O Brasil participou da segunda parte do encontro em Bangcoc, como país parceiro, ao lado de Egito, Índia, Coreia do Sul e Quênia, numa conversa sobre a economia global e desequilíbrios macroeconômicos.
Ormuz no centro da crise
O adubo entrou na agenda do G7 por causa do Estreito de Ormuz. Em 8 de junho, os ministros da Agricultura do grupo fizeram uma reunião extraordinária para discutir os efeitos do conflito e do “fechamento de fato” do estreito pelo Irã sobre os preços e o abastecimento de fertilizantes. Na cúpula de Evian, no mesmo mês, os líderes encarregaram os ministros de avaliar o impacto global do acesso a insumos como fertilizantes e de coordenar o apoio aos países que precisarem. Em 2 de outubro, numa reunião virtual, voltaram a pedir a restauração imediata da livre navegação em Ormuz e anunciaram a liberação coordenada de 100 milhões de barris dos estoques de petróleo e derivados, com parte do diesel liberada já nos primeiros 20 dias.
Brasil compra quase todo o adubo fora
O Brasil não aparece no comunicado como destino do dinheiro, mas sente o mesmo choque. Quando o governo lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, em março de 2022, o país importava cerca de 85% dos fertilizantes que consumia. Hoje, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-primas para Fertilizantes (Sinprifert), a fatia é de cerca de 90%. Como mostrou o Campo em Pauta, a ureia vinda dos países do Golfo caiu 52% de janeiro a setembro, e a importação total de fertilizantes recuou 15,7% no período.
No campo, o adubo é o insumo mais caro da soja. Em Mato Grosso do Sul, os fertilizantes respondem por R$ 1.367,31 dos R$ 5.024,82 que a Aprosoja/MS estima para produzir um hectare de soja na safra 2026/27, mais que defensivos e sementes.
Em Mato Grosso, o Imea aponta o milho de segunda safra como um dos principais pontos de atenção, especialmente pelo impacto dos fertilizantes no custeio, segundo a analista Milena Habeck. O custeio do milho de alta tecnologia no estado subiu 13,83% para a safra 2026/27, para R$ 3.778,76 por hectare, e a receita bruta estimada, de R$ 5.388,93 por hectare, não cobre o custo operacional efetivo, de acordo com o levantamento do Imea e do Senar-MT.
Com informações de G7 Research Group/Ministério da Economia da França (comunicado de 15/10/2026), G7 Research Group (ministros da Agricultura, 8/6/2026), G7 Research Group (declarações de Evian, junho de 2026), G7 Research Group (declaração dos líderes de 2/10/2026), CNN Brasil, Jamaica Observer (AFP), Poder360, Globo Rural, CNA/Sistema Famato (Imea e Senar-MT) e Aprosoja/MS (Informativo Econômico 16/2026).



