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Crédito rural cai 20,2% em MS e cobre só 13,7% do custo da soja, que passa de R$ 5 mil por hectare

Estudo da Aprosoja/MS com dados do Banco Central mostra o estado com a maior queda entre os nove que mais tomam crédito; Goiás recua 18,3%, e Mato Grosso cresce 8,4%.

Por Redação Campo em Pauta ·

Lavoura de soja verde e plana à beira de uma estrada asfaltada com acostamento de terra vermelha, sob céu azul com nuvens e torres de linha de transmissão ao fundo
Lavoura de soja à beira de estrada na região de Maracaju (MS), em 2008. Foto: Alceu Mauro Denes (CC BY 3.0)

O crédito rural contratado em Mato Grosso do Sul caiu 20,2% na safra 2025/26, para R$ 14,9 bilhões, a maior queda entre os nove estados que mais tomam crédito rural no país. Ao mesmo tempo, produzir um hectare de soja no estado na safra 2026/27 custa R$ 5.024,82. Os números estão no Informativo Econômico 16/2026 da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS), divulgado nesta quinta-feira (15), com base nos microdados do Sistema de Operações do Crédito Rural (Sicor), do Banco Central, atualizados em 7 de outubro.

“Os dados mostram que a dificuldade do produtor rural vai além da redução no volume de crédito contratado. Temos custos de produção elevados, juros que encarecem o financiamento e instituições financeiras mais criteriosas na concessão dos recursos”, afirmou o analista de Economia da Aprosoja/MS Raphael Gimenes, em nota da entidade.

Foi o segundo ano seguido de queda. O volume ficou 38,4% abaixo do pico de R$ 24,1 bilhões, registrado em 2023/24. Corrigido pela inflação, o crédito do estado voltou a R$ 15,2 bilhões, praticamente o mesmo de 2013/14, com área plantada e custo de produção muito maiores. A fatia de Mato Grosso do Sul no crédito rural do país caiu para 4,2%, a menor da série iniciada em 2013/14.

Custeio pagaria só 13,7% da soja

Dos R$ 5.024,82 por hectare estimados para a soja, R$ 3.078,63 vão para insumos: R$ 1.367,31 em fertilizantes, R$ 1.071,42 em defensivos e R$ 542,50 em sementes. Com a saca a R$ 119,52, o produtor precisa de 42,04 sacas por hectare só para pagar a conta. Em área arrendada, são 57,04 sacas.

Multiplicado pelos 4,874 milhões de hectares que a Aprosoja/MS estima para a soja no estado, o custo chega a R$ 24,5 bilhões, dos quais R$ 15 bilhões só em insumos. Na safra 2025/26, o custeio de soja contratado pelo crédito rural somou R$ 3,35 bilhões, o equivalente a 13,7% dessa necessidade. A área de soja financiada pelos bancos caiu de 1,54 milhão de hectares em 2023/24 para 710 mil hectares, cerca de 15% do plantio. O número de operações de crédito rural no estado recuou 20,7%, de 36 mil para 28,5 mil.

O resto sai do caixa do produtor, de Cédulas de Produto Rural (CPR), da troca de insumos por produção futura com revendas e tradings e do crédito de fornecedores, em geral com prazo menor e custo maior. O crédito também ficou mais caro: a taxa média do custeio contratado em Mato Grosso do Sul foi de 12,1% ao ano em 2025/26, acima da média nacional, de 10,5%. Em 2020/21, era de 5,9%. As operações com recursos de Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) a juros livres, que sustentaram o crescimento até 2024, caíram 83%, de R$ 11,6 bilhões para R$ 2 bilhões.

Goiás perde 18,3%, e Mato Grosso cresce

No Centro-Oeste, o quadro da safra 2025/26 foi desigual, segundo os dados do Sicor reunidos pela Aprosoja/MS:

  • Mato Grosso do Sul: R$ 14,9 bilhões, queda de 20,2%. Ante 2022/23, a perda real chega a 43,6%, a maior entre os nove estados.
  • Goiás: R$ 26,6 bilhões, ante R$ 32,6 bilhões (queda de 18,3%). A perda real ante 2022/23 é de 38,3%.
  • Mato Grosso: R$ 40 bilhões, ante R$ 36,9 bilhões (alta de 8,4%).
  • Brasil: R$ 353 bilhões, queda de 7,9%.

As dívidas pesam mais em Mato Grosso do Sul e Goiás. Em agosto, R$ 12,8 bilhões dos R$ 47,2 bilhões da carteira de crédito rural sul-mato-grossense, ou 27,1%, estavam classificados como problemáticos, categoria que reúne operações renegociadas, prorrogadas, inadimplentes ou em atraso. Em dezembro de 2022, eram 2,5%. Em Goiás, a parcela chegou a 27,6%; em Mato Grosso, a 21,5%; no país, a 23,8%. Proporcionalmente ao tamanho da carteira, Mato Grosso do Sul teve mais pedidos de recuperação judicial no agro em 2025 que os vizinhos: 45,8 para cada R$ 10 bilhões, contra 36,9 em Goiás e 31,5 em Mato Grosso, segundo cálculo da Aprosoja/MS com dados da Serasa Experian.

Em Mato Grosso, a conta da soja também subiu. O Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea) calcula o custeio da safra 2026/27 em R$ 4.323,22 por hectare, alta de 3,39%, e o custo total em R$ 8.171,41, alta de 16,69%. A metodologia é diferente da usada pela Aprosoja/MS, e os valores não são comparáveis diretamente. “Hoje nós temos um cenário em que a receita bruta não cobre o Custo Total, que inclui até o custo de oportunidade do capital investido para o produtor”, disse a analista do Imea Milena Habeck, segundo o Sistema Famato.

A nova safra começou no mesmo ritmo. Como mostrou o Campo em Pauta, as contratações de julho a setembro caíram nos três estados da região; em Mato Grosso do Sul, foram R$ 3,1 bilhões, 29% menos que um ano antes, pelos números da Aprosoja/MS. No Plano Safra 2026/27, os recursos para custeio e comercialização da agricultura empresarial encolheram 7,2%, de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, enquanto os de investimento subiram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões.

A Aprosoja/MS defende ampliar o prazo de adesão à renegociação da Medida Provisória nº 1.376/2026, que termina em 12 de novembro, pôr em funcionamento um fundo garantidor, corrigir a cada safra os limites do crédito rural por um índice de custo de produção, recompor o custeio com juros controlados e fortalecer o Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste (FCO) Rural. Ao produtor, a entidade recomenda mapear dívidas e vencimentos e pedir prorrogação antes de vencer a parcela. “A recuperação judicial deve ser a última alternativa”, diz o informativo.

Com informações de Aprosoja/MS (Informativo Econômico 16/2026), Aprosoja/MS, Campo Grande News, Mais Soja e CNA/Sistema Famato (Imea e Senar-MT).

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