Custeio da soja cai 42% em MT, MS e GO, e entrega de adubo recua 10,4%; Nutrien vê crédito como freio
Área financiada encolhe de 1,19 milhão para 662 mil hectares de julho a outubro, pelos dados do Banco Central. Rabobank prevê 5% mais adubo em 2027, ainda abaixo do recorde de 2025, e diz que o problema do produtor é o custo financeiro.

As entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro somaram 27,32 milhões de toneladas de janeiro a agosto, 10,4% menos que as 30,48 milhões do mesmo período de 2025, segundo os indicadores da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) divulgados na quarta-feira (4). Só em agosto, foram 4,33 milhões de toneladas, queda de 17,6%. Mato Grosso, maior destino, recebeu 6,77 milhões de toneladas no ano, 24,8% do total, e Goiás, terceiro, 2,90 milhões. A entidade atribui o recuo à guerra no Irã, que esfriou os negócios a partir de fevereiro, e às dificuldades do produtor, como escassez de crédito, risco de recuperações judiciais, juros altos e o El Niño.
O dinheiro para comprar o adubo da soja encolheu ainda mais. Pelas contas do Campo em Pauta com os microdados do Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro (Sicor), do Banco Central, o crédito de custeio para soja contratado em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás de julho a outubro caiu de R$ 5,51 bilhões em 2025 para R$ 3,19 bilhões neste ano, queda de 42,2%. O número de contratos recuou de 6.420 para 4.075, e a área financiada, de 1,19 milhão para 662 mil hectares, 44,2% a menos. O valor médio subiu 3,6%, para R$ 4.816 por hectare.
A retração foi maior em Goiás, onde o custeio da soja caiu 46,3%, para R$ 1,21 bilhão, e em Mato Grosso, onde recuou 46,1%, para R$ 1,09 bilhão. Em Mato Grosso do Sul, a queda foi de 28,1%, para R$ 883 milhões. Somadas todas as lavouras e criações, o custeio na região caiu 40,9%, para R$ 11,4 bilhões, com o milho 40,2% abaixo e o algodão 79% menor. Os registros de outubro ainda são preliminares.
Fabricantes sentem o produtor sem caixa
A canadense Nutrien, uma das maiores produtoras de fertilizantes do mundo, levou a preocupação ao relatório de mercado que acompanhou o balanço do terceiro trimestre. A empresa vê perspectiva positiva para a soja e o milho no Brasil, com área estável ou em leve crescimento, mas afirma que a disponibilidade restrita de crédito e o enfraquecimento dos balanços dos produtores continuam limitando as compras de adubo no país, segundo a CNN Brasil. O lucro líquido da companhia caiu 39%, para US$ 288 milhões, com receita de US$ 6,06 bilhões, 1% maior, e Ebitda ajustado de US$ 1,31 bilhão, 8% menor.
Para o nitrogênio, a Nutrien espera mercado mais apertado até 2027, com interrupções no comércio, paradas de fábricas, energia cara e a demanda de importadores como Índia e Brasil. No potássio, prevê embarques mundiais de 75 milhões a 79 milhões de toneladas em 2027. No fosfato, cita a falta de enxofre, matéria-prima que encareceu e tem derrubado a produção global.
A americana Mosaic, grande produtora de fosfatados, fechou o trimestre com prejuízo de US$ 72 milhões, ante lucro de US$ 411 milhões um ano antes, segundo a Globo Rural. A receita caiu de US$ 3,5 bilhões para US$ 3,1 bilhões, e o Ebitda, de US$ 806 milhões para US$ 324 milhões. Pesaram provisões ambientais, fechamento de instalações e matéria-prima cara. “Alinhamos nossa produção de fosfatos com a disponibilidade de enxofre a preços acessíveis”, disse o presidente, Bruce Bodine.
A Anda mostra o efeito na troca. Pelo levantamento da MacroSector com preços da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o produtor precisou de 24,5 sacas de soja para comprar uma tonelada de fertilizante em 2025, ante 21,6 sacas em 2024, 13,4% a mais. No milho, a relação melhorou, de 54,2 para 49,8 sacas. A produção nacional de fertilizantes intermediários caiu 22,7% até agosto, para 3,76 milhões de toneladas, e a importação recuou 12%, para 24,28 milhões.
Rabobank vê retomada em 2027
O Rabobank atualizou na quarta as projeções para insumos e prevê que as entregas de fertilizantes subam 5% em 2027, de 44,42 milhões para 46,64 milhões de toneladas, segundo a Globo Rural. O mercado de defensivos deve crescer 2,7% em receita, para US$ 20,9 bilhões. Comparada aos números da Anda, pelas contas do Campo em Pauta, a projeção do banco para 2026 fica 9,6% abaixo do recorde de 49,12 milhões de toneladas de 2025, e a de 2027 ainda ficaria 5% abaixo dele. Para fechar o ano no número do banco, as entregas de setembro a dezembro teriam de somar 17,1 milhões de toneladas, 8,3% menos que no mesmo período de 2025.
“A margem não é o principal problema do produtor hoje, mas o custo financeiro”, disse o analista de insumos do banco, Bruno Fonseca, para quem essa condição vai decidir a recuperação do mercado no ano que vem. Ele alertou que a importação de nitrogenados está 25% atrasada em relação a 2025 e que o atraso não deve ser recuperado, o que traz risco para o milho segunda safra e a cana. Para os fosfatados, prevê preços altos por mais 12 a 18 meses. “É provável que o produtor continue usando estoque de solo, mas, eventualmente, ele vai precisar utilizar de novo”, afirmou.
Quem responde pelo adubo que não funciona
Quem compra adubo também ganhou uma referência na Justiça. A Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou, por unanimidade, a condenação solidária de uma fabricante e de uma revendedora de fertilizante à base de fósforo que não funcionou numa lavoura de soja em Silvanópolis (TO). O julgamento do Recurso Especial 2.244.010, relatado pela ministra Nancy Andrighi, é de setembro e foi detalhado na quarta-feira (4) pela advogada Samária Zagretti em coluna no Campo Grande News. A perícia mostrou que o produto não liberou o fósforo necessário: na mesma safra, a parte da área adubada com outro formulado teve bom desenvolvimento.
O tribunal aplicou o artigo 942 do Código Civil, que torna solidários os autores de um mesmo dano, porque o produto falhou e a informação dada pelos representantes comerciais não revelou a real liberação do nutriente. A fabricante alegou solo pobre, falta de agrônomo e clima ruim, mas o STJ exigiu prova de que essas condutas causaram a perda, o que a perícia não confirmou. A Justiça paulista também condenou a Corteva e uma revenda goiana por sementes de soja que falharam, como mostrou o Campo em Pauta. Para a advogada, o precedente fortalece o produtor, que “pode cobrar a integralidade do prejuízo de qualquer elo, normalmente do mais solvente”.
Com informações de Anda (Principais Indicadores 2026), Anda (Indicadores de mercado, agosto de 2026), Safras & Mercado, Banco Central (Sicor, microdados de operações por estado 2026), Banco Central (Sicor, microdados de operações por estado 2025), Banco Central (Sicor, tabela de empreendimentos), CNN Brasil, Globo Rural (Nutrien), Globo Rural (Mosaic), Globo Rural (Rabobank), Campo Grande News e Schiefler Advocacia.





