Democratas tomam o Congresso dos EUA, mas tarifa de 25% fica; açúcar de Goiás vendido aos americanos cai 69%
Nova maioria só assume em 3 de janeiro e não derruba sozinha as sobretaxas, que alcançam 23,1% da pauta brasileira. A carne isenta faz 66% das vendas de MT, MS e GO aos EUA, e a China compra 3,6% menos soja do Brasil, que já embarcou 107,4 milhões de t no ano.

O Partido Democrata conquistou a maioria da Câmara e do Senado dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato de terça-feira (3), com vitórias em estados agrícolas que os republicanos davam como seguros, como Kansas e Iowa. O presidente Donald Trump reconheceu o resultado. "Parabéns aos democratas. Eles fizeram um bom trabalho", disse à Fox News, segundo a agência DTN. Para o exportador brasileiro, porém, nada muda de imediato: a sobretaxa de 25%, em vigor desde 22 de julho, e a de 12,5%, anunciada no dia seguinte para o Brasil e outras 59 economias, seguem valendo, e a nova composição do Congresso só toma posse em 3 de janeiro de 2027.
As duas cobranças se somam quando atingem o mesmo produto, e a tarifa extra chega a 37,5%. Pela nota do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) atualizada em 26 de outubro, citada pelo Times Brasil, 16,5% do que o Brasil vendia aos americanos em 2024 paga as duas, caso de máquinas, madeira, calçados, móveis e confecções; 1,9%, só a de 25%, como o açúcar; e 4,7%, só a de 12,5%, como pescados e minérios. Ao todo, 23,1% da pauta. Café, carnes, aeronaves e suco de laranja, 52,7% do total, estão livres das duas.
O coordenador do Insper Agro Global, Marcos Jank, leu o resultado como reação ao custo de vida. "Esse recado é duríssimo. Ele [Trump] achava que isso fosse tornar a indústria mais competitiva e não tornou. E agora perdeu a eleição tanto na Câmara quanto no Senado", afirmou em evento da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat) em São Paulo, segundo a Globo Rural.
A carne segura, o açúcar cai
A pauta do Centro-Oeste nos Estados Unidos virou, na prática, uma pauta de carne. Como mostrou o Campo em Pauta, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás venderam US$ 1,65 bilhão aos americanos de janeiro a setembro, 43,9% mais que em 2025, enquanto o Brasil caiu 6,5%. Pelas contas do Campo em Pauta com dados do Comexstat, a carne bovina, isenta das sobretaxas, respondeu por 65,9% desse valor. Em setembro, a região embarcou US$ 169,8 milhões em carne bovina aos Estados Unidos, 28,8 mil toneladas, o maior mês de 2026.
O açúcar foi no sentido oposto. Goiás, maior fornecedor brasileiro do produto aos americanos, vendeu US$ 19,8 milhões de janeiro a setembro, 69,3% menos que os US$ 64,3 milhões de um ano antes; em volume, a queda foi de 92,1 mil para 28,6 mil toneladas. No Brasil inteiro, a venda de açúcar aos Estados Unidos encolheu 59,8%, para US$ 75 milhões. Em agosto e setembro, já com a sobretaxa de 25%, a região embarcou US$ 2 milhões em açúcar aos americanos, ante US$ 15,8 milhões nos mesmos dois meses de 2025.
Os produtos poupados cresceram. O ferro-gusa de Mato Grosso do Sul, incluído nas exceções à tarifa de 25%, praticamente dobrou, de US$ 52,2 milhões para US$ 102,7 milhões, e a celulose sul-mato-grossense, isenta com exceção da de alta pureza, subiu 12,5%, para US$ 122,4 milhões.
O que o Congresso pode fazer
Os democratas poderão convocar autoridades, investigar o efeito das tarifas e apresentar projetos para limitar o poder do presidente na área, mas as sobretaxas foram impostas com base na Seção 301 da lei comercial americana, que dá a iniciativa ao Executivo. Trump pode vetar as propostas, e a derrubada do veto exige dois terços das duas Casas. Em relatório citado pelo Valor Econômico, o Goldman Sachs prevê que o presidente anuncie novos aumentos depois da eleição, o suficiente para elevar a tarifa média americana em pouco menos de dois pontos percentuais.
No governo brasileiro, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse na terça-feira (3) que espera receber, entre esta semana e o início da próxima, o primeiro documento com as propostas americanas para um acordo comercial, e que o resultado eleitoral não altera as conversas. Não há, até agora, anúncio de redução das tarifas sobre produtos brasileiros.
A política comercial de Trump já mexeu também na soja. Depois da trégua com Washington, Pequim se comprometeu a comprar 12 milhões de toneladas de soja americana no fim de 2025 e 25 milhões por ano até 2028, segundo a Casa Branca. O Brasil exportou 107,4 milhões de toneladas de janeiro a outubro, ante 101,5 milhões um ano antes, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), que mantém a projeção de 114 milhões no ano. Mas a China levou 70 milhões de toneladas até setembro, pelo Comexstat, 3,6% menos que em 2025, e sua fatia caiu de 77,4% para 69,9% do embarque brasileiro.
Em Mato Grosso, a fatia chinesa na soja exportada recuou de 69% para 59,1%, e, nos três estados do Centro-Oeste, o volume vendido aos chineses caiu 7,9%, para 31,6 milhões de toneladas, mesmo com a exportação total da região subindo para 47,9 milhões. Para Jank, falta de comprador não é o problema. "Não podemos reclamar de falta de mercado. Talvez não cheguemos a esses países com facilidade, mas eles existem", disse aos pecuaristas da Acrimat.
Com informações de Farm Policy News (Universidade de Illinois), DTN, Times Brasil, Globo Rural, Gazeta do Povo, AgFeed, Poder360, Jovem Pan, Transport Topics (Bloomberg) e Comex Stat (MDIC).





