Câmbio põe soja 3,3% acima em Paranaguá, mas só 0,5% em MT; Anec corta 770 mil t do milho de outubro
Distância entre o porto e o interior mato-grossense sobe de R$ 19,44 para R$ 23,81 por saca. Milho cai até 22% em Sorriso desde setembro, e a paridade de 2027, 14% maior com o dólar, ainda não paga o desembolso da lavoura.

A alta do dólar depois da reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chegou ao porto, mas quase não passou da porteira em Mato Grosso. O indicador Cepea/Esalq da soja em Paranaguá (PR) subiu 2,06% na segunda-feira (26) e mais 1,20% na terça-feira (27), para R$ 157,41 por saca, R$ 5 (3,3%) acima dos R$ 152,41 da sexta-feira (23). No mesmo período, o preço médio da saca disponível em Mato Grosso, calculado pelo Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), foi de R$ 132,97 para R$ 133,60, alta de 0,5%. Pelas contas do Campo em Pauta, a diferença entre o porto e o interior do estado passou de R$ 19,44 para R$ 23,81 por saca.
Nem no porto o produtor levou todo o câmbio. Em dólar, o indicador de Paranaguá caiu de US$ 30,53 para US$ 29,50 por saca entre sexta e terça, queda de 3,4%, pelos dados do Cepea. Se o preço em dólar tivesse se mantido, a saca valeria R$ 162,87 pela Ptax de terça, R$ 5,46 a mais que o indicador do dia, pelas contas do Campo em Pauta. Na terça, o dólar comercial caiu 0,97%, e a soja recuou na maior parte das praças acompanhadas pela AgRural, segundo a Globo Rural; em Primavera do Leste (MT), a saca perdeu R$ 2, para R$ 138.
No restante do Centro-Oeste, a terça também foi de recuo. Pelo levantamento da Safras & Mercado divulgado pelo Canal Rural, a saca caiu de R$ 141 para R$ 140 em Rondonópolis (MT) e em Rio Verde (GO), e de R$ 143 para R$ 142 em Dourados (MS). Em Mato Grosso do Sul, a VA Corretora de Cereais manteve R$ 142 em Campo Grande e R$ 140 em Maracaju desde sexta, e em Sorriso (MT) o sindicato rural indicava R$ 133,60, só R$ 0,20 acima da sexta, segundo o Notícias Agrícolas. Em Chicago, o contrato de novembro caiu 0,92% na terça, a US$ 12,2975 por bushel, com fundos vendendo e o temor de que o real mais fraco leve a demanda chinesa para o Brasil; nesta quarta-feira (28), às 8h29, subia 0,56%, com receio de quebra da safra brasileira pelo El Niño.
A melhora maior aparece na safra que ainda está sendo plantada. A paridade de exportação para março de 2027, que o Imea calcula a partir do preço no porto, descontados os custos até a fazenda, foi a R$ 121,36 por saca na segunda, dia do pico do dólar, 7,1% acima dos R$ 113,33 de 21 de outubro. Mesmo assim, fica R$ 5,31 abaixo dos R$ 126,67 de que o produtor precisa para pagar o custo total da lavoura, como mostrou o Campo em Pauta com a planilha do Imea e a produtividade da Conab.
Milho sem saída pelos portos
No milho, o dólar não segurou a queda do mercado interno. Em Sorriso, a saca recuou 22% desde setembro, para R$ 41, e em Rio Verde, 19%, para R$ 50,20, segundo a Biond Agro. Pelo Imea, o milho disponível em Mato Grosso valia R$ 43,59 na terça, 1,5% menos que na sexta, e a média parcial de outubro, de R$ 46,66, está 3,82% abaixo da de setembro. No indicador Esalq/B3 de Campinas (SP), a saca subiu 0,93% desde sexta, para R$ 64,87, mas em dólar caiu 5,5%, de US$ 12,87 para US$ 12,16, pelos dados do Cepea.
A exportação perdeu fôlego. A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) reduziu na terça a previsão de embarques de milho em outubro para 6,1 milhões de toneladas, 770 mil toneladas (11,2%) abaixo da estimativa da semana anterior, segundo a CNN Brasil. O volume ainda supera em 407 mil toneladas o de outubro de 2025. Na soja, a previsão caiu de 6,40 milhões para 6,15 milhões de toneladas, 245 mil abaixo de um ano antes; no farelo, de 2,52 milhões para 2,49 milhões.
Para chegar à estimativa de 38 milhões de toneladas de milho exportadas em 2026, o Brasil teria de embarcar 12 milhões em novembro e dezembro, mas a programação de novembro segue reduzida, com filas em Paranaguá, hidrovias do Norte com restrição e frete caro, segundo a Biond. A consultoria listou três gatilhos para uma reação antes de dezembro: embarques de 6 milhões a 7 milhões de toneladas por mês, a normalização das hidrovias ou dólar acima de R$ 5,22, patamar que a moeda superou na segunda. “Por enquanto, não há sinais suficientes para apostar em uma recuperação imediata”, afirmou Isabella Pliego, analista da Biond.
O câmbio melhorou a conta do milho de 2027, mas não a fechou. A paridade para julho de 2027 subiu para R$ 43,81 por saca na segunda, 14,1% acima dos R$ 38,41 do dia 22, pelo Imea. Pelas contas do Campo em Pauta, com a produtividade de 119,64 sacas por hectare e o custo operacional efetivo (COE) de R$ 5.508,23 por hectare estimados pelo instituto, a receita cobre 95,2% do desembolso, ante 83,4% na semana passada; ainda faltam R$ 266,80 por hectare. Na B3, o contrato de novembro fechou a sexta a R$ 65,40, e o de março de 2027, a R$ 75,50.
Corrida para travar
Quem tinha grão para vender correu. Na segunda, foram negociadas cerca de 500 mil toneladas de soja, mais que o dobro da média diária da semana anterior, e 400 mil de milho, quase o dobro, segundo Guilherme Britzki, da McDonald Pelz, à Globo Rural; a maior parte da soja é da safra em plantio. A saca saiu de R$ 5 a R$ 6 acima da sexta, segundo José Fabiano da Silva, da Agrinvest. No Itaú BBA, a contratação de NDF, contrato a termo de câmbio sem entrega da moeda, subiu de 30% a 40% sobre a média, segundo Davi Caixe, diretor da tesouraria. Britzki ponderou que os volumes ainda são baixos para a época, porque as vendas já vinham atrasadas com os preços ruins.
O economista Antônio da Luz, da Farsul, orientou o produtor a usar os picos do dólar para fazer travas de câmbio e de preço, em entrevista ao Canal Rural. Para ele, a reeleição reverteu as expectativas do mercado, a volatilidade deve continuar e o produtor precisa agir rápido para não perder as janelas de venda. A Biond recomenda que quem precisa de caixa ou de espaço no silo para a soja venda o milho aos poucos, em lotes de entrega curta, e que quem pode armazenar compare a diferença de R$ 10,10 entre os contratos de novembro e março com o custo de guardar e de capital.
Com informações de Cepea (soja), Cepea (milho), Imea (soja), Imea (milho), Banco Central (Ptax), Notícias Agrícolas, Globo Rural, Canal Rural, CNN Brasil, Mais Soja (boletim Imea soja) e Mais Soja (boletim Imea milho).





