Fora do veto chinês, Centro-Oeste preserva mercado que paga 47,9% mais pelo frango; México trava 11,9 mil t
GO, MT e MS venderam 49,4 mil t de frango à China até setembro, por US$ 150,3 milhões; em MS, os chineses levam 15,4% de tudo o que o estado exporta.

A decisão da China de restringir a Santa Catarina o veto à carne de aves brasileira, informada nesta terça-feira (20) pelo secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Augusto Billi, mantém aberto para os frigoríficos do Centro-Oeste o terceiro maior comprador do frango da região. De janeiro a setembro de 2026, Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul embarcaram 49,4 mil toneladas de carne de frango in natura para os chineses, com receita de US$ 150,3 milhões, pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comexstat. O México, que suspendeu as compras de todo o Brasil na segunda-feira (19), levou 11,9 mil toneladas da região no mesmo período.
O mercado chinês pesa mais no caixa do que na balança. A China ficou com 10,6% do volume de frango exportado pelo Centro-Oeste no ano, mas com 15,7% da receita. O preço médio pago pelos chineses foi de US$ 3.044 por tonelada, 47,9% acima da média de US$ 2.058 obtida pela região em todos os destinos. A pauta é concentrada em asas (26,6 mil toneladas) e patas (18,7 mil toneladas), que somam 91,7% do que a região mandou para lá.
Goiás é o maior exportador do Centro-Oeste, com 208,4 mil toneladas de janeiro a setembro, e vendeu 21,7 mil toneladas aos chineses, 10,4% do total do estado. Mato Grosso do Sul, com 120,8 mil toneladas exportadas, é o mais dependente: a China levou 18,6 mil toneladas, ou 15,4% das vendas externas do estado. Em Mato Grosso, foram 9 mil toneladas para a China, 11,7% de 77,3 mil toneladas. O Distrito Federal exportou 59,3 mil toneladas e não vendeu para a China nem para o México no período. Somada, a região respondeu por 13% do frango in natura exportado pelo país, com US$ 958,7 milhões.
A demanda chinesa pelo frango da região acelerou neste ano. As 49,4 mil toneladas de janeiro a setembro superam em 57,1% as 31,4 mil toneladas de todo o ano de 2025, quando as vendas foram afetadas pelas suspensões que se seguiram ao único caso de gripe aviária de alta patogenicidade já registrado na produção comercial brasileira, segundo a ABPA. Pela ABPA, Goiás foi o quinto maior exportador de frango do país em setembro, com 27,2 mil toneladas, alta de 25,8% sobre o mesmo mês de 2025.
O que o México bloqueia
O veto mexicano atinge uma fatia menor, mas vale para todo o território. O México comprou 11,9 mil toneladas de frango do Centro-Oeste de janeiro a setembro, por US$ 26,4 milhões, o que equivale a 2,6% do volume exportado pela região, ou cerca de 1,3 mil toneladas por mês. Quase tudo é peito desossado: 9,2 mil toneladas, 77,2% do total. Em 2025 inteiro, a região havia vendido 21,7 mil toneladas aos mexicanos.
De novo, Mato Grosso do Sul é o mais exposto. O estado mandou 5,7 mil toneladas ao México, 4,7% de suas exportações de frango, e tem 20,1% das vendas externas concentradas nos dois países que anunciaram restrições nesta semana. Goiás vendeu 5,1 mil toneladas aos mexicanos (2,4% do total do estado) e Mato Grosso, 1,2 mil toneladas (1,6%).
Os outros grandes clientes da região tendem a não fechar as portas ao Centro-Oeste. Neste ano, os maiores compradores do frango de GO, MT, MS e DF foram Arábia Saudita (68,4 mil toneladas), Japão (56 mil toneladas), China e Emirados Árabes Unidos (47,7 mil toneladas). Segundo fontes do setor ouvidas pela Globo Rural e pelo Estadão, os sauditas costumam restringir apenas o estado do foco, os Emirados aplicam um raio de 10 quilômetros e o Japão limita a medida ao município.
Setor vê impacto menor que em 2024
Em relatório, o J.P. Morgan avaliou que o efeito deve ser menor que o do foco de 2024, em Anta Gorda (RS), "uma vez que diversos países alteraram seus protocolos de restrição, passando a adotar critérios baseados em um raio geográfico, em vez de proibições em nível nacional ou estadual", segundo a Globo Rural. Naquele episódio, as exportações brasileiras de frango caíram 100 mil toneladas no mês das restrições e se recuperaram logo depois, de acordo com o banco.
Para o analista Luca Vello, da Genial Investimentos, o risco que o mercado precifica é comercial e depende do tamanho da restrição. "Se uma eventual restrição ficar no entorno do foco, o efeito é pequeno; se Santa Catarina for fechada para mercados relevantes, o peso cai sobre quem mais exporta de lá", disse à Globo Rural.
O caso catarinense foi detectado pelo mesmo tipo de vigilância ativa que Goiás faz em suas granjas. A Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa) informou, em julho de 2025, que o ciclo concluído entre julho de 2024 e junho de 2025 vistoriou 142 estabelecimentos industriais e analisou cerca de 6 mil amostras, sem nenhum caso de gripe aviária ou Newcastle. "Isso garante a manutenção do comércio e a segurança da produção avícola goiana e nacional", afirmou na ocasião o diretor de Defesa Agropecuária da agência, Rafael Vieira.
A indústria descarta falta de produto no mercado interno. "Os produtos serão redirecionados para mercados que não vierem a se fechar. E, como é um número pequeno, a indústria está preparada e tem estoque para não deixar faltar produto nas festas de fim de ano", disse o presidente da ABPA, Ricardo Santin, na segunda-feira.
Com informações de Comexstat, ABPA, Senasica (México), Agrodefesa, CNN Brasil, Globo Rural e Estadão.



