Dólar devolve só 30% do salto pós-urna e segue 6,5% mais caro; Bolsa cai mais 3% e governo estuda IOF na LCA
Prefixado de 2029 do Tesouro Direto paga 14,88%, 2,1 pontos acima da sexta pré-eleição, mesmo depois da recompra de títulos. Pelas contas do Campo em Pauta, adubo e defensivo do milho de 2027 saem R$ 123 mais caros por hectare.

O dólar devolveu menos de um terço da disparada que se seguiu à reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e continua bem acima do nível de antes da urna. A Ptax, taxa calculada pelo Banco Central e usada nos contratos do agro, fechou a segunda-feira (26) a R$ 5,5007, alta de 9,19% sobre a sexta-feira (23), recuou 3,02% na terça-feira (27), para R$ 5,3346, e voltou a subir nesta quarta-feira (28): a terceira parcial do dia, divulgada às 12h05, saiu a R$ 5,3627. Pelas contas do Campo em Pauta, a moeda devolveu 29,8% do salto de R$ 0,463 e ainda custa 6,45% mais que os R$ 5,0377 da sexta anterior ao 2º turno.
No mercado à vista, o dólar comercial fechou a segunda a R$ 5,4029, alta de 8,21%, a maior em um dia desde 13 de janeiro de 1999, depois de bater R$ 5,6049 pela manhã, segundo o Estadão Conteúdo. Na terça, caiu 0,97%, para R$ 5,35, segundo o InfoMoney. Nesta quarta, chegou à mínima de R$ 5,3206 às 10h15, mas virou: às 11h51, subia 0,28%, a R$ 5,365, à espera da decisão de juros do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, marcada para as 15h.
A Bolsa não devolveu nada. O Ibovespa fechou a segunda em 176.608,23 pontos, queda de 13,88%, a maior desde março de 2020, recuou mais 0,51% na terça, para 175.710,05 pontos, pelos dados da B3, e às 11h45 desta quarta caía 2,93%, a 170.564,36 pontos. Pelas contas do Campo em Pauta, o índice está 16,8% abaixo dos 205.082,56 pontos de sexta, 34,5 mil pontos a menos. Os bancos puxavam a queda: às 11h44, Bradesco perdia 6,10%, Santander, 4,48%, Itaú, 4,37%, e o Banco do Brasil, maior financiador do crédito rural, 3,39%, segundo o InfoMoney.
Recompra do Tesouro alivia só uma parte dos juros
Para conter a disparada, o Tesouro recomprou cerca de R$ 10 bilhões em títulos públicos na segunda, segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que autorizou novas operações na terça. Naquele dia, o Tesouro cancelou o leilão de Letras Financeiras do Tesouro (LFT) e recomprou 3,82 milhões das 4 milhões de NTN-B ofertadas. Para Durigan, o movimento de segunda não teve relação com os fundamentos da economia, e sim com o reposicionamento dos investidores.
Os juros futuros cederam, mas ficaram longe do ponto de partida. Na terça, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2029 caiu de 15,223% para 14,740%, e a do DI de janeiro de 2031, de 15,279% para 14,850%, segundo o Estadão Conteúdo. O DI de janeiro de 2028, que embute o juro médio esperado até o fim do ano que vem, prazo de quem financia o custeio da safra 2026/27 e do milho de 2027, fechou a terça a 14,360%, ainda 1,5 ponto acima dos 12,86% de sexta. Nesta quarta, às 9h09, voltava a subir, a 14,465%, segundo o InfoMoney.
No Tesouro Direto, a conta é parecida. Pela série do Tesouro Nacional, o Prefixado 2029 pagava 12,77% ao ano na sexta, foi a 15,40% na segunda e recuou a 14,88% na terça: devolveu só 19,8% da alta. Nesta quarta, abriu de novo a 14,88%, 2,11 pontos acima de antes da eleição. Na abertura desta quarta, o Tesouro IPCA+ 2032 pagava IPCA + 7,87%, acima até dos IPCA + 7,80% do fechamento de segunda, segundo o InfoMoney.
Parte do mercado vê exagero. Taxas acima de 15% atraíram aplicadores que estavam fora, disse um operador à Broadcast, e Sergi Lanau, da Alpine Macro, avaliou que a venda de títulos brasileiros foi longe demais; o banco australiano Macquarie afirmou que o país deve seguir no status quo, longe de um calote. Um economista de uma grande tesouraria, porém, disse sob reserva que a correção não veio de sinais do novo governo e que as mensagens vão no sentido oposto ao do ajuste. Na terça, o ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, afirmou que uma proposta de ajuste fiscal não está em discussão.
O que ainda pesa na conta do produtor
O dólar mais alto encarece o que o produtor compra para o milho de 2027. O Rabobank estima o gasto com fertilizantes do milho brasileiro na safra 2026/27 em US$ 248 por hectare e o de defensivos em US$ 131, segundo a CNN Brasil. Pelas contas do Campo em Pauta, os US$ 379 por hectare custavam R$ 1.909,29 pela Ptax de sexta, foram a R$ 2.084,77 pela de segunda e valem R$ 2.032,46 pela parcial das 12h05 desta quarta: R$ 123,17 a mais por hectare que antes da urna, ou R$ 123 mil numa lavoura de 1.000 hectares. Do pico de segunda, o recuo do câmbio tirou só R$ 52,30.
O juro também pesa. Pela planilha do Imea e do Senar-MT, o custeio da soja 2026/27 em Mato Grosso é de R$ 4.324,87 por hectare. Pelas contas do Campo em Pauta, se os 1,5 ponto a mais do DI de 2028 forem repassados integralmente a quem financia a juro livre, um ano de juros sobre esse custeio sai R$ 64,87 mais caro por hectare, R$ 64,9 mil em 1.000 hectares.
A fonte de parte desse dinheiro entrou na mira. A equipe econômica estuda cobrar Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de aplicações hoje isentas de Imposto de Renda, como a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA) e o Certificado de Recebíveis do Agronegócio (CRA), segundo o jornal O Globo, citado pelo InfoMoney. Pelo boletim de setembro do Ministério da Agricultura, o estoque de LCA é de R$ 563 bilhões, dos quais pelo menos R$ 152 bilhões têm de ir ao crédito rural oficial pelas regras do Manual de Crédito Rural; o de CRA soma R$ 175 bilhões. Como o IOF muda por decreto, a cobrança não dependeria do Congresso. Em outubro de 2025, a Câmara retirou de pauta, por 251 votos a 193, a medida provisória que cobrava Imposto de Renda de 5% sobre novas emissões desses papéis, e o texto perdeu a validade.
Para o economista Antônio da Luz, da Farsul, a alta do câmbio veio da saída de investidores estrangeiros, que são 60% dos acionistas da Bolsa, diante de uma condução econômica que, na avaliação dele, pode levar o país ao abismo. Em entrevista ao Canal Rural, ele disse que promessas de ajuste fiscal podem surgir, mas que não há certeza de que serão cumpridas, e orientou o produtor a aproveitar os picos do dólar para travar preços. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decide a Selic, hoje em 13,75%, em 4 de novembro.
Com informações de Banco Central (Ptax), B3 (Ibovespa), Tesouro Nacional (Tesouro Transparente), Ministério da Agricultura, Canal Rural, InfoMoney e Safras & Mercado.





