Crise em Ormuz corta pela metade a ureia do Golfo no Brasil; diesel sobe até 8,6% em um mês no Centro-Oeste
Agência da ONU diz que o bloqueio já afeta colheitas e prevê novas altas até o início de 2027; Brent volta a passar de US$ 100 e importação de ureia cai 21,5% no ano.

A crise no Estreito de Ormuz cortou pela metade a ureia que o Brasil compra dos países do Golfo Pérsico e encareceu o adubo e o diesel que chegam às fazendas do Centro-Oeste. De janeiro a setembro, as importações de ureia vindas de Catar, Emirados Árabes Unidos, Irã, Barein e Arábia Saudita, cujos portos ficam dentro do Golfo e dependem da passagem pelo estreito, somaram 437 mil toneladas. É 52% menos que no mesmo período de 2025, segundo o Comexstat, sistema de comércio exterior do governo federal.
O alerta mais recente veio nesta quinta-feira (15) do presidente do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), agência da ONU para o desenvolvimento rural, Alvaro Lario. Em entrevista à Reuters, reproduzida pela CNN Brasil e pela Globo Rural, ele disse que o efeito da interrupção da navegação já aparece nas colheitas. Segundo Lario, os preços das commodities agrícolas subiram 13% no terceiro trimestre, e novas altas são esperadas no quarto trimestre e no primeiro trimestre de 2027.
Lario afirmou que os estoques de fertilizantes e combustíveis amorteceram o choque no início, mas que a incerteza prolongada levou agricultores a plantar com mais cautela e a reduzir o uso de adubo. O diesel mais caro, disse, também pesa na colheita mecanizada. Um funcionário responsável pelo plano apoiado pela ONU para o transporte de fertilizantes pelo estreito disse à Reuters que, sem acordo entre Estados Unidos e Irã nas próximas semanas, partes da Ásia e da África podem enfrentar crise de segurança alimentar. Em agosto, o secretário-geral da ONU, António Guterres, propôs um mecanismo temporário para dar previsibilidade à passagem de fertilizantes por Ormuz.
A FAO, braço da ONU para agricultura e alimentação, já registra o efeito nos preços. Seu índice de preços dos alimentos ficou em 136 pontos em setembro, 1,5% acima de agosto e 5,8% acima de um ano antes. O milho subiu 5,6% no mês, ao maior nível em mais de três anos. Segundo a FAO, a incerteza sobre o transporte por Ormuz manteve a preocupação com os custos de combustível, fertilizante e frete.
Petróleo acima de US$ 100 e diesel mais caro
O Brent para dezembro fechou a US$ 106,06 por barril na quarta-feira (14), em Londres, depois de a Guarda Revolucionária do Irã informar que um navio de carga afundou ao atingir uma mina no estreito, segundo o Canal Rural. No fim de fevereiro, antes do início da guerra, o barril do Brent no mercado à vista valia cerca de US$ 71, pelos dados da agência de energia dos Estados Unidos (EIA).
Nos postos, o diesel S10 subiu entre 6,5% e 8,6% nos três estados do Centro-Oeste em quatro semanas, segundo o levantamento semanal da ANP. O preço médio por litro, da semana de 6 a 12 de setembro para a de 4 a 10 de outubro, ficou assim:
- Goiás: de R$ 6,78 para R$ 7,36 (alta de 8,6%).
- Mato Grosso: de R$ 7,14 para R$ 7,66 (alta de 7,3%), o mais caro da região.
- Mato Grosso do Sul: de R$ 6,89 para R$ 7,34 (alta de 6,5%).
- Média do Brasil: de R$ 6,97 para R$ 7,36 (alta de 5,6%).
Rússia e Nigéria ocupam o espaço do Golfo
No total, o Brasil importou 3,53 milhões de toneladas de ureia de janeiro a setembro, queda de 21,5% em relação a 2025. O Catar, que era o segundo maior fornecedor, vendeu 215 mil toneladas, 67% menos. A Nigéria liderou, com 797 mil toneladas, e a Rússia ampliou as vendas em 17%, para 746 mil toneladas. Omã, cujas fábricas embarcam fora do estreito, também vendeu menos: 422 mil toneladas, ante 621 mil.
O preço médio pago pela ureia importada foi de US$ 445,50 por tonelada no período, 14,8% acima de 2025. O pico veio entre abril e junho, acima de US$ 570 por tonelada. Em setembro, a média caiu para US$ 406, abaixo dos US$ 434 de um ano antes. Segundo o Imea, as importações de nitrogenados se concentram no terceiro e no quarto trimestres, justamente quando a tensão no estreito voltou a subir.
Em Mato Grosso, empresas do estado importaram diretamente 252 mil toneladas de ureia até setembro, ante 264 mil em 2025. No ano passado, o Catar foi a principal origem, com 110 mil toneladas, ou 42% do total. Neste ano, os países de dentro do Golfo somaram 44 mil toneladas, e Rússia, Argélia, Omã e Estados Unidos passaram à frente. O Comexstat não registra compra direta de ureia por importadores de Goiás e de Mato Grosso do Sul; o adubo usado nesses estados entra por empresas de outras unidades da federação.
No início do conflito, o Imea calculou que uma alta de 30% nos nitrogenados elevaria em 4,68% o custo operacional efetivo do milho de alta tecnologia em Sinop (MT), o equivalente a 5,9 sacas por hectare. Fora do Golfo, a mineradora BHP procura compradores no Brasil para o potássio da mina de Jansen, no Canadá, mas as primeiras cargas não devem chegar antes de 2028, segundo a AgFeed, citada pela Fertilizer Daily. O país importa 96% dos cerca de 13,5 milhões de toneladas de potássio que consome por ano.
“Com navios retidos, seguros marítimos mais caros e risco de restrição de oferta, o agronegócio brasileiro pode enfrentar inflação no custo de produção e pressão sobre as margens”, afirmou o coordenador de Inteligência Agropecuária do Imea, Rodrigo Silva, ao divulgar o estudo.
Com informações de Globo Rural, CNN Brasil (Reuters), Canal Rural, FAO (Índice de Preços dos Alimentos), Comexstat (MDIC), ANP (Levantamento de Preços de Combustíveis), EIA (preço do Brent), CNA/Imea, The National e Fertilizer Daily.



