Brasil deve importar 9 milhões de t de trigo, o maior volume em 30 anos; safra cai 27,2%, e MS perde 57%
Produção nacional cai a 5,73 milhões de toneladas, e a compra externa prevista pela indústria supera em 27,5% a projetada pela Conab. A Argentina deve colher 23,8 milhões de toneladas, segunda maior safra em 17 anos. Em Goiás e no DF, o trigo irrigado rende até 29,6% mais que a média brasileira, mas MS perde 57% da produção.

O Brasil deve importar mais de 9 milhões de toneladas de trigo na temporada 2026/27, o maior volume em 30 anos, segundo estimativa apresentada pelo presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), Rubens Barbosa, na abertura do 33º Congresso Internacional da entidade, nesta quinta-feira (22), no Rio de Janeiro. A conta foi divulgada pela Agência Safras e pelo jornal argentino La Nación, que cobriram o evento. “Como desdobramento direto dessa menor disponibilidade interna do trigo, o Brasil registrará um aumento recorde nas importações”, disse Barbosa.
A causa é a quebra da safra nacional. No primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado em outubro, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a área de trigo em 1,93 milhão de hectares, 21,1% menor do que em 2025, e a produção em 5,73 milhões de toneladas, queda de 27,2%, com produtividade média de 2.973 quilos por hectare, 7,6% abaixo da anterior. Segundo Barbosa, o clima no Sul e no Sudeste derrubou produtividade e qualidade, e a oscilação dos custos e dos preços internacionais deixou a área colhida abaixo do potencial.
A Conab projeta importação de 7,06 milhões de toneladas para suprir consumo de 12 milhões e exportação de 1,49 milhão, com estoque final de 1,06 milhão de toneladas. A previsão da Abitrigo supera a da estatal em 27,5%, pelas contas do Campo em Pauta, e fica 31,9% acima dos 6,82 milhões de toneladas importados em 2024, o maior volume do quadro de oferta e demanda da Conab de 2020 a 2025. Os moinhos processaram 13,275 milhões de toneladas em 2025, segundo o presidente do conselho deliberativo da Abitrigo, Daniel Kümmel. “Nunca trouxemos tanto trigo de fora”, afirmou ele, para quem a dependência pressiona portos, armazenagem, capital de giro e câmbio.
A indústria também reclama do custo. Barbosa citou a elevação de 1,17% na carga tributária sobre o trigo importado e a redução de 10% do crédito presumido entre os fatores que devem encarecer farinha, pão, massas e bolos em 2026/27. A entidade pretende apresentar ao novo governo, a partir de janeiro, uma política nacional para o trigo, com armazenagem, crédito específico e incentivo ao cultivo no Cerrado.
Argentina colhe menos, mas tem sobra
O principal fornecedor do Brasil terá safra menor, mas ainda grande. A Bolsa de Comercio de Rosario (BCR) elevou na quarta-feira (21) a estimativa da safra argentina 2026/27 de 21 milhões para 23,8 milhões de toneladas, a segunda maior dos últimos 17 anos, atrás apenas do recorde de 28,5 milhões de 2025/26, segundo a Safras Latam e a Reuters, reproduzida pela CNN Brasil. O rendimento médio é projetado em 3.530 quilos por hectare, a terceira melhor marca desde 2010, com Santa Fé perto de 4 toneladas por hectare. A colheita começa em novembro. O chefe de estimativas da BCR, Cristián Russo, disse que o outubro “atípico”, com frio, menos radiação e chuva abaixo do esperado, preocupa os produtores, mas que as temperaturas mais baixas compensam a falta de luz.
Na Argentina, a notícia foi recebida como oportunidade. Segundo o analista Eugenio Irazuegui, da corretora Zeni, ouvido pelo La Nación, o país exportou 11,8 milhões de toneladas de trigo em 2026 para 29 mercados, 2,95 milhões delas para compradores brasileiros, um quarto do total. O presidente da Federação Argentina da Indústria Moageira (FAIM), Diego Cifarelli, falou em “grande oportunidade para o trigo argentino e também para as farinhas argentinas”. Barbosa advertiu que, se a qualidade do grão argentino não melhorar em relação à última safra, o Brasil terá de importar ainda mais para compensar.
No Sul, colheita com PH baixo
No Rio Grande do Sul, a colheita chegou a 19% da área, com 35% das lavouras em enchimento de grãos e 45% em maturação, segundo o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar divulgado nesta quinta-feira (22). A produtividade é satisfatória, mas a qualidade ficou abaixo do esperado em parte das regiões, com peso do hectolitro reduzido e grãos avariados e chochos, depois do excesso de umidade e da pouca radiação que favoreceram giberela e brusone. Em Santa Rosa, as lavouras colhidas rendem entre 1.500 e 1.800 quilos por hectare; em Tenente Portela, o PH ficou abaixo de 74.
A segunda estimativa da Emater para a safra gaúcha aponta 763.121 hectares, 34,56% menos do que os 1.166.163 hectares de 2025, produtividade de 2.833 quilos por hectare e produção de 2.161.922 toneladas, queda de 37,48%. A Conab, por sua vez, prevê 2,26 milhões de toneladas no estado (−36,8%) e 2,16 milhões no Paraná (−21,9%), onde 62% da área estava colhida e as chuvas de setembro causaram acamamento. Em São Paulo, parte do trigo colhido não atingiu o tipo para ser comercializado. O preço médio da saca de 60 quilos no Rio Grande do Sul caiu 0,63% na semana, para R$ 73,69, com PH 78; na Bolsa de Cereais de Cruz Alta, o produto disponível vale R$ 82.
Centro-Oeste: 215 mil toneladas, com MS pela metade
O trigo do Centro-Oeste é pequeno, mas tem a maior produtividade do país. Pelo levantamento da Conab, Goiás, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal plantaram 70,5 mil hectares em 2026, 20,6% menos do que em 2025, e devem colher 215,1 mil toneladas, queda de 29,2%. O volume equivale a 3,8% da produção nacional, pelas contas do Campo em Pauta. Goiás responde por 147,6 mil toneladas (−21,5%) em 40 mil hectares, com rendimento de 3.690 quilos por hectare, 24,1% acima da média brasileira; o Distrito Federal colhe 30,4 mil toneladas (+2,7%) em 7,9 mil hectares, a 3.854 quilos por hectare, 29,6% acima da média, graças ao trigo irrigado.
Mato Grosso do Sul foi na direção contrária: a área caiu 37,9%, para 22,6 mil hectares, e a produtividade, 30,7%, para 1.641 quilos por hectare, o que derrubou a produção em 57%, para 37,1 mil toneladas. Segundo a Conab, a colheita está encerrada nos dois estados. Em Goiás, o trigo irrigado rendeu abaixo do esperado por causa da brusone, da suscetibilidade das cultivares e de chuvas fora de época no fim do ciclo, enquanto o sequeiro surpreendeu em áreas com cultivares tolerantes à seca. Em Mato Grosso do Sul, a umidade na floração favoreceu giberela e brusone, e parte das lavouras do oeste, com menos tecnologia, foi classificada como triguilho. É nesse Cerrado irrigado que a Abitrigo quer apoiar a expansão que pede ao próximo governo.
Com informações de Safras & Mercado (Abitrigo), La Nación (Abitrigo, FAIM, Zeni), Safras & Mercado (BCR), CNN Brasil (Reuters, BCR), Mais Soja (Emater/RS-Ascar, Informativo Conjuntural 1942), Mais Soja (Emater/RS-Ascar, segunda estimativa da safra de inverno), Conab (1º levantamento da safra 2026/27, planilha por produto, aba Trigo) e Conab (boletim do 1º levantamento da safra 2026/27, trigo, tabelas 16 e 17).



